Ponto de Vista de Maximus
Eu pisquei, sentando lentamente enquanto o som das correntes ecoava por toda a sala vazia. Tive que fechar os olhos por um segundo por causa da luz ofuscante.
Todo o meu corpo doía, parecia que eu tinha sido atropelado por um trem. Não era nada de novo, mas não significava que eu gostava.
Algo aconteceu ontem à noite. Alguém esteve aqui. Uma mulher. Mas por que eu não conseguia lembrar como ela era? Ainda podia sentir levemente a fragrância dela.
Baunilha e jasmim suave, quente e reconfortante. E algo mais, alguém cujo nome eu não conseguia identificar.
Meu monstro a ouviu. Meu monstro se inclinou para o toque dela. Meu monstro se acalmou. Fechei os olhos tentando lembrar do rosto dela e tudo o que vi foram sombras.
Quem era ela?
Antes que eu pudesse forçar mais minha mente, a porta se abriu e meu Beta entrou.
— Vossa Majestade. — Ele disse com uma reverência.
— Alguém esteve aqui ontem à noite. Uma mulher. — Eu disse e as sobrancelhas de Lucien se franziram antes dele olhar ao redor como se estivesse procurando por algo.
— Não vejo nenhum corpo. — Ele disse enquanto voltava sua atenção para mim.
— Me faça esse favor. — Eu disse antes de me levantar lentamente, as correntes tilintando ao arrastarem contra o chão de pedra. O peso delas era familiar agora, mas não menos humilhante. Meus pés descalços arranhavam o chão frio, as algemas de metal mordiam minha pele.
Lucien ficou em silêncio enquanto olhava ao redor mais uma vez.
— Não me interprete m*l, meu rei, mas ambos sabemos que às vezes você vê coisas. Você tem certeza de que não é um desses momentos? — Ele perguntou e eu estreitei os olhos para ele.
— Certo. Então você consegue descrever como ela era? — Ele perguntou, mas meu rosto permaneceu indecifrável.
— Não lembro como ela era, mas o cheiro dela… — Meus olhos se voltaram para a porta.
Eu poderia ter imaginado aquela mulher no meu estado de agonia? Isso poderia ser resultado da minha guerra constante com meu monstro e, de repente, estava imaginando que havia alívio para minha dor? Que havia redenção para minha alma moribunda?
E se ela tivesse sido apenas uma criação da minha imaginação? E se eu estivesse alucinando?
Porque não fazia sentido. Ninguém se aproximava de mim naquele estado e sobrevivia. Seriam dilacerados. Meu monstro era feroz, impiedoso e só queria sangue.
Não. Minha mente devia estar me enganando.
— O que você está esperando? Tirem essas correntes de mim.
— Sim, meu rei. — Lucien disse enquanto rapidamente começava a abrir os cadeados até que eu estivesse livre, e eu mexi as mãos e as pernas, esfregando os pulsos e esticando o pescoço.
Eu estava livre das correntes, mas parecia que havia algo mais envolvendo-me. Um tipo diferente de corrente envolvia meu coração.
Lucien me entregou um manto vermelho e eu o peguei, vestindo-o.
Qualquer jogo torcido que minha mente estivesse tentando fazer comigo, eu não estava pronto para isso.
Mas ainda. Aquela fragrância. Ela não estaria aqui se não houvesse ninguém.
— Encontre-a. — Eu disse subitamente enquanto começava a me dirigir para a porta.
— Encontrar quem?
— A mulher que esteve aqui ontem à noite. Encontre-a. Custe o que custar. — Eu disse e ele assentiu enquanto eu saía pela porta com Lucien seguindo atrás de mim.
Minha mente estava cheia de perguntas. Perguntas para as quais eu não tinha respostas.
Quem era aquela mulher? E o mais importante…
Por que meu monstro não a tinha matado?
*****
Meu coração batia tão alto em meu peito, como se fosse cair. Ainda não conseguia acreditar no que fiz.
Ainda não sabia por que fiz isso.
Foi um milagre eu ter conseguido voltar para os aposentos sem que ninguém percebesse. Não sei o que teria acontecido se a guardiã estivesse acordada ou se alguém mais tivesse me visto.
“Ah, deusa, sou tão burra. Joguei fora minha oportunidade de escapar com minhas próprias mãos.” Neste momento, eu estaria longe. Não sabia para onde iria, mas pelo menos estaria longe deste lugar onde meu destino seria decidido na cama do Rei.
Me senti tão estúpida. Eu queria arrancar meus cabelos, mas isso não mudaria o fato de que o que eu fiz foi suicida.
Eu deveria ter cuidado apenas dos meus próprios assuntos, mas eu não o fiz, agora veja o que me custou… Minha liberdade.
Aquele monstro. Fosse lá o que fosse, nunca vi algo assim.
Mas no momento em que entrei naquela sala, fui atraída por ele. Senti a necessidade de confortá-lo, arriscando minha própria vida e liberdade.
Deusa, a dor em seus olhos… Era como se ele carregasse o peso do mundo em seus ombros.
Um arrepio percorreu minha espinha ao lembrar. A maneira como ele rosnou, ele parecia selvagem, indomável, mas então ele se inclinou para o meu toque. Me levou em seus braços.
Quem ele era e por que o acorrentaram daquela forma?
Eu deveria ter olhado para seu rosto antes de sair correndo, mas talvez fosse melhor assim. Era melhor que eu não conhecesse o monstro ou homem com quem passei a noite em seus braços.
E se ninguém deveria entrar naquela sala, e eu fui lá?
Balancei a cabeça enquanto puxava o cobertor até o queixo.
Quem quer que fosse aquele monstro ou homem não deveria ser meu problema agora. Já joguei fora minha primeira chance de escapar. O que devia estar pensando agora era como escapar deste maldito lugar.
Tinha que garantir que nunca mais fosse levada para a cama do Rei. Nunca.
Me virei para ficar confortável, fechei os olhos e esperava conseguir dormir, mas então a porta se abriu e todas acordaram assustadas, olhando para a porta.
— Escutem, garotas. — A voz da mestra ecoou pela sala enquanto ela escaneava cada cama para garantir que estivéssemos todas presentes.
Então ela continuou: — Esta noite, cada uma de vocês será apresentada ao rei. — Ela parou enquanto seus olhos escaneavam a sala novamente, parando em mim brevemente.
— E acreditem, garotas... se comportem m*l esta noite e desejarão nunca ter acordado.