A manhã amanheceu estranha. O sol brilhava lá fora, mas dentro da mansão ainda pairava a sombra da noite anterior. Elowen m*l dormira, atormentada pelo confronto com Kael e pelo modo feroz com que ele a observara na escuridão. As palavras dele ainda ecoavam em sua mente, duras, pesadas, mas também carregadas de algo que não sabia nomear.
Desceu as escadas devagar, esperando encontrar a mansão no mesmo silêncio sufocante. Mas logo percebeu que algo estava diferente. Dois seguranças estavam no hall, conversando em voz baixa, sérios demais para ser apenas rotina. Ao notá-la, se endireitaram rapidamente, como se escondessem algo.
Elowen franziu a testa. — O que aconteceu?
— Senhorita, é melhor não… — começou um deles, mas parou quando uma voz cortante ecoou atrás.
— Deixe comigo.
Kael surgiu no corredor, impecável em uma camisa escura, mas o olhar ainda mais sombrio do que de costume. Ele trazia algo na mão: um envelope amassado, como se já tivesse sido manipulado várias vezes.
Elowen sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. — O que é isso?
Kael não respondeu de imediato. Apenas dispensou os seguranças com um gesto firme. Quando ficaram a sós, ele se aproximou dela, estendendo o envelope.
— Isso foi deixado no portão esta manhã.
Elowen pegou o envelope com mãos trêmulas. O papel era áspero, comum, mas havia uma mancha escura no canto, que poderia muito bem ser sangue seco. O coração dela disparou. Com cuidado, puxou a carta de dentro.
A caligrafia era irregular, quase rabiscada, como se tivesse sido escrita às pressas ou com raiva.
"Não importa o quanto se esconda atrás de muros e seguranças, Kael. Eu sei onde atacar. E não vai ser você a minha primeira vítima. Talvez a doce Elowen queira descobrir como é viver sob medo verdadeiro."
O papel quase escorregou das mãos dela. O nome… o próprio nome estampado ali, usado como ameaça. O estômago se revirou, e por um momento ela ficou sem ar.
— Eles sabem quem eu sou — sussurrou, sentindo o pânico se aproximar como uma onda.
Kael tomou a carta de volta antes que ela pudesse reagir mais. Dobrou o papel e o guardou no bolso interno da camisa, como se não pudesse suportar vê-la em contato com aquilo por muito tempo.
— É apenas uma provocação — disse, a voz grave, mas firme. — Não vai acontecer nada com você.
Elowen ergueu o olhar, chocada com a calma dele. — “Apenas uma provocação”? Kael, eles escreveram meu nome! Disseram que eu vou ser a primeira vítima!
Ele se aproximou, segurando-lhe os ombros com firmeza. — Escute. Eu já lidei com ameaças piores do que essa. Eles querem me desestabilizar, usar você como fraqueza. Mas não vão conseguir.
Elowen sentiu as pernas bambas, mas não se afastou. — Então me diga, Kael. Quem são “eles”?
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Kael desviou o olhar por um instante, como se lutasse contra algo interno. Depois, soltou-a devagar, passando a mão pelos cabelos. — Não é tão simples.
— Não é simples porque você não quer me contar — rebateu, com a voz firme apesar do medo. — Mas eu tenho o direito de saber. Essa carta me coloca no meio dessa guerra, Kael. Você acha que pode me proteger sem ao menos me deixar entender o que está acontecendo?
Ele a encarou de novo, o olhar sombrio, intenso. — Você realmente quer saber?
Elowen engoliu em seco. Parte dela queria fugir, esquecer que havia lido aquelas palavras. Mas outra parte — a mesma que não abaixava a cabeça diante dele — a impulsionava. — Sim.
Kael andou de um lado para o outro, como uma fera enjaulada. A tensão em cada músculo era visível. Por fim, parou diante dela.
— Eu tenho inimigos, Elowen. Pessoas que perderam muito por minha causa, que me odeiam a ponto de usar qualquer brecha para me atingir. — Fez uma pausa, a mandíbula rígida. — E você… é a brecha perfeita.
Ela sentiu o coração gelar. — Então… eu estou correndo risco real?
Os olhos dele faiscaram. — Enquanto eu respirar, ninguém encostará em você.
— Mas se eles já sabem meu nome, Kael… já sabem que eu estou aqui… — A voz dela falhou, carregada de medo.
Ele a interrompeu, firme: — Isso não muda nada. Você não vai sair desta casa sem escolta. E quem ousar se aproximar, vai morrer.
Elowen respirou fundo, tentando absorver aquelas palavras. Mas o medo ainda latejava em seu peito. — Eu não quero ser motivo para você travar uma guerra.
Kael deu um passo à frente, ficando tão próximo que ela pôde sentir o calor dele. — Já estou em guerra, Elowen. Você apenas se tornou a razão para eu não recuar.
O coração dela disparou. O modo como ele disse aquilo não era apenas uma promessa de p******o, mas também uma confissão velada — de desejo, de obsessão, talvez até de algo mais profundo.
— Então me diga… — murmurou ela, quase em súplica. — Quem exatamente escreveu essa carta?
Kael demorou para responder. O silêncio se arrastou até se tornar sufocante. Finalmente, ele falou:
— Um homem chamado Aric Veynar.
O nome não lhe dizia nada, mas o tom com que Kael o pronunciou fez o sangue de Elowen gelar.
— Ele já tentou me derrubar antes — continuou Kael. — Mas agora percebeu que não basta vir por mim. Então ameaça aqueles que estão perto.
— E eu sou uma dessas pessoas — disse Elowen, mais para si mesma do que para ele.
Kael segurou-lhe o rosto entre as mãos, obrigando-a a encará-lo. — Não. Você é a única pessoa.
O peso daquelas palavras a deixou sem ar.
Por um momento, apenas se olharam. Ela viu no rosto dele a mistura de raiva, culpa e algo mais — algo que o próprio Kael parecia lutar para não admitir.
— Eu não posso ser sua fraqueza, Kael — sussurrou.
Ele aproximou a testa da dela, fechando os olhos por um instante. — É tarde demais.
O silêncio que seguiu foi denso, cheio de sentimentos que nenhum dos dois ousava nomear.
Elowen finalmente se afastou um pouco, respirando fundo. — Então me prometa uma coisa.
Kael ergueu os olhos, atento. — Qualquer coisa.
— Não esconda mais nada de mim. Se eu estou nesse jogo, eu preciso saber as regras.
Ele a analisou longamente, como se pesasse cada palavra. Por fim, assentiu. — Está bem. Mas saiba… quanto mais souber, mais perigoso será.
Elowen ergueu o queixo. — Eu não tenho mais escolha, não é?
Kael esboçou um sorriso sombrio. — Não.
Ela recuou, abraçando a si mesma, tentando aquecer o corpo tomado por calafrios. O nome “Aric Veynar” ecoava em sua mente, junto com a promessa de que a ameaça era real.
Mas também havia a promessa de Kael. E, por mais contraditório que fosse, essa era a única coisa que lhe dava forças para permanecer.