Capítulo 10

1201 Words
A manhã estava estranhamente calma na mansão. O sol filtrava-se pelas enormes janelas de vidro, tingindo o salão com tons dourados. A mesa de café da manhã estava impecavelmente posta, como sempre, com frutas frescas, café forte e pães ainda quentes. Mas, apesar da aparência tranquila, o ar estava carregado de uma tensão invisível. Elowen sentava-se diante de Kael, o olhar decidido, a postura ereta, como se estivesse reunindo coragem para dizer o que vinha remoendo a noite inteira. Kael, em sua habitual imponência, degustava o café sem pressa, os olhos observando cada movimento dela, como se já previsse que algo viria. — Eu quero ver a Nyra. — A voz de Elowen cortou o silêncio, firme, sem rodeios. Kael ergueu lentamente os olhos para ela, apoiando o copo de café sobre a mesa. Não houve surpresa em seu rosto, apenas aquele semblante frio, calculista, que raramente se abria a emoções explícitas. — Isso não é possível. — Ele disse, a voz grave, direta, como se fosse a palavra final. Mas Elowen não se curvou. Ela respirou fundo, inclinando-se levemente para a frente. — É sim. Você pode tudo aqui dentro, Kael. Se estou nesta mansão, se convivo sob as suas regras, então tenho o direito de ao menos ver a minha amiga. O maxilar dele se contraiu. — Você não entende os riscos. — Entendo perfeitamente. — Ela rebateu, os olhos faiscando. — Nyra foi até meu pai. Ela exigiu saber onde eu estava. Não descansou enquanto não descobriu. Ela arriscou tudo para me encontrar, e você acha mesmo que eu vou ignorar o esforço dela? Kael a fitou por longos segundos, o silêncio pesando entre eles. Ele nunca a havia visto falar daquela forma — tão incisiva, tão pronta para enfrentar até mesmo a sua autoridade. A vontade de impor-se estava lá, latejando, mas havia algo naqueles olhos que o impedia de esmagar o pedido dela de imediato. Ele se recostou na cadeira, respirando fundo. — Você tem coragem de mais, Elowen. Coragem que beira a estupidez. — Então me deixe ser estúpida, mas com a minha amiga por perto. Kael não respondeu de imediato. Seus dedos tamborilaram levemente na mesa, como se ponderasse a ideia. Finalmente, levantou-se, a sombra dele projetando-se sobre ela, e caminhou até a porta. — Riven. — A voz dele ecoou pelo corredor. Poucos segundos depois, Riven surgiu. Alto, de postura ereta, cabelos escuros bem penteados para trás, a expressão sempre fechada. Ele parecia mais uma muralha viva do que um homem comum. — Senhor? Kael o fitou com firmeza. — Quero que busque uma garota chamada Nyra. Ela virá para a mansão. Riven arqueou uma sobrancelha, incrédulo. — Isso não é sensato. Kael cerrou os olhos. — Não pedi a sua opinião. — Mas vou dar mesmo assim. — Riven deu um passo à frente, a voz carregada de frieza. — Trazer alguém de fora é abrir uma brecha. Uma fraqueza. Não sabemos quem é essa garota de verdade. Kael se aproximou, a tensão vibrando no ar. — Ela é a amiga de Elowen. E vai estar aqui porque eu decidi. Riven apertou o maxilar, mas não recuou. — Como quiser. — Ele respondeu, sem esconder o desagrado. — Mas não espere que eu sorria para essa ruiva insolente. Elowen abriu um meio sorriso. — Você ainda nem a conhece. — Não preciso. — Riven retrucou seco. Kael fez um gesto com a mão, cortando o assunto. — Vá buscá-la. Agora. O caminho dentro da cidade não demorou tanto, mas a tensão dentro do carro era palpável. Riven dirigia com firmeza, os olhos fixos na estrada, e o silêncio só foi quebrado quando Nyra apareceu na porta da casa simples onde morava. Ela era exatamente como Elowen havia descrito: cabelos ruivos que pareciam pegar fogo sob a luz do sol, olhos verdes intensos e sardas que pontilhavam a pele clara. Havia algo selvagem nela, uma chama indomável. Riven saiu do carro, imponente, cada passo calculado. — Nyra? Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha. — Quem pergunta? — Riven. Braço direito de Kael. Vim te buscar. Um sorriso sarcástico surgiu nos lábios dela. — Ah, que honra. E eu lá quero ser buscada por cachorro de guarda? O olhar de Riven se estreitou, o tom dele ficando mais gélido. — Você fala demais. — E você fala de menos. — Ela rebateu de imediato, sem medo. — Se veio me intimidar, vai ter que se esforçar mais. Riven manteve-se imóvel por um instante, analisando-a. Não estava acostumado a ser confrontado dessa forma. A maioria recuava diante dele. Nyra, porém, parecia se divertir. — Entre no carro. — Ele ordenou. — E se eu não entrar? Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Vai entrar. — A voz saiu baixa, carregada de autoridade. Nyra sustentou o olhar dele, desafiadora, mas no fim suspirou e caminhou até o carro. — Só porque quero ver a Elowen. Não porque você mandou. Ele a seguiu de perto. — Continue repetindo isso para si mesma. Talvez te console. A viagem até a mansão foi um campo de batalha verbal. — Então, Riven... certo? — Nyra começou, o tom provocativo. — O cão fiel que faz tudo o que o grande Kael manda. — Sou quem garante que ele continua no controle. — Riven respondeu sem hesitar. — E que insolentes como você não causem problemas. Ela riu, inclinando a cabeça. — Insolente? Eu só tenho língua afiada. E você claramente não sabe lidar com mulheres que não se ajoelham. Ele lançou um olhar rápido, cortante. — Se espera que eu me incomode com suas provocações, vai se decepcionar. — Veremos. — Ela retrucou, voltando o olhar para a janela. Quando chegaram à mansão, Kael já os esperava. De pé no saguão principal, imponente, ele observava cada detalhe da aproximação. Nyra entrou com passos firmes, os olhos verdes percorrendo o ambiente luxuoso. — Então é aqui que você esconde a minha amiga. — Ela murmurou, sem disfarçar a ironia. Kael não se abalou. Apenas direcionou o olhar para Elowen, que surgiu logo depois, correndo ao encontro da ruiva. — Nyra! — Elowen a abraçou forte, a emoção transbordando. — Eu estava morrendo de saudade! — Eu também, Lo. — Nyra sorriu, suavizando pela primeira vez. — Você não faz ideia do inferno que foi sem notícias suas. Kael observava de longe, os braços cruzados. Havia algo desconfortável naquela cena para ele: o afeto genuíno, a lealdade inabalável entre as duas. Era um tipo de força que ele não controlava. Enquanto isso, Riven permanecia em silêncio ao lado, o olhar fixo em Nyra, como se já estivesse planejando a melhor forma de lidar com aquela língua afiada no futuro. Kael quebrou o momento. — Vocês têm tempo para conversar. Mas lembrem-se: esta não é uma casa de visitas. Nyra virou-se para ele, os olhos brilhando de desafio. — Ah, eu já percebi. Mas pode ficar tranquilo, Kael… não vim aqui para ser dócil. O olhar dele se estreitou, e por um instante o silêncio pareceu explodir no ar. E assim, o reencontro que deveria ser de alívio trouxe junto a fagulha de um novo conflito.
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