Capítulo 6

1289 Words
O sol ainda estava tímido no horizonte quando Elowen se levantou, o corpo pesado e a mente exausta. A mansão, àquela hora, parecia engolir o pouco de luz que escapava pelas janelas altas. O silêncio era quase palpável, quebrado apenas pelo som distante de passos nos corredores ou de portas sendo abertas e fechadas por algum funcionário ou guarda. Ela se espreguiçou, tentando aliviar a rigidez da noite, mas a sensação de confinamento não a deixava. Cada canto da mansão, cada corredor, cada sombra lembrava que ela não era dona daquele espaço. A luxúria e a grandiosidade escondiam armadilhas sutis, mas mortais — homens armados, câmeras, portas trancadas — tudo era parte do império de Kael Ravelli. Elowen suspirou. Precisava pensar. Precisava manter a mente afiada. A raiva e o medo eram combustíveis que não poderiam consumi-la. Logo, a porta do quarto se abriu com um estalo seco. Ela se virou antes mesmo de ouvir qualquer som e encontrou Kael parado na entrada, impecável, imponente, absoluto. O terno n***o acentuava os ombros largos e o corpo firme, e o olhar escuro, penetrante, parecia sondar cada parte de sua mente antes mesmo que ela pronunciasse qualquer palavra. — Bom dia — disse ele, com a voz baixa e firme, cada sílaba carregada de controle. — Bom dia — respondeu ela, mantendo firmeza, tentando não demonstrar quanto o coração acelerava. Ele não sorriu. Nem precisava. O poder em sua presença falava por si só. Aproximou-se, os passos firmes ressoando no chão de madeira, até ficar diante dela, a poucos metros. — Hoje será diferente — disse ele. — Você poderá ligar para sua amiga. Elowen arqueou uma sobrancelha, surpresa e cautelosa. — Posso? Kael avaliou-a com um olhar que não permitia evasivas. — Sim. Mas estarei aqui. Cada palavra será monitorada. Qualquer tentativa de manipulação e haverá consequências. Ela engoliu em seco. A chance de ouvir uma voz familiar, de se conectar com o mundo fora daquela mansão, era preciosa. — Por favor… só quero falar com ela. Ouvir a voz dela — disse, baixando a guarda apenas o suficiente para demonstrar sinceridade. — Então seja breve — respondeu Kael, a voz firme como aço. — Duas ou três frases. Nada mais. Elowen respirou fundo, tentando controlar a ansiedade. — Tudo bem. Ele fez um gesto para chamar um dos funcionários, que trouxe o telefone antigo com o cabo enrolado, um aparelho pesado, frio ao toque. Elowen segurou o fone com as mãos trêmulas por um instante, cada músculo do corpo tenso. — Lembre-se — disse Kael, a voz tão baixa que parecia cortar o ar — isso não é um privilégio. É uma concessão. Ela assentiu, consciente do perigo, e discou o número de Nyra. Os segundos que se seguiram pareciam uma eternidade, cada toque do telefone ecoando no quarto silencioso, cada batida do coração de Elowen marcando o tempo. Até que a voz da amiga respondeu: — Elowen? — A voz de Nyra estava carregada de preocupação, de alívio contido, mas havia também determinação, feroz e direta. — Você está bem? Onde você está? O coração de Elowen acelerou. — Estou… bem — disse, procurando soar calma. — Mas não posso dizer muito. — Não precisa. — Nyra respondeu rapidamente. — Eu fui atrás do seu pai. Ele contou tudo. Eu vou tirar você daí. Farei qualquer coisa para te trazer de volta. Uma pontada de esperança surgiu dentro dela. Nyra não era apenas amiga; era uma guerreira, alguém que enfrentaria qualquer perigo. Ela sentiu gratidão misturada com medo. — Nyra… — começou, mas Kael interveio, a voz baixa, cortante: — Duas ou três frases. Sem detalhes. Ela apertou os lábios, segurando o fone mais firme. — Nyra… obrigada. Por não me deixar. — Sempre, Elowen — disse Nyra. — Mas seja cautelosa. Eles são perigosos, mais do que você pode imaginar. Elowen assentiu, sentindo a tensão voltar, mas também um fio de determinação acender. — Eu sei. Vou ser