Capítulo 1

1129 Words
O barulho da chuva contra a janela era quase hipnótico, mas nada conseguia silenciar a sensação estranha que se instalara no peito de Elowen desde cedo. Era como se algo estivesse prestes a acontecer, algo que ela não conseguia nomear. A sala da ONG estava silenciosa, exceto pelo arrastar dos lápis coloridos nas mãos das crianças à sua volta. O cheiro de papel e tinta misturava-se ao aroma suave de café que vinha da cozinha. Elowen olhou para os pequenos com um sorriso, tentando afastar o incômodo que insistia em latejar por baixo da pele. — Mais azul? — perguntou uma menininha de cabelos cacheados, erguendo a folha rabiscada. — Claro, querida. — Elowen pegou outro lápis e entregou com delicadeza. Trabalhar ali sempre fora um refúgio. Entre histórias de superação e pequenos sorrisos, ela sentia que ainda podia consertar algo no mundo — mesmo que sua própria vida fosse um mosaico quebrado. Quando o relógio na parede marcou seis horas, ela começou a guardar os materiais, despedindo-se das crianças com abraços. A chuva engrossara, e o vento frio atravessava as frestas da porta. Nyra, sua melhor amiga e companheira de apartamento, mandara mensagem perguntando se ela queria que buscasse algo para o jantar. Elowen respondeu que sim, pedindo comida chinesa. Não fazia ideia de que aquela seria a última conversa tranquila que teria com ela. Estava calçando as botas quando o celular vibrou no bolso. O nome que apareceu no visor fez seu estômago se contrair. Pai. Alfrey Vescari não ligava para ela há semanas. Meses, talvez. Desde que Elowen se mudara para a cidade, a relação deles oscilava entre monólogos apáticos e silêncios longos demais. Ele sempre fora um homem difícil — áspero, fechado, do tipo que tratava afeto como um luxo. Ela atendeu. — Pai? A voz do outro lado soou grave, carregada de algo que Elowen não conseguiu decifrar. — Precisamos conversar. Agora. Ela franziu a testa. — O que aconteceu? Você está bem? — Só venha. Estou no Galvino’s. O nome do restaurante lhe pareceu estranho. Um lugar sofisticado demais para o pai, que sempre preferiu botecos baratos a qualquer ambiente que exigisse reserva. — Pai, está chovendo muito… — Ela tentou argumentar, mas ele a cortou. — É importante, Elowen. E desligou. O silêncio do fim da ligação ecoou alto demais. Elowen ficou parada por alguns segundos, sentindo o coração acelerar. Alguma coisa não estava certa. Mas o que poderia ter acontecido para Alfrey soar daquele jeito? Engolindo a apreensão, pegou a bolsa e saiu para enfrentar a noite chuvosa. --- O restaurante era um ponto isolado, afastado do centro. Fachada iluminada, portas pesadas de madeira e vidros que refletiam a tempestade lá fora. Quando entrou, sentiu o calor acolhedor do ambiente, mas isso não aliviou a estranheza que a dominava. Olhou ao redor, procurando o pai. Ele estava sentado em uma mesa no canto, de costas para a parede, postura rígida, olhar fixo no copo à frente. Parecia menor do que ela lembrava, consumido por algo invisível. — Pai? — chamou, aproximando-se. Ele levantou os olhos, e a primeira coisa que Elowen viu foi a culpa. Pesada, grudada no rosto dele como uma sombra. — Senta. — A voz era baixa, quase um sussurro. Elowen obedeceu, ainda confusa. Tirou o casaco molhado, sentindo o calor da lareira próxima, mas por dentro continuava gelada. — O que está acontecendo? — perguntou. — Você me assusta ligando assim do nada. Alfrey passou a mão pelo rosto, como se procurasse coragem em algum lugar entre as rugas. Depois soltou um suspiro longo. — Eu… não tinha escolha. As palavras, soltas assim, soaram como o prelúdio de uma tragédia. — Não tinha escolha pra quê? — Ela franziu as sobrancelhas. Ele demorou a responder. Pegou o copo, girou o líquido âmbar, mas não bebeu. Quando falou, não olhou para ela. — Eu devia dinheiro, Elowen. Muito dinheiro. O coração dela falhou um compasso. — Que tipo de dívida? Ele ergueu os olhos, e o que ela viu foi um poço sem fundo. — Dois milhões. O mundo pareceu inclinar por um instante. Elowen sentiu o sangue deixar o rosto. — Como… como você conseguiu isso? — A voz saiu embargada. Ele não respondeu de imediato. Apenas encarou o copo como se pudesse se esconder dentro dele. Quando finalmente falou, as palavras foram lâminas: — Não importa como. O que importa é que a dívida precisava ser paga. Elowen sentiu o pânico começar a escalar pelo corpo. — Pai… me diz que você não fez nada e******o. Ele abriu a boca, fechou, e então soltou, seco: — Eu te entreguei. O mundo parou. Por um segundo, Elowen pensou que não tinha ouvido direito. Mas o silêncio entre eles confirmou cada sílaba. — Como é que é? — A voz dela saiu fina, quebrada. — Eu não tinha escolha — ele repetiu, como se isso fosse absolvição. — Eles iam me m***r. Elowen riu. Um som fraco, desesperado, sem alegria. — Você… você está dizendo que me vendeu? Como se eu fosse… — Ela não conseguiu terminar. O nó na garganta era grande demais. Antes que pudesse reagir, três homens se aproximaram. Ternos escuros, ombros largos, rostos impassíveis. O tipo de presença que faz o ar pesar. Um deles falou com a voz grave: — Hora de ir. Elowen olhou para eles, depois para o pai. — O que é isso? Pai… O QUE É ISSO?! Ela se levantou, mas as mãos firmes dos homens pousaram em seus braços, segurando-a com força controlada. Não era violência aberta. Era domínio. — Soltem-me! — Ela tentou se soltar, mas era inútil. — Pai, faz alguma coisa! Mas Alfrey não se moveu. Não olhou para ela. Apenas ficou ali, afundado na própria vergonha, como um homem que já se despediu da alma. — Pai! — A voz dela ecoou pelo restaurante, mas ninguém ousou intervir. A chuva voltou a rugir quando a porta se abriu, e Elowen foi levada para fora sob o peso da tempestade. Seu corpo tremia, mas não era de frio. Era de ódio. De medo. De uma sensação avassaladora de traição que corroía cada pedaço de si. Empurrada para dentro de um carro preto, sentiu o couro gelado sob as pernas. As portas se fecharam, e o mundo se resumiu ao ronco do motor e à respiração ofegante que ela não conseguia controlar. O homem no banco da frente olhou pelo retrovisor. — Vai ser melhor se não lutar. Elowen cravou as unhas nas próprias coxas, o coração disparado, o gosto metálico da raiva na boca. Não sabia para onde estava indo. Não sabia quem estava por trás daquilo. Mas uma coisa era certa: Ela não ia quebrar. Nem que fosse preciso sangrar até o último fôlego.
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