Elowen passou o resto do dia com a carta gravada na mente como uma tatuagem invisível. Podia sentir cada palavra ainda latejando em seu peito, o nome escrito ali como uma marca que não podia apagar. O medo se misturava com indignação, e a lembrança do olhar de Kael, firme e decidido, a prendia em uma teia da qual não conseguia escapar.
À noite, enquanto caminhava pelos corredores silenciosos da mansão, ouviu vozes baixas vindas da sala de armas — um espaço amplo onde Kael reunia seus homens de confiança. O instinto dizia para se manter afastada, mas a curiosidade foi mais forte. Aproximou-se devagar, parando perto da porta entreaberta.
Riven estava lá dentro, de costas para ela, discutindo com outro segurança. A voz dele carregava um tom irritado, quase impaciente.
— Não é só uma ameaça vazia — dizia ele. — Aric Veynar não envia recados sem ter algo planejado. Se já descobriu o nome da garota, é porque tem olhos dentro desta casa ou perto dela.
O outro homem hesitou. — Você acha que há um traidor?
Riven bufou. — Não descarto nada. Mas uma coisa é certa: Kael está se cegando. Está deixando que a presença de Elowen afete sua lógica.
Elowen sentiu o coração apertar. Ouvir o próprio nome daquele jeito, como se fosse uma variável perigosa em uma equação de guerra, a fez prender a respiração.
Riven continuou: — Ela é o elo fraco. Veynar vai mirar nela porque sabe que Kael não pensa direito quando se trata da garota. E se isso acontecer, nós todos pagaremos o preço.
O sangue de Elowen gelou. Queria recuar, mas um estalo no assoalho a entregou. A conversa cessou imediatamente, e em segundos Riven surgiu na porta, os olhos frios fixos nela.
— Está se divertindo espionando, Elowen? — perguntou, com um meio sorriso sarcástico.
Ela respirou fundo, tentando não demonstrar nervosismo. — Eu não estava espionando. Só ouvi vozes.
— Claro que sim. — Ele cruzou os braços, aproximando-se. — E, já que está tão curiosa, venha. Vamos conversar.
O outro segurança se retirou rapidamente, deixando-os a sós. Riven fechou a porta atrás de si e se apoiou na mesa, observando-a com aquele olhar intenso que parecia despir cada pensamento.
— O que exatamente você ouviu? — perguntou.
— O suficiente para saber que não confia em mim — respondeu ela, firme, ainda que por dentro sentisse o coração disparar.
Riven arqueou uma sobrancelha. — Eu não confio em ninguém. E, no seu caso, não é questão de confiança… é de perigo.
— Perigo? — Ela cruzou os braços, encarando-o. — Se alguém aqui está em perigo, esse alguém sou eu. Não pedi para estar nessa guerra, Riven.
Ele soltou uma risada seca. — Não pediu, mas está. E, acredite, não faz ideia do quão fundo isso vai.
Elowen deu um passo à frente, determinada. — Então me explique. Quem é Aric Veynar? O que ele quer de Kael?
Riven estreitou os olhos, estudando-a. Por um instante, pareceu lutar contra a vontade de falar. Então suspirou. — Veynar era aliado de Kael, anos atrás. Um homem astuto, calculista, mas sempre com sede de poder. Eles dividiram territórios, negócios… até que Veynar quis mais.
— Mais?
— Ele queria o trono inteiro — respondeu, a voz carregada de desdém. — Queria que Kael se ajoelhasse. Mas Kael não se ajoelha para ninguém. A guerra começou ali. Homens morreram, famílias foram destruídas. Veynar perdeu quase tudo… e jurou vingança.
Elowen engoliu em seco, absorvendo cada palavra. — E agora ele está voltando.
Riven assentiu. — Voltando e mirando naquilo que Kael não pode perder.
O peso daquelas palavras caiu sobre ela como uma pedra. — Eu.
Riven não negou. Apenas a observou, sério, como se confirmasse em silêncio.
Por alguns segundos, o silêncio foi absoluto. Elowen sentiu um nó na garganta, mas manteve a postura. — Se eu sou o alvo, tenho o direito de saber tudo. Não vou ficar escondida como uma criança, esperando vocês decidirem meu destino.
Os olhos de Riven faiscaram com algo inesperado — talvez respeito, talvez irritação. Ele se levantou da mesa e se aproximou, parando a poucos centímetros dela.
