Cecília
Tem sol pior que o do meio dia? Porque se tiver eu desconheço total.
Tô subindo o morro numa coragem que só, cansada de mais. Hoje o retorno na faculdade foi bem puxado.
Parei um pouco pra dar uma respirada e vi uma mulher toda desengonçada carregando várias sacolas. A moça chegava tava parecendo que estava perdida.
— Precisa de ajuda aí colega?
— Vou aceitar sim viu, sou nova moradora e tô meio que desnorteada ainda.
Olhando mais de perto ela não aparenta ter mais que vinte e seis anos.
— Percebi mesmo. Mora por onde?
— Tô morando numa viela.
— Ai você me complica, são tantas... tu tem que me falar o número da viela.
— Viela 9.
— Ah, tá pertinho. Vou te ajudar a chegar lá.
— Como é teu nome? — Ela me perguntou enquanto me entregava duas sacolas.
— Cecília e o seu?
— Laura, prazer — respondeu sorrindo.
— O que te trás ao morro da Rocinha, Laura?
— Eu vim de São Paulo em busca de novas oportunidades, sabe? E principalmente conseguir entrar em uma faculdade. Aqui eu tenho mais opções e pra quem tá começando agora, morar no morro é o que está cabendo dentro do meu orçamento no momento.
— Boa sorte nessa tua nova jornada — falei parando em frente a viela onde ela mora e me despedindo.
Senhor, o senhor tem que me recompensar por tal ato de bondade que eu fiz hoje de ajudar a menina perdida.
Cheguei e tomei aquele banho demorado e depois logo cai na cama.
[...]
Acordei assustada quando senti um tapa estralado na minha b***a. Levantei mais rápido do que o flash e olhei pro lado vendo o Palhaço se acabando de rir.
— Tá ficando louco, p***a?
— Te balancei mais do que tudo e tu não reagiu, pensei até que tinha falecido.
— Vai a merda, garoto. Tava sonhando que eu era rica e casada com o L7 — falei voltando a deitar na cama.
— Pois acorde porque tu é pobre e o L7 nem sabe que tu existe — falou se jogando em cima de mim.
— Me acordou pra que em?
— Fiquei sabendo que tu já conheceu a nova moradora. Ela te falou alguma coisa?
— Só falou que é de São Paulo e veio pra cá para poder entrar em uma faculdade.
— Não tô achando nada sobre a menina.
— Achar o quê, meu filho? Tá querendo saber até os parentesco da menina?
— Mas é claro, vai que ela tá aqui na maldade.
— Seu m*l é achar que todo mundo quer te derrubar.
— E o teu m*l é dar confiança às pessoas sendo que nem conhece elas direito.
— Aaah Palhaço, sai daqui vai! Fica atrapalhando meu sono e ainda fica falando bobagem — falei já um pouco irritada.
— É a pura verdade, meu amor. Mas eu vou descobrir mais coisas sobre essa garota aí.
— Boa sorte pra tu, meu amor.
— Para, que eu fico fraquinho com essas paradas de amor aí — falou cheirando meu pescoço.
— Sai dessa, garoto. Eu em, iludido — falei e recebi um tapão na coxa.
— Se eu ficar com marca eu vou te matar.
— Entra na fila, e já vou te avisando que ela é grande.
— Igual sua burrice?
— Não, igual o meu.
— Gentee, vocês não sabem da maior! — Guto entrou no quarto interrompendo o Palhaço.
— Quem te deixou entrar aqui, moleque? — perguntou o Palhaço cruzando os braços.
— Dá licença que eu sou da família, minha sogra que deixou, e ainda me ofereceu um café — respondeu se achando.
— E claro, a sogra tem que tratar bem o genro — falei entrando na onda do Guto.
— Vocês dois são dois bocós. Mas deixa eu meter o pé porque minha vida não tá ganha.
— Eu vou ficar aqui de marola com a minha novinha — respondeu o Guto enquanto passava o braço pelo meu ombro.
— Vai o c*****o! Bora passa logo.
— Tchau amor, mais tarde eu venho te ver — falou me dando um beijo na bochecha.
— Bom trabalho, amor — falei piscando de volta pra ele.
— Papo reto, vou pendurar vocês dois de cabeça pra baixo, só assim para parar de fazer graça.
— Não posso fazer nada se ninguém te quer! — falou o Guto e na mesma hora já tava correndo, e o Palhaço foi atrás pra pegar ele.
Saí na janela do meu quarto e vi o Guto entrando em uma viela correndo e o Palhaço com uma pedra na mão logo atrás.
Não sei qual dos dois é mais criança, papo reto.