Cecília
Toquei a campainha e não demorou muito para Tia Ana aparecer com um sorriso no rosto.
-- Céci, minha filha, entra aí. O Pedro tá lá no quarto dele.
-- Nem vim atrás dele não, tia. Vim atrás do seu bolo - falei mordendo o lábio.
-- Seu pedaço tá ali bem guardadinho.
Entrei e fui indo direto pra cozinha. Ela me serviu um pedaço de bolo com café enquanto me perguntava sobre a faculdade.
-- Na casa dos outros uma hora dessa, Cecilião? - Moura falou entrando na cozinha.
-- Vai a merda, Moura! Você também não tá aqui?
-- Mas eu morei aqui praticamente a vida toda.
-- Eu vou dar na sua cara!
-- Hoje o Moura acordou virado, Céci. Tá atentando até a coitada da cachorra - Tia Ana falou rindo.
-- Se eu fosse a cachorra eu mordia ele.
-- Mas você também é uma cachorra - ele respondeu com a mão na cintura.
Peguei uma colher de p*u que estava em cima da bancada e rumei nele, mas o filho da mãe desviou e quem acabou sendo acertado na cabeça foi o Palhaço, que estava vindo atrás todo distraído.
-- c*****o, Cecília! Tentativa de homicídio pra cima de mim logo de manhã? - falou enquanto passava a mão no lugar atingido.
A Tia Ana só sabia rir daquela situação.
-- Foi m*l, preto. Era pra pegar nessa praga do Moura.
-- Porque com o Palhaço rola apelido carinhoso e comigo não, em Céci? - Moura perguntou bolado.
-- Quando eu te chamava de n**o tu ficava no puro ódio.
-- É lógico! Tava acabando com meus esquemas, as mina tava achando que nós dois tinha caso.
-- Então pronto, não reclama.
-- Garota agressiva...
Fiquei de conversa por mais um tempinho e logo desci pro estúdio. Hoje tem baile, então o dia vai ser bem agitado. Tenho várias manutenções e maquiagens hoje para poder fazer.
Enquanto descia pro salão eu vi o cara da noite passada. Quando ele me viu passar, abaixou a cabeça.
Já tinha umas meninas me esperando na porta. Assim que abri, já fui logo adiantando o meu trabalho.
-- Ei, garota, ainda tem horário sobrando?
Olhei para frente e vi uma mulher de cara fechada parada na entrada do estúdio.
-- Infelizmente não, os horários de hoje já estão todos lotados - respondi educadamente.
-- Tá perdendo dinheiro então, mas sem problema. Eu vou no salão ali de cima que é bem mais espaçoso e organizado do que esse daqui - falou com deboche.
-- Então porquê não foi lá antes? - perguntei já cheia de ódio.
Ela me deixou sem resposta e saiu... Eu não entendi essa garota.
-- Ih, Cecília, relaxa. Essa daí tá pesando na sua por causa do Palhaço e do Moura - Nara falou enquanto olhava uma revista.
A gata estava aqui ontem pra fazer as garras e hoje veio para fazer a maquiagem.
-- Deixa ela vim de graça pra cima de mim.
-- Ela nem daqui é, só sobe aqui mesmo em dia de baile. A garota é do asfalto, típico aquelas meninas paty que sai da zona delas pra vim sentar pra bandido.
-- Tá vendo aí, a mona nem é daqui e vem crescer asa pro meu lado.
-- Ela tá de olho nos dois a tempo, só que o Palhaço não rende pra ela e o Moura diz que não gosta de mulher oferecida.
-- Ela vai ficar se mordendo sozinha, porque se depender de mim, vejo e finjo que nem conheço.
Terminei todas as minhas clientes já era um pouco tarde e, como eu prometi pro Palhaço, liguei para ele. O mesmo não demorou muito para chegar e eu logo subi na garupa.
-- Vai colar no baile?
-- Não sei, tô sem ninguém para poder ir.
-- Eu e o Moura somos ninguém?
-- Não é a mesma coisa, pô. Vocês ficam lá enchendo a cara enquanto eu fico sentada olhando vocês encherem a cara. Preciso de uma companhia feminina.
-- E as fiel dos cara lá?
-- Prefiro ficar sozinha do que andar com aquelas fiéis, inventam coisa de todo mundo.
-- E aquela menina lá que tu sempre andava?
-- A Nara?
-- Ela mesmo.
-- Vou ver com ela.
Ele concordou com a cabeça enquanto eu descia da moto. Entrei dentro de casa e fui logo me produzir pra mais tarde.