Capítulo 22

1394 Words
Elowen passou o resto do dia com a carta gravada na mente como uma tatuagem invisível. Podia sentir cada palavra ainda latejando em seu peito, o nome escrito ali como uma marca que não podia apagar. O medo se misturava com indignação, e a lembrança do olhar de Kael, firme e decidido, a prendia em uma teia da qual não conseguia escapar. À noite, enquanto caminhava pelos corredores silenciosos da mansão, ouviu vozes baixas vindas da sala de armas — um espaço amplo onde Kael reunia seus homens de confiança. O instinto dizia para se manter afastada, mas a curiosidade foi mais forte. Aproximou-se devagar, parando perto da porta entreaberta. Riven estava lá dentro, de costas para ela, discutindo com outro segurança. A voz dele carregava um tom irritado, quase impaciente. — Não é só uma ameaça vazia — dizia ele. — Aric Veynar não envia recados sem ter algo planejado. Se já descobriu o nome da garota, é porque tem olhos dentro desta casa ou perto dela. O outro homem hesitou. — Você acha que há um traidor? Riven bufou. — Não descarto nada. Mas uma coisa é certa: Kael está se cegando. Está deixando que a presença de Elowen afete sua lógica. Elowen sentiu o coração apertar. Ouvir o próprio nome daquele jeito, como se fosse uma variável perigosa em uma equação de guerra, a fez prender a respiração. Riven continuou: — Ela é o elo fraco. Veynar vai mirar nela porque sabe que Kael não pensa direito quando se trata da garota. E se isso acontecer, nós todos pagaremos o preço. O sangue de Elowen gelou. Queria recuar, mas um estalo no assoalho a entregou. A conversa cessou imediatamente, e em segundos Riven surgiu na porta, os olhos frios fixos nela. — Está se divertindo espionando, Elowen? — perguntou, com um meio sorriso sarcástico. Ela respirou fundo, tentando não demonstrar nervosismo. — Eu não estava espionando. Só ouvi vozes. — Claro que sim. — Ele cruzou os braços, aproximando-se. — E, já que está tão curiosa, venha. Vamos conversar. O outro segurança se retirou rapidamente, deixando-os a sós. Riven fechou a porta atrás de si e se apoiou na mesa, observando-a com aquele olhar intenso que parecia despir cada pensamento. — O que exatamente você ouviu? — perguntou. — O suficiente para saber que não confia em mim — respondeu ela, firme, ainda que por dentro sentisse o coração disparar. Riven arqueou uma sobrancelha. — Eu não confio em ninguém. E, no seu caso, não é questão de confiança… é de perigo. — Perigo? — Ela cruzou os braços, encarando-o. — Se alguém aqui está em perigo, esse alguém sou eu. Não pedi para estar nessa guerra, Riven. Ele soltou uma risada seca. — Não pediu, mas está. E, acredite, não faz ideia do quão fundo isso vai. Elowen deu um passo à frente, determinada. — Então me explique. Quem é Aric Veynar? O que ele quer de Kael? Riven estreitou os olhos, estudando-a. Por um instante, pareceu lutar contra a vontade de falar. Então suspirou. — Veynar era aliado de Kael, anos atrás. Um homem astuto, calculista, mas sempre com sede de poder. Eles dividiram territórios, negócios… até que Veynar quis mais. — Mais? — Ele queria o trono inteiro — respondeu, a voz carregada de desdém. — Queria que Kael se ajoelhasse. Mas Kael não se ajoelha para ninguém. A guerra começou ali. Homens morreram, famílias foram destruídas. Veynar perdeu quase tudo… e jurou vingança. Elowen engoliu em seco, absorvendo cada palavra. — E agora ele está voltando. Riven assentiu. — Voltando e mirando naquilo que Kael não pode perder. O peso daquelas palavras caiu sobre ela como uma pedra. — Eu. Riven não negou. Apenas a observou, sério, como se confirmasse em silêncio. Por alguns segundos, o silêncio foi absoluto. Elowen sentiu um nó na garganta, mas manteve a postura. — Se eu sou o alvo, tenho o direito de saber tudo. Não vou ficar escondida como uma criança, esperando vocês decidirem meu destino. Os olhos de Riven faiscaram com algo inesperado — talvez respeito, talvez irritação. Ele se levantou da mesa e se