Capítulo 9

1539 Words
O evento havia terminado apenas algumas horas antes, mas a tensão ainda se arrastava como uma sombra pesada nos ombros de Elowen. O carro avançava pelas ruas iluminadas da cidade, o reflexo dos prédios cintilando contra os vidros escuros. Kael estava sentado ao lado dela, silencioso, o maxilar rígido, a mão apoiada sobre a coxa em um gesto de absoluto controle — não sobre ela, mas sobre si mesmo, como se cada músculo lutasse para não explodir. Elowen sentia a eletricidade entre eles. O confronto com Adrian Cortez tinha marcado a noite, e mesmo que Kael não tivesse perdido o controle diante de todos, ela percebera cada detalhe: o olhar gelado, a ameaça velada em cada palavra, a raiva contida que vibrava como um trovão preso no peito dele. Ela respirou fundo, tentando manter a calma, mas o silêncio dele era mais sufocante que qualquer discussão. O carro parou diante da mansão, e quando o motorista abriu a porta, Kael saiu primeiro. Não ofereceu a mão, não disse nada — apenas esperou, com a postura ereta e a expressão fechada, que ela o acompanhasse. Dentro da mansão, o clima era ainda mais opressor. As luzes eram baixas, o ar parecia mais denso. Elowen se sentou em uma das poltronas do salão, tentando aliviar a tensão, mas Kael não lhe deu tempo. Ele tirou o paletó com um movimento rápido e o jogou sobre o encosto da cadeira, a respiração pesada. — Você viu o que ele tentou fazer — disse ele, finalmente, a voz baixa, mas carregada de veneno. Elowen ergueu os olhos, cautelosa. — Adrian? Kael girou a cabeça lentamente, fixando o olhar sobre ela. — Não fale o nome dele. Ela engoliu em seco. Havia algo de selvagem nele naquele momento, um controle frágil sustentado por pura disciplina. — Ele só queria te provocar — respondeu ela, escolhendo as palavras com cuidado. — É isso que rivais fazem. Kael deu uma risada curta, sem humor, antes de se aproximar dela. — Não. Ele queria mais. Ele quis testar até onde podia ir. E achou que poderia fazer isso usando você. Elowen sentiu um arrepio subir pela espinha. A proximidade dele a deixava sem ar, e a intensidade do olhar era sufocante. — Eu não dei a******a — disse ela, firme, tentando mostrar que não era uma peça frágil. — Não olhei para ele, não respondi a nenhuma provocação. Kael inclinou-se sobre ela, apoiando as mãos nos braços da poltrona, aprisionando-a em sua presença. — Não precisa dar a******a. Basta existir. Você ainda não entendeu, Elowen. — Ele estreitou os olhos. — Você é uma isca perfeita. Não porque quer, mas porque chama atenção. Ela desviou o olhar, pressionando os lábios. — Isso não é culpa minha. — Eu sei — respondeu ele, baixo, quase como um sussurro de ameaça e confissão ao mesmo tempo. — Mas ainda assim, é uma arma contra mim. O silêncio caiu entre eles, carregado. Elowen sentia o coração acelerar, não apenas pelo medo, mas por algo mais que ela não queria nomear. Havia uma intensidade em Kael que a confundia — ele não a via como uma igual, mas também não a tratava como descartável. Havia algo ali, algo que escapava às palavras. Kael se afastou lentamente, mas a tensão não diminuía. Ele caminhou até a mesa, serviu-se de um copo de uísque e bebeu de um só gole, como se o álcool fosse a única coisa capaz de conter o fogo que queimava dentro dele. — Adrian Cortez sempre foi um problema — disse, finalmente. — Mas agora ele cruzou uma linha. Elowen hesitou. — O que vai fazer? Kael virou o rosto para ela, o olhar escuro faiscando. — O que sempre faço. Colocar cada peça no lugar certo. Ela quis perguntar mais, mas sabia que havia limites. Ele não a deixaria entrar naquele mundo de estratégias e vinganças. Ainda assim, a forma como ele a incluía, mesmo sem querer, a fazia perceber que, de alguma forma, já estava no meio do tabuleiro. Na manhã seguinte, a mansão estava tomada por movimento. Homens de terno circulavam pelos corredores, carregando pastas, sussurrando informações, atendendo telefonemas. Elowen observava da varanda do quarto, tentando captar fragmentos de conversa, mas era impossível. Kael mantinha tudo sob sigilo. Quando finalmente entrou no quarto, a presença dele dominou o espaço de imediato. Estava de camisa escura, mangas dobradas, a gravata solta ao redor do pescoço. Havia cansaço em seus olhos, mas também determinação. — Vista-se — disse ele, seco. — Temos outro compromisso. Elowen ergueu as sobrancelhas. — Outro evento? — Reunião. — Ele se aproximou, entregando-lhe uma caixa. — E