Capítulo 5 - A b***a Acorrentada

1163 Words
Ponto de Vista de Emilia A sala estava em silêncio. Silêncio absoluto. Mesmo com o silencioso fungar abafado das meninas escondidas sob cobertores, mesmo com o ranger áspero de membros se movendo inquietamente nas camas, o silêncio parecia alto demais. Soava nos meus ouvidos como um sino de alerta, agudo e implacável. Eu estava deitada de lado, de costas para os outros, encarando a parede, os olhos bem abertos. Não tinha certeza se alguém realmente tinha dormido. Não de verdade. Como poderiam? Todas nós estávamos apenas esperando pelo mesmo destino: ser chamadas para a cama do monstro e nunca mais voltar. Mas a maioria delas tinha desistido. Você podia ver nos olhos afundados delas, na maneira como os ombros se curvavam com a derrota. Elas não estavam planejando nada. Estavam apenas... esperando. Não eu. Meu coração batia tão forte que doía, mas eu não estava esperando pela morte. Estava esperando pelo momento certo. E quando chegou, quando a sala finalmente se aquietou em uma frágil quietude, do tipo que vinha com um desespero proveniente do fundo do coração, eu me movi. Lenta. Cuidadosa. Silenciosa. Tirei o cobertor e deslizei as pernas para o chão. A pedra fria me fez recuar, mas não parei. Não podia parar. Não agora. Rastejei pela sala, passando pela garota no canto ainda tremendo em seu sono. Não olhei para trás. Minha mão segurou a maçaneta de metal da porta. Soltei o ar pelo nariz e a girei lentamente. A porta rangeu levemente e eu congelei. Nada se moveu. Ninguém se mexeu. Abri só o suficiente para sair e a fechei atrás de mim. E então, eu estava no corredor. Sozinha. O ar estava mais frio aqui fora. Mais denso. Como se o próprio palácio estivesse prendendo a respiração, esperando para ver o que eu faria. Havia um guarda ao lado da porta, mas ele ressonava suavemente, com a cabeça inclinada para trás e os braços cruzados sobre o peito. Obrigada à Deusa. Dei um passo, depois outro, prendendo a respiração a cada um. “Não faça barulho. Não tropece. Não morra.” O corredor se estendia diante de mim em um silêncio estranho. Apenas a luz da lua entrando pelas janelas de vidro oferecia orientação, pintando cores fragmentadas sobre o piso de pedra fria. Fiquei nas sombras, encostando-me na parede, meus pés se movendo sem fazer barulho. Não sabia para onde estava indo, só que a floresta estava em algum lugar além das paredes do palácio, e eu precisava chegar lá. Esse era o único plano que eu tinha. Sobreviver. O corredor se curvava à frente, agora mais escuro. A luz da lua não alcançava aqui. As sombras eram mais densas, como se estivessem vivas, respirando. E então eu ouvi. Um rosnado. Baixo. Gutural. Feroz. Ecoava pelo corredor como uma tempestade, vibrando pelas paredes, pelos meus ossos, direto até meu âmago. Eu congelei. Cada instinto gritava para eu correr. Me esconder. Voltar. Mas algo mais, algo que eu não conseguia explicar, me mantinha parada. E então... me virei. Como se não estivesse no controle das minhas próprias pernas. Caminhei na direção do som. Cada passo mais pesado do que o anterior, como se estivesse atravessando melado, como se o destino estivesse tentando me puxar para trás. Mas continuei me movendo. O corredor virava e seguia, até que encontrei a porta. Pesada. De ferro. Fria. Os rosnados estavam mais altos agora. Rosnando. Como se a criatura atrás da porta estivesse em agonia. Sem pensar, apertei a maçaneta. Não estava trancada. Abriu com um rangido baixo. E o que vi dentro fez minha respiração parar. Correntes. Em todos os lugares. Presas nas paredes, no chão, no teto, todas conectadas a uma única b***a. Mas não era um lobo comum. Isso... isso era outra coisa. Duas vezes o tamanho de qualquer lobo que eu já tinha visto. Músculos ondulavam sob o pelo preto da meia-noite. Garras compridas se cravavam no piso de pedra, marcando-o com sulcos profundos e raivosos. Seus olhos brilhavam em um dourado ardente, selvagem e atormentado. E seus dentes... Estavam expostos, pingando saliva, boca aberta em um rosnado furioso enquanto puxava as correntes, desesperado para se libertar. Era bonito e horrível. Não era um animal. Era um monstro. E então... seus olhos encontraram os meus. No momento em que me viu, enlouqueceu. Rugiu, puxando as correntes com uma violência que sacudiu o quarto. Recuei, o medo me inundando. Ele me mataria. Ele me despedaçaria. Mas eu não corri. Não sei porquê. Minhas pernas estavam presas, minha mente gritava, mas meu coração... meu coração estava despedaçado. Porque, por trás de toda aquela fúria, de toda aquela raiva, havia dor. Muita dor. E antes que eu percebesse, dei um passo à frente. — Não… — Sussurrei para mim mesma. — Isso é e******o. Você vai morrer. Mas meus pés não ouviram. Outro passo. A b***a rosnou mais alto, puxou novamente. Uma das correntes se partiu parcialmente da parede. Eu deveria ter gritado. Ao invés disso, me aproximei mais. Mais perto. Até que fiquei bem na frente dele. Ele rosnou, os olhos estreitando em mim, o peito subindo e descendo a cada respiração torturada. Levantei lentamente a mão. Ele recuou levemente, os músculos tensos, pronto para atacar. — Eu não vou te machucar. — Sussurrei, a voz tremendo. Não sabia com quem estava falando. Nem mesmo sabia por que me importava. Mas algo me disse que ele não era apenas um monstro. Estava aprisionado. Assim como eu. E quando meus dedos escovaram seu pelo, ele parou. Instantaneamente. Sem mais rosnados. Apenas respiração pesada. E então, lentamente, ele se abaixou ao chão, a cabeça imensa roçando contra minha palma. Ele gemeu. O som suave e dilacerante. E então... Ele envolveu seus braços gigantes ao meu redor. Sim. Braços. Soltei um grito. Ele me segurava com firmeza, enterrando a cabeça no meu ombro, soltando outro gemido suave. Fiquei congelada. Completamente atordoada. Meu coração batia forte. Ele não me machucou. Não mordeu, nem arranhou, nem atacou. Ele me segurava. E eu... eu não conseguia me afastar. Eventualmente, meu corpo relaxou, só um pouco. Não pude dormir, mas fiquei ali. Porque no momento em que eu tentava me mover, ele rosnava de novo, baixo e ameaçador. Então, permaneci ali, nos braços de uma b***a que deveria me matar, mas não o fez. Não sabia o que aquilo significava. Mas algo nele parecia importante. Só percebi que tinha adormecido quando senti o calor contra minhas costas. Um peito sólido. Braços humanos. Despertei sobressaltada. A b***a tinha ido embora. Em seu lugar, um homem. Seu braço estava ao meu redor, possessivo e forte. Entrei em pânico. Me afastei dele, o coração na boca, as mãos trêmulas. Ele não se mexeu. Ainda dormindo. Não ousei olhar para o rosto dele. Não podia. Eu precisava ir embora. Agora. Disparei. Corri daquela sala como se minha vida dependesse disso, sem ousar olhar para trás. Porque tinha a sensação de que acabei de destruir a única chance que tinha de liberdade.
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