O dia correu lento para Elowen, como se cada segundo fosse arrastado de propósito, apenas para lembrá-la do peso da prisão disfarçada de luxo. Mas naquela manhã, havia algo diferente no ar.
Kael surgiu em seu quarto pouco depois do café, sem qualquer aviso, impecável como sempre, o terno n***o moldando a figura larga e dominante. Seus olhos escuros percorreram-na de cima a baixo com a mesma calma de um predador que avalia seu território antes do ataque.
— Hoje à noite você vai comigo a um evento — disse ele, sem rodeios.
Elowen piscou, surpresa. — Um evento?
— Um baile beneficente — explicou, cruzando os braços. — Importante para certas aparências. Você vai me acompanhar.
A palavra “acompanhar” soou como uma sentença. Havia mais poder nela do que qualquer explicação que pudesse dar. Não era um convite, tampouco uma escolha; era uma ordem.
Elowen ergueu o queixo, firme. — E se eu não quiser?
Um canto do lábio dele se ergueu, não em sorriso, mas em aviso. — Não existe “não querer”, Elowen. Você vai estar ao meu lado.
Ela sentiu o coração acelerar, mas se manteve calada. Desafiar Kael em público já era perigoso; desafiá-lo ali, no silêncio da mansão, seria insensatez.
— Providenciei tudo — continuou ele, como se fosse natural. — Roupa, maquiagem, joias. Não se preocupe com nada.
O modo como falou a palavra “joias” fez Elowen se sentir como um acessório precioso que ele escolheria exibir. Uma parte dela se revoltou com a ideia; outra, mais silenciosa, sentiu o peso da curiosidade.
Horas depois, duas mulheres que pareciam especialistas em moldar aparências foram levadas até o quarto dela. Uma arara de vestidos longos e luxuosos foi aberta, expondo cores e tecidos que reluziam sob a luz. O escolhido era de seda preta, ajustado na cintura, com f***a lateral que revelava parte da perna. O decote era elegante, mas insinuava mais do que mostrava.
Quando Elowen se olhou no espelho, quase não se reconheceu. O cabelo caía em ondas suaves, os olhos realçados pela maquiagem escura, os lábios marcados por um vermelho profundo. Pela primeira vez desde que fora levada até aquela mansão, viu-se não como prisioneira, mas como algo que poderia ser confundido com poder.
O som de passos firmes anunciou a chegada dele. Elowen virou-se, e Kael estava parado na porta. Por um instante, silêncio. Os olhos dele a percorreram lentamente, como se tentassem memorizar cada detalhe. A postura dele não vacilou, mas havia algo diferente em seu olhar.
— Está… adequada — disse enfim, a voz mais grave do que de costume.
Elowen arqueou uma sobrancelha. — Só adequada?
Kael se aproximou, os passos medidos, o olhar carregado. Parou diante dela, e por um segundo o ar pareceu denso demais. A mão dele ergueu-se, roçando de leve o queixo dela para forçá-la a erguer o rosto.
— Não seja insolente. Você sabe que está deslumbrante. — A frase saiu baixa, quase como um aviso para si mesmo, e não para ela.
O coração dela disparou. Ele não precisava admitir mais nada; a intensidade nos olhos dele já dizia tudo.
O salão onde o evento acontecia parecia saído de outro mundo. Lustres de cristal espalhavam luz dourada, e os convidados, em seus trajes impecáveis, movimentavam-se entre taças de champanhe e conversas sussurradas sobre poder e negócios.
Kael entrou primeiro, imponente, e Elowen ao seu lado. O impacto foi imediato. Olhares se viraram, curiosos, cobiçosos, alguns surpresos.
— Quem é ela? — murmurou um homem ao fundo. — Uma raridade.
Elowen ouviu o comentário e percebeu a tensão sutil em Kael. Ele não reagiu, mas a forma como sua mão pousou firme na base das costas dela, guiando-a pelo salão, era resposta suficiente.
Durante os primeiros minutos, homens e mulheres se aproximaram, todos tentando entender quem era a bela mulher ao lado do intocável Kael Ravelli. Ele mantinha a calma, respondendo com frases curtas, mas a cada olhar direcionado a Elowen, seus olhos escureciam um pouco mais.
E então, como se o destino quisesse testar seus limites, ele apareceu.
Adrian Cortez.
Um homem de porte semelhante ao de Kael, terno cinza ajustado, sorriso afiado. Os olhos castanhos tinham brilho astuto, e havia algo em sua presença que deixava claro: não era apenas mais um convidado. Era rival.
