A noite havia sido longa. Elowen m*l conseguira dormir depois do reencontro com Nyra. A presença da amiga lhe devolvera um pedaço de si mesma que pensava estar perdido. Por algumas horas, enquanto conversavam sobre lembranças, risadas antigas e confidências que só quem se conhecia tão bem poderia partilhar, ela se sentiu livre. Mas a liberdade era frágil dentro da mansão de Kael, como um pássaro aprisionado em uma gaiola de ouro.
Na manhã seguinte, ela despertou com uma sensação estranha no peito — gratidão misturada a uma necessidade crescente de lutar contra os muros que a cercavam. Vestiu-se com simplicidade, como sempre preferia, e encontrou Kael no salão principal. Ele estava diante da lareira apagada, revisando alguns papéis, impecável em seu terno escuro. A aura de comando parecia envolvê-lo como uma segunda pele.
Elowen respirou fundo antes de se aproximar.
— Kael… — a voz dela soou baixa, mas carregada de firmeza.
Ele ergueu os olhos devagar, como se já soubesse que algo importante viria.
— O que é, Elowen?
Ela parou diante dele, sustentando o olhar intenso que sempre a desarmava.
— Eu queria agradecer. — Disse, com sinceridade. — Por ter permitido que a Nyra viesse até aqui. Sei que você não queria, e mesmo assim cedeu. Isso significa muito para mim.
Kael a observou em silêncio. Havia algo no tom dela que o irritava e, ao mesmo tempo, despertava um certo orgulho. Não estava acostumado a agradecimentos, muito menos vindos de alguém que não se curvava a ele facilmente.
— Não se acostume. — respondeu, frio, embora sua voz não tivesse o mesmo peso gélido de sempre. — Fiz porque era a única forma de evitar que você me atormentasse até conseguir o que queria.
Elowen esboçou um sorriso breve, mas não comentou. Sabia que, por trás daquela armadura verbal, havia um gesto real.
O silêncio se alongou, até que ela respirou fundo, reunindo a coragem que havia cultivado desde a madrugada.
— Há outra coisa que eu preciso pedir.
Kael franziu o cenho, recostando-se na poltrona com um ar de desafio.
— Você está ficando ousada demais, Elowen.
Ela não recuou.
— Quero voltar a trabalhar na ONG.
O ar pareceu se tornar mais denso entre eles. Kael ficou imóvel por um instante, os olhos escurecendo de forma quase imperceptível.
— Não. — A resposta veio curta, seca, definitiva.
— Kael, ouça. — Ela deu um passo à frente, as mãos crispadas ao lado do corpo. — Eu sou assistente social. Dediquei minha vida a isso. As crianças daquela ONG precisam de mim, precisam de todo o carinho, atenção e acompanhamento que eu sempre ofereci. Desde que desapareci, devem estar se perguntando onde eu estou, sentindo minha falta. Não posso simplesmente abandoná-las.
Ele não desviou o olhar, mas o maxilar marcado se contraiu.
— Você já não tem mais essa vida.
— Como pode dizer isso? — A voz dela se elevou, carregada de indignação. — Esse trabalho não é apenas uma parte da minha vida, Kael, é quem eu sou. Não foi apenas um emprego, foi minha vocação. Eu estudava, planejava projetos, dedicava meu tempo para garantir que aquelas crianças tivessem um pouco de esperança! Você não pode arrancar isso de mim e achar que vou aceitar calada.
Kael se levantou lentamente, a imponência dele tornando o ambiente menor, sufocante. Ele se aproximou, até ficar a poucos centímetros dela.
— Posso, sim. — Disse em tom grave, autoritário. — E já fiz.
O peito de Elowen ardia com a raiva crescente.
— Você não é dono de mim.
Um brilho gélido cintilou nos olhos dele.
— Não? Está aqui, não está? Nesta mansão, sob as minhas regras. O seu pai fez um acordo, Elowen. E eu não sou homem de voltar atrás com acordos.
As palavras bateram nela como um soco. Ainda doía lembrar que fora o próprio pai quem a entregara como parte de um pagamento sujo. Mas, mais do que isso, doía perceber como Kael usava isso para prendê-la.
— Não pode me manter prisioneira para sempre. — ela murmurou, os olhos marejando, mas firmes. — Eu preciso da minha vida, Kael. Preciso do meu trabalho. As crianças precisam de mim.
Ele inclinou o rosto, estudando cada traço dela, como se tentasse decifrar a força que brotava daquela fragilidade aparente.
— Não me importo com essas crianças.
Elowen arregalou os olhos, o choque a atravessando como uma lâmina.
— Como pode dizer isso?
— Porque é a verdade. — Kael respondeu, sem hesitar. — Não me importo com órfãos, com causas sociais ou com qualquer outra coisa que não seja manter meu império intacto. Se você acha que vou deixá-la sair por aí, vulnerável, se expondo a inimigos, só para brincar de boa samaritana… está enganada.
Ela sentiu a raiva queimando no peito.
— Não é brincadeira! É meu propósito!
O silêncio que se seguiu foi cortante. Kael respirava fundo, como se lutasse contra algo dentro de si. Elowen, por sua vez, mantinha-se ereta, sem desviar o olhar.
— Você não entende, Elowen. — Ele disse, mais baixo, mas ainda imponente. — Lá fora, o mundo é perigoso. Cada passo que você dá pode ser observado. Qualquer um pode usá-la contra mim. Você é uma moeda preciosa… e não vou deixá-la ser roubada.
— Eu não sou moeda nenhuma. — rebateu, a voz trêmula de emoção. — Sou uma pessoa. Tenho sonhos, responsabilidades, pessoas que dependem de mim. Você pode achar que me protege, mas, na verdade, está me sufocando.
Kael estreitou os olhos, mas não respondeu de imediato. O conflito interno era visível: parte dele queria simplesmente esmagar a vontade dela com sua autoridade; outra parte reconhecia a chama indomável em Elowen — a mesma chama que o atraía, contra a própria lógica.
Elowen sentiu as lágrimas queimarem os olhos, mas não as deixou cair.
— Kael, você já tirou tanto de mim. Não tire também o que me faz ser quem eu sou.
O coração dele pareceu vacilar por um segundo, mas logo recuperou a dureza.
— O assunto está encerrado.
Ela o encarou, incrédula, e então se virou de costas, caminhando em passos firmes para fora do salão. Cada passo era um grito contido, cada respiração, um esforço para não explodir em prantos.
Kael ficou parado, observando-a desaparecer pelo corredor. O silêncio voltou a dominar o ambiente, mas, dentro dele, algo pulsava de forma incômoda. Ele sabia que, ao negar, não havia apenas imposto sua vontade — havia também ferido uma parte essencial dela.
E, pela primeira vez em muito tempo, Kael se perguntou se essa batalha interna que travava contra Elowen não acabaria sendo a única que ele jamais conseguiria vencer.