aproximou, parando a poucos centímetros dela. — Você é corajosa, eu admito — murmurou, o olhar descendo involuntariamente para a boca dela por uma fração de segundo, antes de voltar aos olhos. — Mas coragem não basta quando se trata de Veynar. Elowen sentiu o ar rarear. O jeito como ele a olhava, a tensão que se instalava entre os dois, era diferente — perigosa. O coração dela disparou, mas não desviou o olhar. — Então me diga o que basta — desafiou. Riven inclinou a cabeça, um sorriso quase imperceptível surgindo nos lábios. — Talvez… não se aproximar demais de Kael. Você já percebeu que ele a coloca em risco, não é? — Eu não pedi para ele me proteger — retrucou. — Mas ele vai proteger. Nem que isso custe tudo. — A voz dele estava carregada de algo que parecia inveja, ou talvez fúria contida. — E quando Kael perde o controle… todos nós pagamos. Elowen respirou fundo, sentindo a tensão aumentar. — Você fala como se me odiasse. Riven aproximou o rosto, os olhos queimando nos dela. — Eu não a odeio, Elowen. — A voz era baixa, quase um sussurro. — Só queria que você entendesse a tempestade em que entrou. Por um instante, o silêncio foi quebrado apenas pela respiração dos dois. Ela percebeu os olhos dele baixarem novamente, quase contra a vontade, para seus lábios. A fração de segundos pareceu uma eternidade. O ar ao redor parecia eletrificado. Antes que algo pudesse acontecer, a porta se abriu de repente. Kael entrou, o olhar feroz ao ver a cena: Riven perto demais, o corpo inclinado sobre Elowen. — O que diabos está acontecendo aqui? — a voz dele cortou o ar como uma lâmina. Riven recuou lentamente, mas manteve o olhar desafiador fixo em Kael. — Apenas conversávamos. Kael avançou, a fúria evidente em cada passo. — Eu não quero você perto dela. — Talvez devesse querer — rebateu Riven, com calma provocativa. — Já que você anda mais cego do que nunca. O clima ficou insuportável, denso, como se uma briga pudesse explodir a qualquer segundo. Elowen, tomada pela tensão, interveio. — Chega! — gritou, a voz firme. — Vocês dois não percebem que isso não ajuda em nada? O silêncio caiu. Kael desviou o olhar para ela, os olhos escuros ainda cheios de raiva. Riven, por outro lado, apenas a observou com uma mistura de fascínio e respeito. — Eu só quero respostas — disse Elowen, com firmeza. — Se estou correndo risco, preciso entender como me defender. Kael respirou fundo, visivelmente se esforçando para conter a explosão. — Você não precisa se defender. Eu estou aqui para isso. — Mas e se você falhar? — retrucou ela, sem pensar. A raiva nos olhos de Kael se misturou com dor, e por um momento ele ficou em silêncio. Então virou-se para Riven. — Saia. Agora. Riven hesitou, mas obedeceu, lançando um último olhar a Elowen antes de sair. Um olhar carregado de algo que ela não soube decifrar — talvez um aviso, talvez um desejo. Quando ficaram a sós, Kael se aproximou, segurando-lhe os ombros com força. — Nunca mais fique sozinha com ele. Elowen arregalou os olhos. — Ele só estava me explicando sobre Veynar. — Ele não tem o direito de explicar nada a você — rosnou Kael. — Esse papel é meu. — Então cumpra esse papel! — gritou ela de volta, a voz embargada. — Pare de me deixar às cegas! O silêncio que seguiu foi quebrado apenas pela respiração pesada dos dois. Kael fechou os olhos por um instante, como se lutasse contra si mesmo. Depois, abriu-os de novo, firmes. — Está bem — disse, mais calmo. — Eu vou lhe contar tudo. Mas saiba… depois disso, não haverá volta. Elowen engoliu em seco, o coração acelerado. Sabia que sua vida já havia mudado desde o momento em que entrou naquela mansão. E agora, com a sombra de Aric Veynar pairando sobre eles, não havia mais espaço para inocência. — Eu quero saber — respondeu, firme. Kael a observou longamente, depois assentiu. — Então amanhã, ao amanhecer, você terá suas respostas. Ela respirou fundo, ciente de que aquela promessa mudaria tudo.
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