O reencontro entre Elowen e Nyra parecia romper, por alguns instantes, o peso opressor da mansão. Elas se abraçaram como se não houvesse nada ao redor, como se todo o luxo frio, as paredes imponentes e o olhar de aço de Kael não existissem. Mas existiam — e estavam ali, observando, prontos para cortar qualquer fagulha de liberdade que ousasse se acender.
Nyra foi a primeira a se afastar, embora suas mãos ainda segurassem os braços da amiga com firmeza. Os olhos verdes dela ardiam com a mesma intensidade de sempre, aquele brilho que nunca se apagava, nem mesmo quando confrontava homens poderosos.
— Você está bem, Lo? — perguntou, o tom suave, mas carregado de preocupação. — Juro que quase enlouqueci quando seu pai contou onde você estava.
Elowen respirou fundo. Ouvir a menção ao pai fez uma pontada de dor atravessar seu peito.
— Bem é uma palavra forte. Estou... sobrevivendo. — murmurou, tentando manter a voz firme. — Mas você não devia ter vindo até aqui. É perigoso, Nyra.
A ruiva ergueu o queixo, como sempre fazia quando alguém tentava limitar seus passos.
— Perigoso é me deixar quieta sabendo que minha melhor amiga foi entregue como pagamento de dívida para um homem como ele. — Ela virou o rosto e lançou um olhar direto para Kael. — O grande Kael, o rei de ferro desta mansão.
O ar gelou.
Kael não se moveu imediatamente, apenas sustentou o olhar dela com frieza, como se estivesse analisando cada palavra, cada centímetro de insolência estampado naquela mulher.
— Escolha bem suas palavras, Nyra. — disse, a voz grave e firme como uma lâmina. — Não está em posição de me provocar.
Nyra sorriu, aquele sorriso afiado, provocador.
— Nunca estive em posição de abaixar a cabeça para ninguém. Por que começaria agora?
Riven, que estava ao lado, cruzou os braços. A tensão em seu corpo era palpável. Ele não suportava o descaramento dela, muito menos o desafio aberto ao homem que jurara lealdade.
— Insolente. — murmurou, quase num rosnado.
Nyra virou-se para ele em um segundo, arqueando uma sobrancelha.
— Oh, o cão de guarda fala. Que novidade deliciosa.
— Cuidado. — Riven deu um passo à frente, a voz baixa, carregada de ameaça. — Eu não tenho paciência para mulheres que se acham mais espertas do que são.
Ela riu, sem medo, o som cortando o ambiente como fogo em pólvora.
— Sorte a minha que não preciso da sua paciência.
Elowen, percebendo que o clima poderia explodir a qualquer instante, se colocou entre os dois, pousando a mão no braço de Nyra.
— Chega, vocês dois. Não vim aqui para presenciar uma guerra particular. — disse firme, encarando os dois lados. — Riven, ela é minha amiga. E Nyra, não complique as coisas.
Kael finalmente interveio, caminhando alguns passos até ficar diante delas. A imponência dele parecia preencher todo o saguão.
— Vocês terão tempo para conversar. — declarou, olhando diretamente para Elowen. — Mas não se esqueça: ela está aqui porque eu permiti.
Nyra abriu a boca para retrucar, mas Elowen apertou sua mão discretamente, pedindo silêncio. A ruiva bufou, mas cedeu — por ora.
Mais tarde, Elowen levou Nyra para um dos salões menores, longe do olhar constante dos seguranças, embora soubesse que câmeras e ouvidos invisíveis estavam espalhados pela mansão. Sentaram-se lado a lado no sofá de veludo azul, e pela primeira vez desde que se viram, puderam falar com mais calma.
— Eu achei que nunca mais ia te ver. — Elowen confessou, a voz embargada. — Desde que Kael me trouxe, tudo pareceu um pesadelo sem fim.
Nyra segurou sua mão com força.