cuidadosa. Kael se aproximou, o olhar perfurando cada nuance do seu rosto. — Lembre-se — disse, quase entre dentes — você não é livre. Qualquer deslize terá consequências. Ela segurou o olhar dele, firme, calculando cada palavra. — Não estou tentando ser livre. Estou tentando sobreviver. O silêncio pairou entre eles, pesado, carregado de tensão. Finalmente, ele se afastou um passo, permitindo que ela continuasse, embora a vigilância permanecesse inalterada. — Nyra — disse ela rapidamente — estou com saudades, mas vou conseguir me manter firme. Só não desista de mim, por favor. — Jamais, Elowen — respondeu Nyra. — Vou fazer tudo. Você me entende? Qualquer coisa que precisar, eu farei. Elowen sentiu lágrimas ameaçarem cair, mas respirou fundo. — Eu sei. Obrigada. O telefone voltou à base, e Kael pegou o aparelho com delicadeza controlada. — Tempo esgotado — disse, a voz baixa, firme, intensa, lembrando que ele ainda detinha todo o poder na situação. Ela respirou fundo, sentindo a adrenalina diminuir, mas o medo ainda pulsava. Nyra havia lhe dado força, mas Kael estava ali, controlando cada movimento. — Agora — disse ele, sentando-se novamente à frente dela — quero que compreenda algo: cada palavra sua é medida. Não tente enganar. Ela olhou para ele, firme, mas a mente já trabalhava a toda velocidade, calculando cada próximo passo, cada deslize possível, cada oportunidade de jogar o próprio jogo dentro da armadilha dele. Kael se inclinou levemente, os olhos escuros fixos nos dela, penetrantes. — Qualquer distração, qualquer tentativa de subverter minha autoridade… vai custar caro. Ela não recuou, mas sentiu a tensão percorrer seu corpo. — Eu não vou enganar você. — A afirmação saiu firme, carregada de desafio e estratégia ao mesmo tempo. Ele se recostou, os dedos entrelaçados sobre o colo, ainda com o olhar fixo nela. — Vejo que tem resistência. Bom. Mas saiba que, aqui, resistência e rebeldia são uma questão de tempo — e paciência. Elowen respirou fundo. — Então veremos de quem será a paciência primeiro. Kael arqueou levemente uma sobrancelha, como se aquela resposta fosse uma provocação, mas não se moveu. Apenas estudou-a, silencioso, uma força calculada que preenchia o quarto. Ela percebeu, mais uma vez, que não estava lidando com um homem comum. Kael Ravelli controlava tudo, cada detalhe, cada sombra, cada palavra. Mas havia algo que ele ainda não entendia: a determinação de Elowen. Um fogo que não se apagava, mesmo diante da opressão. O resto da manhã passou em silêncio tenso. Kael não se afastou, nem deixou de observá-la, e cada movimento seu era medido. Elowen sentiu cada segundo, cada respiração, cada batida do coração, como se fossem armas em uma batalha silenciosa. Ela sabia que aquela conversa com Nyra não era apenas um privilégio; era uma chance de lembrar quem ela era fora da mansão, fora do império de Kael, e por um instante, trouxe coragem suficiente para queimar o medo com determinação. Quando ele finalmente se levantou, sinalizando que o momento havia acabado, Elowen sentiu o peso da vigilância dele recuar um pouco, mas não sumir. Cada palavra, cada gesto, cada olhar continuava carregado de intenção, e ela sabia que aquele era apenas o começo de um jogo maior. Kael se aproximou da porta, parando por um instante, e disse, a voz baixa, firme: — Faça bom uso daquilo que tem. Mas não se esqueça… cada liberdade aqui tem um preço. Ela assentiu, silenciosa, enquanto ele saía, deixando o quarto envolto em silêncio novamente, mas agora com um fio de esperança, misturado à tensão: Nyra estava lá fora, determinada a salvá-la. E Elowen precisava sobreviver até que isso acontecesse. O dia m*l começava, mas a batalha já estava em curso, entre paredes de luxo, ameaças silenciosas e uma determinação que nenhum poder poderia quebrar.
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