A manhã estava estranhamente calma na mansão. O sol filtrava-se pelas enormes janelas de vidro, tingindo o salão com tons dourados. A mesa de café da manhã estava impecavelmente posta, como sempre, com frutas frescas, café forte e pães ainda quentes. Mas, apesar da aparência tranquila, o ar estava carregado de uma tensão invisível.
Elowen sentava-se diante de Kael, o olhar decidido, a postura ereta, como se estivesse reunindo coragem para dizer o que vinha remoendo a noite inteira. Kael, em sua habitual imponência, degustava o café sem pressa, os olhos observando cada movimento dela, como se já previsse que algo viria.
— Eu quero ver a Nyra. — A voz de Elowen cortou o silêncio, firme, sem rodeios.
Kael ergueu lentamente os olhos para ela, apoiando o copo de café sobre a mesa. Não houve surpresa em seu rosto, apenas aquele semblante frio, calculista, que raramente se abria a emoções explícitas.
— Isso não é possível. — Ele disse, a voz grave, direta, como se fosse a palavra final.
Mas Elowen não se curvou. Ela respirou fundo, inclinando-se levemente para a frente.
— É sim. Você pode tudo aqui dentro, Kael. Se estou nesta mansão, se convivo sob as suas regras, então tenho o direito de ao menos ver a minha amiga.
O maxilar dele se contraiu.
— Você não entende os riscos.
— Entendo perfeitamente. — Ela rebateu, os olhos faiscando. — Nyra foi até meu pai. Ela exigiu saber onde eu estava. Não descansou enquanto não descobriu. Ela arriscou tudo para me encontrar, e você acha mesmo que eu vou ignorar o esforço dela?
Kael a fitou por longos segundos, o silêncio pesando entre eles. Ele nunca a havia visto falar daquela forma — tão incisiva, tão pronta para enfrentar até mesmo a sua autoridade. A vontade de impor-se estava lá, latejando, mas havia algo naqueles olhos que o impedia de esmagar o pedido dela de imediato.
Ele se recostou na cadeira, respirando fundo.
— Você tem coragem de mais, Elowen. Coragem que beira a estupidez.
— Então me deixe ser estúpida, mas com a minha amiga por perto.
Kael não respondeu de imediato. Seus dedos tamborilaram levemente na mesa, como se ponderasse a ideia. Finalmente, levantou-se, a sombra dele projetando-se sobre ela, e caminhou até a porta.
— Riven. — A voz dele ecoou pelo corredor.
Poucos segundos depois, Riven surgiu. Alto, de postura ereta, cabelos escuros bem penteados para trás, a expressão sempre fechada. Ele parecia mais uma muralha viva do que um homem comum.
— Senhor?
Kael o fitou com firmeza.
— Quero que busque uma garota chamada Nyra. Ela virá para a mansão.
Riven arqueou uma sobrancelha, incrédulo.
— Isso não é sensato.
Kael cerrou os olhos.
— Não pedi a sua opinião.
— Mas vou dar mesmo assim. — Riven deu um passo à frente, a voz carregada de frieza. — Trazer alguém de fora é abrir uma brecha. Uma fraqueza. Não sabemos quem é essa garota de verdade.
Kael se aproximou, a tensão vibrando no ar.
— Ela é a amiga de Elowen. E vai estar aqui porque eu decidi.
Riven apertou o maxilar, mas não recuou.
— Como quiser. — Ele respondeu, sem esconder o desagrado. — Mas não espere que eu sorria para essa ruiva insolente.
Elowen abriu um meio sorriso.
— Você ainda nem a conhece.
— Não preciso. — Riven retrucou seco.
Kael fez um gesto com a mão, cortando o assunto.
— Vá buscá-la. Agora.
O caminho dentro da cidade não demorou tanto, mas a tensão dentro do carro era palpável. Riven dirigia com firmeza, os olhos fixos na estrada, e o silêncio só foi quebrado quando Nyra apareceu na porta da casa simples onde morava.
Ela era exatamente como Elowen havia descrito: cabelos ruivos que pareciam pegar fogo sob a luz do sol, olhos verdes intensos e sardas que pontilhavam a pele clara. Havia algo selvagem nela, uma chama indomável.
Riven saiu do carro, imponente, cada passo calculado.
— Nyra?
Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
— Quem pergunta?
— Riven. Braço direito de Kael. Vim te buscar.
Um sorriso sarcástico surgiu nos lábios dela.
— Ah, que honra. E eu lá quero ser buscada por cachorro de guarda?
O olhar de Riven se estreitou, o tom dele ficando mais gélido.
— Você fala demais.
— E você fala de menos. — Ela rebateu de imediato, sem medo. — Se veio me intimidar, vai ter que se esforçar mais.
Riven manteve-se imóvel por um instante, analisando-a. Não estava acostumado a ser confrontado dessa forma. A maioria recuava diante dele. Nyra, porém, parecia se divertir.
— Entre no carro. — Ele ordenou.
— E se eu não entrar?
Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— Vai entrar. — A voz saiu baixa, carregada de autoridade.
Nyra sustentou o olhar dele, desafiadora, mas no fim suspirou e caminhou até o carro.
— Só porque quero ver a Elowen. Não porque você mandou.
Ele a seguiu de perto.
— Continue repetindo isso para si mesma. Talvez te console.
A viagem até a mansão foi um campo de batalha verbal.
— Então, Riven... certo? — Nyra começou, o tom provocativo. — O cão fiel que faz tudo o que o grande Kael manda.
— Sou quem garante que ele continua no controle. — Riven respondeu sem hesitar. — E que insolentes como você não causem problemas.
Ela riu, inclinando a cabeça.
— Insolente? Eu só tenho língua afiada. E você claramente não sabe lidar com mulheres que não se ajoelham.
Ele lançou um olhar rápido, cortante.
— Se espera que eu me incomode com suas provocações, vai se decepcionar.
— Veremos. — Ela retrucou, voltando o olhar para a janela.
Quando chegaram à mansão, Kael já os esperava. De pé no saguão principal, imponente, ele observava cada detalhe da aproximação.
Nyra entrou com passos firmes, os olhos verdes percorrendo o ambiente luxuoso.
— Então é aqui que você esconde a minha amiga. — Ela murmurou, sem disfarçar a ironia.
Kael não se abalou. Apenas direcionou o olhar para Elowen, que surgiu logo depois, correndo ao encontro da ruiva.
— Nyra! — Elowen a abraçou forte, a emoção transbordando. — Eu estava morrendo de saudade!
— Eu também, Lo. — Nyra sorriu, suavizando pela primeira vez. — Você não faz ideia do inferno que foi sem notícias suas.
Kael observava de longe, os braços cruzados. Havia algo desconfortável naquela cena para ele: o afeto genuíno, a lealdade inabalável entre as duas. Era um tipo de força que ele não controlava.
Enquanto isso, Riven permanecia em silêncio ao lado, o olhar fixo em Nyra, como se já estivesse planejando a melhor forma de lidar com aquela língua afiada no futuro.
Kael quebrou o momento.
— Vocês têm tempo para conversar. Mas lembrem-se: esta não é uma casa de visitas.
Nyra virou-se para ele, os olhos brilhando de desafio.
— Ah, eu já percebi. Mas pode ficar tranquilo, Kael… não vim aqui para ser dócil.
O olhar dele se estreitou, e por um instante o silêncio pareceu explodir no ar.
E assim, o reencontro que deveria ser de alívio trouxe junto a fagulha de um novo conflito.