— Você é corajosa, eu admito — murmurou, o olhar descendo involuntariamente para a boca dela por uma fração de segundo, antes de voltar aos olhos. — Mas coragem não basta quando se trata de Veynar.
Elowen sentiu o ar rarear. O jeito como ele a olhava, a tensão que se instalava entre os dois, era diferente — perigosa. O coração dela disparou, mas não desviou o olhar.
— Então me diga o que basta — desafiou.
Riven inclinou a cabeça, um sorriso quase imperceptível surgindo nos lábios. — Talvez… não se aproximar demais de Kael. Você já percebeu que ele a coloca em risco, não é?
— Eu não pedi para ele me proteger — retrucou.
— Mas ele vai proteger. Nem que isso custe tudo. — A voz dele estava carregada de algo que parecia inveja, ou talvez fúria contida. — E quando Kael perde o controle… todos nós pagamos.
Elowen respirou fundo, sentindo a tensão aumentar. — Você fala como se me odiasse.
Riven aproximou o rosto, os olhos queimando nos dela. — Eu não a odeio, Elowen. — A voz era baixa, quase um sussurro. — Só queria que você entendesse a tempestade em que entrou.
Por um instante, o silêncio foi quebrado apenas pela respiração dos dois. Ela percebeu os olhos dele baixarem novamente, quase contra a vontade, para seus lábios. A fração de segundos pareceu uma eternidade. O ar ao redor parecia eletrificado.
Antes que algo pudesse acontecer, a porta se abriu de repente. Kael entrou, o olhar feroz ao ver a cena: Riven perto demais, o corpo inclinado sobre Elowen.
— O que diabos está acontecendo aqui? — a voz dele cortou o ar como uma lâmina.
Riven recuou lentamente, mas manteve o olhar desafiador fixo em Kael. — Apenas conversávamos.
Kael avançou, a fúria evidente em cada passo. — Eu não quero você perto dela.
— Talvez devesse querer — rebateu Riven, com calma provocativa. — Já que você anda mais cego do que nunca.
O clima ficou insuportável, denso, como se uma briga pudesse explodir a qualquer segundo. Elowen, tomada pela tensão, interveio.
— Chega! — gritou, a voz firme. — Vocês dois não percebem que isso não ajuda em nada?
O silêncio caiu. Kael desviou o olhar para ela, os olhos escuros ainda cheios de raiva. Riven, por outro lado, apenas a observou com uma mistura de fascínio e respeito.
— Eu só quero respostas — disse Elowen, com firmeza. — Se estou correndo risco, preciso entender como me defender.
Kael respirou fundo, visivelmente se esforçando para conter a explosão. — Você não precisa se defender. Eu estou aqui para isso.
— Mas e se você falhar? — retrucou ela, sem pensar.
A raiva nos olhos de Kael se misturou com dor, e por um momento ele ficou em silêncio. Então virou-se para Riven. — Saia. Agora.
Riven hesitou, mas obedeceu, lançando um último olhar a Elowen antes de sair. Um olhar carregado de algo que ela não soube decifrar — talvez um aviso, talvez um desejo.
Quando ficaram a sós, Kael se aproximou, segurando-lhe os ombros com força. — Nunca mais fique sozinha com ele.
Elowen arregalou os olhos. — Ele só estava me explicando sobre Veynar.
— Ele não tem o direito de explicar nada a você — rosnou Kael. — Esse papel é meu.
— Então cumpra esse papel! — gritou ela de volta, a voz embargada. — Pare de me deixar às cegas!
O silêncio que seguiu foi quebrado apenas pela respiração pesada dos dois. Kael fechou os olhos por um instante, como se lutasse contra si mesmo. Depois, abriu-os de novo, firmes.
— Está bem — disse, mais calmo. — Eu vou lhe contar tudo. Mas saiba… depois disso, não haverá volta.
Elowen engoliu em seco, o coração acelerado. Sabia que sua vida já havia mudado desde o momento em que entrou naquela mansão. E agora, com a sombra de Aric Veynar pairando sobre eles, não havia mais espaço para inocência.
— Eu quero saber — respondeu, firme.
Kael a observou longamente, depois assentiu. — Então amanhã, ao amanhecer, você terá suas respostas.
Ela respirou fundo, ciente de que aquela promessa mudaria tudo.