quero você comigo. Ela abriu a caixa e encontrou um vestido azul-marinho, elegante e sóbrio. Mais discreto que o da noite anterior, mas igualmente marcante. — Por quê? — perguntou ela, desconfiada. — Por que eu preciso estar lá? Kael manteve os olhos fixos nela. — Porque Adrian estará lá. O nome caiu como uma pedra no ar. Elowen sentiu o estômago revirar. — E você quer que eu…? — Quero que você esteja ao meu lado — interrompeu ele, a voz firme. — Só isso. Ela assentiu lentamente, sentindo o peso da decisão. Não era apenas uma reunião; era um campo de batalha silencioso. O salão da reunião era diferente do evento beneficente. Menor, mais formal, repleto de homens de poder — empresários, políticos, figuras de influência. O ar estava carregado de tensão, cada palavra medida, cada sorriso uma arma escondida. Kael entrou primeiro, e todos os olhares se voltaram para ele. Elowen, ao seu lado, sentiu os olhares curiosos, avaliadores, alguns até audaciosos. Mas nenhum se comparava ao de Adrian Cortez, que já estava lá, sentado à mesa central, um sorriso debochado iluminando seu rosto ao vê-los se aproximarem. — Ravelli — disse Adrian, levantando-se. — Que surpresa agradável. E trouxe sua joia novamente. Kael parou diante dele, o corpo rígido como aço. — Cuidado com as palavras, Cortez. Adrian deu de ombros, o sorriso nunca desaparecendo. — Apenas elogiando. Você sempre teve bom gosto… em negócios, em alianças… e agora em companhia. Elowen sentiu o olhar dele percorrer seu corpo, e instintivamente se aproximou de Kael, quase se escondendo em sua sombra. O movimento fez o rival sorrir ainda mais. — Interessante. Ela já sabe onde é o lugar dela — disse Adrian, provocando. Foi rápido. Kael avançou um passo, o tom da voz descendo a um nível que fazia a sala inteira gelar. — Se abrir essa boca de novo para falar dela, eu juro que vou calar você aqui mesmo. O silêncio caiu. Alguns homens desviaram o olhar, outros prenderam a respiração. Adrian manteve o sorriso, mas havia um brilho diferente em seus olhos agora — uma mistura de cautela e desafio. — Tão protetor, Kael — disse, baixinho, quase como uma provocação íntima. — Isso pode ser sua fraqueza. Kael cerrou os punhos, e por um instante pareceu que perderia o controle. Mas ele respirou fundo, ergueu o queixo e falou com a firmeza de quem sabia que estava no comando. — Minha fraqueza seria deixar você pensar que tem algum poder sobre o que é meu. — Ele se inclinou levemente para a frente, os olhos queimando de raiva contida. — E você nunca terá. Elowen ficou imóvel, o coração disparado. As palavras dele a atingiram como uma corrente elétrica — não pela declaração em si, mas pela intensidade. Ele a reivindicava como parte de sua vida, de seu domínio, e mesmo que fosse sufocante, havia algo naquele gesto que a fazia sentir-se protegida. Adrian, por fim, recuou, levantando as mãos em falso gesto de paz. — Muito bem, Ravelli. Vamos manter as formalidades. Mas o brilho nos olhos dele deixava claro: aquela guerra estava apenas começando. Horas depois, de volta à mansão, Kael estava diferente. Caminhava de um lado para o outro no escritório, os passos pesados, o olhar distante. Elowen, sentada no sofá, observava em silêncio. — Você deveria ter ficado em casa — disse ele, de repente, sem olhar para ela. — Mas você me levou — respondeu ela, calma. Ele parou, virando-se bruscamente. — Porque queria que ele visse. Queria que ele entendesse que você está comigo. — Ele respirou fundo, a raiva ainda vibrando. — Mas talvez tenha sido um erro. Elowen ergueu o queixo, desafiando-o com os olhos. — Você acha que me expor é proteger? Kael se aproximou dela em passos firmes, parando a poucos centímetros. — Acho que mostrar a ele que você não está disponível é o suficiente para mantê-lo longe. Ela o encarou, firme. — E se não for? Kael inclinou a cabeça, o olhar escurecendo ainda mais. — Então ele vai descobrir o preço de tocar no que é meu. Elowen sentiu o coração bater forte. Não havia ternura nas palavras dele, mas havia uma promessa de aço, de p******o inabalável. E, contra a própria vontade, uma parte dela se sentiu segura naquele abismo. O silêncio caiu novamente, pesado e carregado de tensão. Ela desviou o olhar, tentando recuperar o fôlego, enquanto Kael permanecia ali, imponente, controlador, como uma muralha viva entre ela e o mundo. E, no fundo, Elowen sabia: Adrian Cortez não desistiria tão fácil.
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