Ponto de Vista de Emilia
A porta bateu atrás de mim, o ponto final para o meu exílio.
Fiquei ali parada no corredor, olhando fixamente para o chão de madeira rachado sob meus pés. Minha bochecha ainda latejava do tapa de meu pai, e meus dedos estavam grudentos de sangue pela forma como segurei meus punhos com força.
Mas essa dor era nada comparada ao que senti no peito.
Traição. Solidão. Raiva tão aguda que ameaçava me entalhar por dentro.
Engoli o grito preso em minha garganta e caminhei rigidamente para o pequeno e frio quarto nos fundos da casa. Costumava ser o depósito, até minha mãe decidir que era apropriado para a desgraça da família: eu.
Empurrei a porta rangente e fiquei parada na entrada, olhando ao redor para o patético quarto ao qual fui reduzida. Um colchão fino no chão. Uma cômoda quebrada faltando uma perna. Um espelho rachado.
Eles haviam me roubado tudo. Minha dignidade. Meu direito de nascimento. Meu futuro.
Mas não haviam me roubado.
Ainda.
Peguei a pequena bolsa de pano que mantinha ao lado do colchão. Tinha alguns pertences, algumas roupas, um livro antigo com as pontas gastas e enroladas.
Guardei tudo lá dentro, ignorando o tremor em meus dedos. O relógio na parede tiquetaqueava a cada segundo mais perto do anoitecer.
Esta noite, eu seria enviada ao palácio do Rei Alfa. Com as outras ômegas. Como gado para o abate.
Todos diziam que ele estava amaldiçoado. Tocado pela morte em si. Que sua cama era um cemitério de mulheres quebradas.
Mas que escolha eu tinha?
Minha respiração se agitava profundamente enquanto eu ficava em frente ao espelho rachado. Meu reflexo encarava de volta, pálido e fantasmagórico. Meus olhos estavam contornados de vermelho de tanto chorar em silêncio por muitas noites. Meus lábios estavam ressecados, e o hematoma florescendo em minha bochecha se destacava como uma marca escarlate.
E ainda, em algum lugar profundo naquele reflexo, eu vi algo mais, algo que eles não viam.
Fogo.
Limpei o sangue de minha palma e pressionei meus dedos no vidro.
— Você vai sobreviver… — Sussurrei para mim mesma. — Você vai sobreviver a isso, mesmo que te mate.
****
A viagem para o palácio foi em uma van preta enferrujada que cheirava a cachorros molhados e metal velho. Éramos seis no total, todas vestidas no mesmo vestido cinza simples que se agarrava de forma desajeitada em nossos corpos. Éramos sacrifícios.
Reconheci algumas delas de outras alcateias. Algumas tremiam de medo. Outras tentavam disfarçar atrás de bravata falsa. Eu? Mantive silêncio.
Fiquei olhando pela janela, vendo as árvores se borrarem, o céu escurecendo engolindo o sol em mordidas lentas e vorazes. Quanto mais perto chegávamos do palácio, mais frio o ar se tornava. Diziam que o palácio do Rei Alfa era esculpido na lateral das Montanhas Negras. Que nunca tocava a luz do sol. Que nunca ecoava riso em suas paredes. Que era amaldiçoado… como o homem que o governava.
Não sabia o que esperar. Tudo o que sabia era que não estava indo lá para morrer.
Estava indo lá para viver.
Quando chegamos, a lua estava alta e cheia, pendurada como uma testemunha silenciosa no céu sem estrelas. O palácio se erguia diante de nós — pedra n***a e torres esguias, suas paredes cobertas de hera que mais pareciam veias do que plantas.
Saí da van, minha respiração presa na garganta.
Os rumores não lhe faziam justiça.
Parecia uma fortaleza construída pela morte em si.
Guardas estavam ao lado dos imensos portões de ferro, vestidos completamente de preto. Seus olhos nos analisaram com desinteresse enquanto o motorista entregava alguns papéis. Uma lista, sem dúvida.
Fomos alinhadas, inspecionadas como animais em um mercado. Um dos guardas desceu a linha, franzindo o nariz ao nos observar.
Ele parou na minha frente.
— Nome. — Ele latiu.
— Emilia. — Respondi, a voz firme.
Ele arqueou uma sobrancelha para mim. — Filha de?
Minha mandíbula se apertou. — Alfa Gregor da Alcateia da Lua Vermelha.
Isso o fez pausar. — Filha do Alfa?
— Não mais. — Murmurei.
Ele me examinou de novo, e vi o lampejo de algo em seus olhos. Pena? Curiosidade? Foi embora tão rápido quanto veio.
— Andem. — Ele ordenou, apontando para o portão.
Fomos conduzidas como ovelhas.
Dentro, o palácio estava estranhamente silencioso. As paredes de pedra estavam frias ao toque, os corredores longos e estreitos. O ar cheirava a cinzas antigas e algo metálico. Sangue, talvez.
Uma mulher em um vestido preto justo com olhos perspicazes e um tom ainda mais afiado nos cumprimentou no salão principal.
— Vocês permanecerão em silêncio, a menos que sejam faladas com. Não falarão do Rei a menos que comandado. Não o encararão nos olhos.
Ela caminhava de um lado para o outro na nossa frente como uma predadora.
— Se forem chamadas, seguirão. Sem protesto. Sem hesitação. Se gritarem... ninguém virá.
Uma das garotas à minha esquerda soluçava baixinho.
Os olhos da mulher se voltaram para ela. — Não testem a misericórdia do Rei. Ele não tem.
Ela se virou completamente para nós. — Agora, serão levadas para seus aposentos. Uma de vocês será convocada esta noite.
O silêncio caiu enquanto ela andava de um lado para o outro, olhando cada uma de nós como se estivesse decidindo quem seria adequada para o sacrifício desta noite.
Seus olhos finalmente se fixaram em mim.
Eu não recuei.
Seus lábios se curvaram em algo que não era exatamente um sorriso.
— Levem ela primeiro.