— Eu jurei a mim mesma que não ia parar até te encontrar. Seu pai tentou resistir, mas você sabe que eu não aceito não como resposta. Pressionei até ele contar. E quando soube... Lo, quase arranquei os cabelos de raiva.
Elowen fechou os olhos, sentindo lágrimas ameaçarem escapar.
— Ele me entregou como se eu fosse um objeto. — disse, quase num sussurro. — Como se eu não fosse filha dele.
— Ele é um covarde. — Nyra cuspiu as palavras. — Mas eu não vou permitir que esse monstro que te mantém aqui destrua quem você é.
Elowen respirou fundo, tentando reunir forças.
— Eu tento não ceder, Nyra. Tento não mostrar medo. Mas às vezes... às vezes ele é esmagador.
— Então eu vou ser sua voz quando a sua falhar. — a ruiva prometeu, os olhos brilhando de determinação. — Não importa o quão alto Kael grite, ou o quão ameaçador ele seja, você não está sozinha.
Enquanto isso, no escritório, Kael observava as imagens transmitidas pelas câmeras. Elowen e Nyra conversavam, e mesmo sem ouvir cada palavra, ele percebia o vínculo entre elas. Aquilo o incomodava. Era um tipo de força que não vinha dele, uma chama que ele não podia apagar.
Riven entrou, silencioso como sempre, mas sua expressão carregava um desagrado evidente.
— Isso é um erro. — disse sem rodeios. — Essa garota vai causar problemas.
Kael não desviou os olhos da tela.
— Eu sei lidar com problemas.
— Mas não precisava criá-los. — Riven retrucou, a voz carregada de convicção. — Ela fala demais, provoca demais.
— E justamente por isso será útil. — Kael respondeu, finalmente se virando. — Ela mantém Elowen firme. E eu quero ver até onde essa firmeza pode ir.
Riven estreitou os olhos.
— Está brincando com fogo.
— Eu sempre brinquei com fogo. — Kael disse, com um meio sorriso frio. — A diferença é que eu nunca me queimei.
Mais tarde, já no quarto preparado para Nyra, a ruiva encarava a decoração luxuosa como se fosse uma prisão dourada. Quando Riven apareceu na porta, ela não perdeu tempo.
— Veio ver se eu já estou domada? — perguntou, cruzando os braços.
Ele permaneceu parado no batente, a postura rígida.
— Só vim garantir que não faça nada e******o.
— e******o seria achar que eu vou ficar calada. — rebateu de imediato. — Você pode até me vigiar, mas não pode controlar o que sai da minha boca.
Riven deu um passo para dentro, o olhar afiado como lâmina.
— Já estive diante de homens que matariam por muito menos do que a sua insolência.
Nyra se levantou, caminhando até ficar diante dele, erguendo o rosto para encará-lo.
— E eu já estive diante de homens que achavam que podiam me calar. Nenhum conseguiu.
Havia algo naquele confronto que incendiava o ar. Riven se mantinha firme, mas a intensidade dela o tirava do eixo. Não era medo, não era fraqueza — era provocação. E, por mais que não admitisse, ela o fazia reagir de formas que não estava acostumado.
— Você é um problema, ruiva. — ele disse entre dentes.
— E você é um tédio, cão de guarda. — ela devolveu, sorrindo de canto. — Talvez seja divertido ver até onde consigo te irritar.
Ele a fitou por um longo instante, depois girou nos calcanhares e saiu, fechando a porta com força.
Nyra riu sozinha, sacudindo a cabeça.
— Vai ser interessante.
No quarto ao lado, Elowen não conseguia dormir. As palavras de Nyra ecoavam em sua mente, misturadas com o olhar de Kael no café da manhã. O controle dele parecia absoluto, mas pela primeira vez ela sentia que uma brecha havia se aberto. Uma pequena, mas suficiente para que a esperança respirasse.
E talvez, só talvez, fosse essa fagulha que mudaria tudo.