Capítulo 11

1253 Words
O reencontro entre Elowen e Nyra parecia romper, por alguns instantes, o peso opressor da mansão. Elas se abraçaram como se não houvesse nada ao redor, como se todo o luxo frio, as paredes imponentes e o olhar de aço de Kael não existissem. Mas existiam — e estavam ali, observando, prontos para cortar qualquer fagulha de liberdade que ousasse se acender. Nyra foi a primeira a se afastar, embora suas mãos ainda segurassem os braços da amiga com firmeza. Os olhos verdes dela ardiam com a mesma intensidade de sempre, aquele brilho que nunca se apagava, nem mesmo quando confrontava homens poderosos. — Você está bem, Lo? — perguntou, o tom suave, mas carregado de preocupação. — Juro que quase enlouqueci quando seu pai contou onde você estava. Elowen respirou fundo. Ouvir a menção ao pai fez uma pontada de dor atravessar seu peito. — Bem é uma palavra forte. Estou... sobrevivendo. — murmurou, tentando manter a voz firme. — Mas você não devia ter vindo até aqui. É perigoso, Nyra. A ruiva ergueu o queixo, como sempre fazia quando alguém tentava limitar seus passos. — Perigoso é me deixar quieta sabendo que minha melhor amiga foi entregue como pagamento de dívida para um homem como ele. — Ela virou o rosto e lançou um olhar direto para Kael. — O grande Kael, o rei de ferro desta mansão. O ar gelou. Kael não se moveu imediatamente, apenas sustentou o olhar dela com frieza, como se estivesse analisando cada palavra, cada centímetro de insolência estampado naquela mulher. — Escolha bem suas palavras, Nyra. — disse, a voz grave e firme como uma lâmina. — Não está em posição de me provocar. Nyra sorriu, aquele sorriso afiado, provocador. — Nunca estive em posição de abaixar a cabeça para ninguém. Por que começaria agora? Riven, que estava ao lado, cruzou os braços. A tensão em seu corpo era palpável. Ele não suportava o descaramento dela, muito menos o desafio aberto ao homem que jurara lealdade. — Insolente. — murmurou, quase num rosnado. Nyra virou-se para ele em um segundo, arqueando uma sobrancelha. — Oh, o cão de guarda fala. Que novidade deliciosa. — Cuidado. — Riven deu um passo à frente, a voz baixa, carregada de ameaça. — Eu não tenho paciência para mulheres que se acham mais espertas do que são. Ela riu, sem medo, o som cortando o ambiente como fogo em pólvora. — Sorte a minha que não preciso da sua paciência. Elowen, percebendo que o clima poderia explodir a qualquer instante, se colocou entre os dois, pousando a mão no braço de Nyra. — Chega, vocês dois. Não vim aqui para presenciar uma guerra particular. — disse firme, encarando os dois lados. — Riven, ela é minha amiga. E Nyra, não complique as coisas. Kael finalmente interveio, caminhando alguns passos até ficar diante delas. A imponência dele parecia preencher todo o saguão. — Vocês terão tempo para conversar. — declarou, olhando diretamente para Elowen. — Mas não se esqueça: ela está aqui porque eu permiti. Nyra abriu a boca para retrucar, mas Elowen apertou sua mão discretamente, pedindo silêncio. A ruiva bufou, mas cedeu — por ora. Mais tarde, Elowen levou Nyra para um dos salões menores, longe do olhar constante dos seguranças, embora soubesse que câmeras e ouvidos invisíveis estavam espalhados pela mansão. Sentaram-se lado a lado no sofá de veludo azul, e pela primeira vez desde que se viram, puderam falar com mais calma. — Eu achei que nunca mais ia te ver. — Elowen confessou, a voz embargada. — Desde que Kael me trouxe, tudo pareceu um pesadelo sem fim. Nyra segurou sua mão com força. — Eu jurei a mim mesma que não ia parar até te encontrar. Seu pai tentou resistir, mas você sabe que eu não aceito não como resposta. Pressionei até ele contar. E quando soube... Lo, quase arranquei os cabelos de raiva. Elowen fechou os olhos, sentindo lágrimas ameaçarem escapar. — Ele me entregou como se eu fosse um objeto. — disse, quase num sussurro. — Como se eu não fosse filha dele. — Ele é um covarde. — Nyra cuspiu as palavras. — Mas eu não vou permitir que esse monstro que te mantém aqui destrua quem você é. Elowen respirou fundo, tentando reunir forças. — Eu tento não ceder, Nyra. Tento não mostrar medo. Mas às vezes... às vezes ele é esmagador. — Então eu vou ser sua voz quando a sua falhar. — a ruiva prometeu, os olhos brilhando de determinação. — Não importa o quão alto Kael grite, ou o quão ameaçador ele seja, você não está sozinha. Enquanto isso, no escritório, Kael observava as imagens transmitidas pelas câmeras. Elowen e Nyra conversavam, e mesmo sem ouvir cada palavra, ele percebia o vínculo entre elas. Aquilo o incomodava. Era um tipo de força que não vinha dele, uma chama que ele não podia apagar. Riven entrou, silencioso como sempre, mas sua expressão carregava um desagrado evidente. — Isso é um erro. — disse sem rodeios. — Essa garota vai causar problemas. Kael não desviou os olhos da tela. — Eu sei lidar com problemas. — Mas não precisava criá-los. — Riven retrucou, a voz carregada de convicção. — Ela fala demais, provoca demais. — E justamente por isso será útil. — Kael respondeu, finalmente se virando. — Ela mantém Elowen firme. E eu quero ver até onde essa firmeza pode ir. Riven estreitou os olhos. — Está brincando com fogo. — Eu sempre brinquei com fogo. — Kael disse, com um meio sorriso frio. — A diferença é que eu nunca me queimei. Mais tarde, já no quarto preparado para Nyra, a ruiva encarava a decoração luxuosa como se fosse uma prisão dourada. Quando Riven apareceu na porta, ela não perdeu tempo. — Veio ver se eu já estou domada? — perguntou, cruzando os braços. Ele permaneceu parado no batente, a postura rígida. — Só vim garantir que não faça nada e******o. — e******o seria achar que eu vou ficar calada. — rebateu de imediato. — Você pode até me vigiar, mas não pode controlar o que sai da minha boca. Riven deu um passo para dentro, o olhar afiado como lâmina. — Já estive diante de homens que matariam por muito menos do que a sua insolência. Nyra se levantou, caminhando até ficar diante dele, erguendo o rosto para encará-lo. — E eu já estive diante de homens que achavam que podiam me calar. Nenhum conseguiu. Havia algo naquele confronto que incendiava o ar. Riven se mantinha firme, mas a intensidade dela o tirava do eixo. Não era medo, não era fraqueza — era provocação. E, por mais que não admitisse, ela o fazia reagir de formas que não estava acostumado. — Você é um problema, ruiva. — ele disse entre dentes. — E você é um tédio, cão de guarda. — ela devolveu, sorrindo de canto. — Talvez seja divertido ver até onde consigo te irritar. Ele a fitou por um longo instante, depois girou nos calcanhares e saiu, fechando a porta com força. Nyra riu sozinha, sacudindo a cabeça. — Vai ser interessante. No quarto ao lado, Elowen não conseguia dormir. As palavras de Nyra ecoavam em sua mente, misturadas com o olhar de Kael no café da manhã. O controle dele parecia absoluto, mas pela primeira vez ela sentia que uma brecha havia se aberto. Uma pequena, mas suficiente para que a esperança respirasse. E talvez, só talvez, fosse essa fagulha que mudaria tudo.
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