Palhaço
Hoje o sol tava digno de uma praia, mas aí eu lembro que sou bandido e não posso dar mole. Os cana não tem foto minha, tá ligado? Eles sabem sobre o meu vulgo e apenas isso. Sempre tentei ao máximo preservar a minha imagem justamente para não me pegarem de bobeira.
Sexta-feira à tarde, eu tô aqui na praça curtindo um pagodinho junto com os de verdade.
-- Vai beber não, preto? - Céci perguntou colocando um pedaço de carne na boca.
-- Tem algo me dizendo que não é pra eu me embriagar hoje.
Começou a tocar Camisa 10 e a Cecília levantou e puxou o Moura pra dançar com ela. A Céci toda perfeitinha dançando e o Moura parecendo aquelas vara de bambu verde balançando. Soltei uma gargalhada, mas logo a gargalhada foi preenchida por um olhar de preocupação.
"É A BOPE!"
Escutei um dos meus vigias falando e logo após os fogos subindo no céu.
Levantei rápido e comecei a ver aquela multidão se desesperar. Puxei o radinho e mandei os cara vim descendo para dar tempo dos moradores saírem sem se machucar. Logo após comecei a escutar as rajadas de tiro, as pessoas começaram a gritar mais ainda.
Olhei na direção do bar e vi Cecília guiando a multidão para dentro. Corri e fui para perto de um menor pegar o armamento que ele me trouxe e depois vi a Céci tentando abaixar o portão de ferro. O barulho dos tiros estavam cada vez mais perto, corri fui ajudar ela.
Assim que cheguei perto, vi os olhos dela marejados.
-- Pedro, não esquece da promessa...
-- Pode confiar, neguinha. Eu e o Moura vamos ir e voltar bem vivo pra você.
Fechei o portão de ferro grande e fui subindo em direção à boca principal do morro.
"Tem um grupo vindo pelo matagal"
Peguei a moto e saí disparado pelas vielas. Acionei no radinho mandando cinco dos meus irem subindo atrás junto comigo. Ficamos escondidos em uma casa toda quebrada que tem, só esperando os canas saírem do matagal. Assim que avistamos, começamos a disparar contra eles.
Foram todos de ralo. Eles não tinham muito o que fazer já que onde eles estavam era um local todo aberto.
Fomos descendo para as ruas de baixo e os inimigos que vinham na nossa direção rodava fácil. No meio daquele tiroteio todo, eu vi um menor todo encolhido em uma mureta. Pedi cobertura pros caras e fui tentar tirar o moleque dali.
-- Ei, menor, tá fazendo o que aqui, cara?
-- Eu só estava voltando da escola, tio. Aí começou os tiros e não tinha mais pra onde correr - ele falou chorando mais que tudo.
-- Vem comigo, rápido!
Puxei o menor e corri com ele para o outro lado onde tinha uma van estacionada.
-- Entra debaixo da van. Só sai daí quando eu ou algum dos meus menor vier te chamar.
Ele concordou e eu voltei pra esquina. Fiquei pegando cover de trás do muro enquanto atirava nos rival. Foi uma troca de tiros intensa até que o radinho apitou.
Os cana recuaram.
Soltei a voz mandando passarem a vistoria pelo morro todo, vai que um deles ficou escondido só esperando um dos meus passar.
Chamei o menor que estava escondido e fui guiando ele até a porta na casa dele. Quando a mãe do pivete viu ele, foi um chororô danado.
-- Muito obrigado, Palhaço, por ter cuidado da minha criança.
-- Fica em paz, dona.
Saí de lá e voltei pro bar onde a Cecília colocou os moradores que estavam na praça curtindo o pagode. Bati no portão e nada de responderem.
-- Cecília, sou eu, parceira. Pode abrir.
O portão foi levantado, e logo senti os braços dela me apertarem. Logo depois ela se afastou, me fazendo girar e fez uma vistoria rápida em mim.
-- Sem nenhuma bala, ótimo - deu um suspiro de alívio.
-- Te falei que ia voltar bem, pô.
-- Cadê o Moura?
-- Tô aqui, Cecilião - Moura falou vindo em nossa direção com um pouco de sangue no rosto.
-- c*****o, parceiro! E esse corte aí? - perguntei apontando para o corte em sua bochecha.
-- Saí no soco com um dos cara da BOPE - ele falou colocando a mão na parte machucada do seu rosto.
As pessoas que estavam dentro do bar escondidas saíram bem rápido e correram direto pra suas casas, ficaram com medo depois do ocorrido.
-- Ei, Céci, você mandou bem ajudando os moradores, papo reto - Moura falou abraçando a Cecília de lado.
-- Verdade. Na hora dos tiros as pessoas que estavam aqui ficaram paralisadas. Se não fosse você empurrando todo mundo para dentro do bar, vários inocentes seriam mortos.
-- Eu vi a preocupação de vocês quando começou a invasão. Eles pegaram todo mundo desprevenido - ela falou nos encarando.
-- Papo dez isso aí. Vou me informar sobre essa invasão surpresa aí - falei sério.
A Cecília estava certa, eles nos pegaram desprevenidos. A nossa sorte foi que deixei uns caras no pé do morro de vigia, senão tinha todo mundo ido pra vala de graça.
Vou reforçar mais ainda a segurança da comunidade. Segurança dos moradores e da minha família acima de tudo.
Peguei o meu celular e já vi post em várias redes sociais falando sobre a invasão e que a BOPE não conseguiu pacificar a Rocinha.
Se eles acham que vai ser fácil tomar a minha quebrada, eles estão enganados. Se os caras mandarem uma carreta para me atingir, eu mando o dobro para atingir eles.