— Ravelli — cumprimentou, a voz carregada de ironia. — Sempre o mesmo. Intocável. Imbatível.
Kael o olhou de cima a baixo, sem pressa. — Cortez. Ainda vivo? Pensei que já tivesse aprendido a não aparecer onde não é bem-vindo.
Adrian sorriu, inclinando a cabeça levemente para Elowen. — E quem é essa raridade que você trouxe hoje? — perguntou, como se ela fosse uma peça rara em exposição. — Um homem como você não costuma se arriscar em companhia… interessante.
Elowen sentiu o olhar dele sobre si, invasivo. Kael imediatamente se colocou meio passo à frente, bloqueando a visão, os olhos faiscando.
— Tire os olhos dela. — A voz de Kael era baixa, mas tão carregada de ameaça que por um instante o salão pareceu silenciar.
Adrian ergueu as mãos em falsa rendição. — Calma, Ravelli. Só elogiei. Uma mulher assim deveria ser celebrada, não escondida. Quem sabe ela apreciaria um homem menos… controlador?
O sangue de Kael ferveu. O maxilar dele se contraiu, e a mão sobre as costas de Elowen apertou levemente, como se reafirmasse posse.
— Se abrir essa boca mais uma vez para insinuar qualquer coisa, juro que não respondo pelo que vou fazer, Cortez. — O tom de voz saiu cortante, carregado de fúria contida.
Elowen, apesar do medo, sentiu uma onda estranha de eletricidade percorrer seu corpo. Ver Kael daquele jeito — tenso, possessivo, cada músculo pronto para explodir — era tão assustador quanto fascinante.
Adrian, no entanto, parecia se alimentar da raiva dele. — Você acha que pode manter tudo sob controle, Ravelli. Mas nem mesmo você pode prender o desejo de uma mulher. — O olhar dele deslizou novamente em direção a Elowen, rápido demais para que Kael não percebesse.
Foi o suficiente.
Kael avançou um passo brusco, o corpo ereto como uma muralha. — Se ousar repetir isso, Cortez, eu quebro sua cara aqui mesmo, diante de todos.
Adrian manteve o sorriso, mas recuou um pouco, satisfeito com o efeito que causara. — Sempre tão previsível. Até logo, Ravelli.
E então se afastou, deixando no ar a tensão densa como fumaça.
Kael respirou fundo, tentando se controlar. Virou-se para Elowen, os olhos ainda carregados de fúria. — Não dê atenção para ele.
Ela ergueu o queixo. — Não dei.
Os olhos dele a sondaram, buscando qualquer traço de mentira. Por fim, aproximou-se mais, a voz quase rosnada: — Você está comigo. E ninguém — absolutamente ninguém — vai sequer pensar em mudar isso.
Elowen sentiu o coração bater forte, mas manteve o olhar firme. — Eu não sou propriedade sua.
Kael se inclinou, os lábios perto do ouvido dela. — Não, mas esta noite você é minha acompanhante. E todos aqui vão entender isso.
O arrepio que percorreu o corpo dela não tinha explicação simples.
O resto da noite se arrastou entre conversas superficiais, risos forçados e olhares que Kael interceptava com sua presença dominadora. Adrian Cortez permaneceu à distância, mas Elowen sentia os olhos dele de tempos em tempos, como se planejasse algo.
Kael, no entanto, parecia não desgrudar dela um segundo sequer. Sua mão guiava, sua sombra cobria, sua autoridade era inabalável. Havia algo de sufocante nisso, mas também um calor inesperado: a estranha sensação de estar protegida dentro daquela prisão de controle.
Quando finalmente deixaram o salão, já madrugada, Kael manteve o silêncio até que o carro deslizou pelas ruas. Só então falou, sem olhar para ela:
— Cortez não vai ousar tentar nada. Mas se tentar, ele vai se arrepender.
Elowen cruzou os braços, olhando pela janela. — Você parece com medo de perdê-la.
Ele virou o rosto lentamente, os olhos faiscando. — Eu não perco nada, Elowen. Tudo que está comigo, permanece.
A intensidade na voz dele fez o coração dela disparar. Parte de si queria responder, provocá-lo. Outra parte apenas ficou em silêncio, tentando decifrar o homem ao seu lado.
E Kael, rígido, manteve os olhos fixos na estrada, mas por dentro ardia com algo que nunca admitiria em voz alta: ciúme.