Belo Horizonte MG
Agosto de 2023
—Você tem mesmo que ir?
Era tentador demais, uma loira gostosa toda nua esparramada na cama me chamando toda assanhada.
Preferi nem olhar, continuei colocando minha calça.
—Desculpas, Noélia...
—É Noeli.
—Que seja, eu tenho mesmo que ir. Obrigado pela noite maravilhosa.
Nem acabei de abotoar a camisa, estava desesperado para sair daquele hotel.
—Me liga?
Olhei para ela, coitada. Vai cansar de esperar.
—Claro que não. É contra as regras.
—Que regras?
—As minhas regras.
Bati em retirada antes que me pedisse em casamento. Elas não entendem, eu não quero me amarrar em ninguém.
Por isso é muito raro eu sair mais de uma vez com a mesma mulher, logo na primeira transa já acha que é algo sério.
Uma p***a que vou me prender a uma mulher para o resto da vida...
Fui me organizando dentro do elevador enquanto descia até o estacionamento, eu juro que não sou um p********o filho da p**a, mas as mulheres são umas verdadeiras pestes em termos de sedução. Elas são um ímã que me atraí e quando dou por mim, já estou trepando com elas. É irresistível. Eu nem preciso dar em cima, elas que chegam quase esfregando na minha cara como uma c****a no cio.
Olhei no relógio e percebi que já estava em cima da hora, eu precisava ir para a empresa correndo, ainda bem que a empresa era bem próxima do hotel, levava uns quinze minutos para chegar.
Acelerei o máximo o meu carro, um Dodge, o próximo lançamento do ano seguinte.
Ainda meio desnorteado, passei pelo saguão às pressas e acelerei os passos quando vi que as portas do elevador já estavam se fechando.
—Segura, por favor.
Gritei para a pessoa que estava lá dentro e imediatamente, impediu as portas de fecharem.
—Obrigado.
Agradeci humildemente.
— Bom dia, senhor.
Janice sorria para mim, era a secretária do Jorge Moura. Gostosa, porém, nunca me envolvi com nenhuma funcionária da empresa.
— Bom dia, srta. Cruz.
Ela se virou ficando de costas para mim, seu vestido justo desenhava seu bumbum bem redondinho, o corpo perfeito. Me conteve, embora minha vontade era de segurar em sua cintura fina e puxá-la para mim. Beijaria loucamente aqueles lábios carnudos e convidativos...Só em imaginar, meu m****o viril já estava animado. Me controlei, não podia mostrar meu desejo. Eu era um executivo respeitado e muito reservado. E comer qualquer funcionária da empresa estava fora de cogitação, mesmo elas se jogando para cima de todas as maneiras, eu as tratava como deveriam ser tratadas, funcionárias e patrão.
Saí num ligeiro assim que as portas se abriram no vigésimo segundo andar.
Janice permaneceu, pois certamente estaria indo para o vigésimo quinto andar. Onde a reunião estava prestes a acontecer. — Sr. Giordano?
A baixinha com óculos fundo de garrafa estava na recepção e já me recebia com seu sorriso simpático.
—Bom dia, senhor.
Dana não era bem o padrão da empresa, usava roupas que pareciam ser da sua avó, sapatos baixos pouca maquiagem no rosto. Mas o que me fez continuar foi sua experiência e um currículo excelente e muito bem recomendada. Foi secretária da minha mãe, quando ela era a executiva de finanças da empresa. Mas mamãe se tornou uma grande estilista famosa. Hoje ela tem várias lojas de vestidos de noivas e roupas de grifes espalhadas pelo país.
— Bom dia, Dana. Sei que a reunião está para começar, mas preciso buscar o projeto na minha sala.
— Senhor...
Passei por ela feito um foguete. Nem deixei que completasse, parecia querer dizer algo, mas não fiquei para ouvir.
Ao entrar na minha sala, uma surpresa. Uma visita inusitada que não esperava encontrar.
— Bom dia, filho?
Minha mãe estava bem ali, sentada na cadeira de vistas toda elegante e sorridente.
— Bom dia, mãe. O que faz aqui?
— Você vive com o celular desligado, tentei ligar várias vezes. Sem resultado. Então decidi vir aqui. Já que você também não aparece lá em casa.
— Desculpas, mãe. Mas agora tenho uma reunião. Te ligo depois.
— Pedro, eu tenho que falar com você agora. Jorge espera mais um pouquinho.
— Mãe, se for sobre aquele assunto...
— É sobre aquele assunto.
— Ligo depois.
Peguei o projeto que estava em cima da minha escrivaninha e tentei me desvencilhar. Mas dona Patrícia sempre foi compulsiva. Gosta de resolver as coisas na hora e não deixar para depois.
— Pedro, você não tem mais cinco anos, mas continuo sendo sua mãe. E você vai me ouvir.
— Mãe, já deixei claro que eu não quero e nem tenho interesse nenhum naquelas terras. Nada que diz respeito aquela fazenda ou a transportadora.
— Filho, aquelas terras e a transportadora eram tudo para o seu pai. E tudo está se perdendo. Sei que você não precisa de nada daquilo, mas pense na sua irmã, ela também é herdeira, e se perder tudo, como que ela e a mãe vai viver?
— Acho que você está exagerando, mãe. Aquela transportadora sempre foi bem sucedida, e aquelas terras sempre produziram bem. Não pode estar tão m*l assim.
— Desde quando seu pai morreu, que as coisas não vão bem por lá. Está se afundando em dívidas.
— Luíza te ligou de novo para te contar?
— Não. Luíza não me ligou mais desde aquela vez. Quem me ligou foi a Rosa.
Fiquei pensativo. Para Rosa procurar ajuda, era porque a coisa realmente estava f**a.
— Está bem, mãe. Eu vou averiguar a situação depois. Agora preciso ir para a reunião.
— Pedro, promete que vai mesmo?
— Sim, mãe. Eu prometo. Agora tenho que ir.
Nem deixei que falasse algo se não ia me prender mais tempo. Ao sair da sala, Dana me olhou apreensiva.
— Desculpe, eu disse que não estava, mas ela quis esperar.
— Tudo bem, Dana. Eu sei como é dona Patrícia. Estou subindo.
— Sim, senhor.
Virei as costas e me direcionei ao elevador sem olhar para trás. Eu já estava trabalhando naquela empresa há cinco anos, estudei engenharia civil só por causa do meu avô Giordano. Ele era o dono de todo esse império que construiu.
Adoniran e Mariana Giordano eram meus bisavôs. Deixaram seu país basicamente por motivos econômicos e socioculturais. E na esperança de uma vida melhor. Desembarcaram na cidade de Ouro Preto, no interior de Minas Gerais. Começaram nas colheitas de café nas grandes fazendas da cidade. Apesar de minha bisa estava esperando um filho, esse veio a nascer nas terras mineiras meses depois que chegaram. Meu bisavô trabalhava duro nas colheitas enquanto minha bisa trabalhava na casa grande e o menino era muito bem tratado e cuidado pelos donos dos cafezais. Era um casal que não teve filhos, e o casal se apaixonou pelo menino de olhos verdes que acabara de nascer.
Meu avô perdeu seus pais ainda criança, quando tinha dois anos. Primeiro foi a mãe, meses depois o pai. Órfão e sem mais ninguém no mundo, foi adotado pelos donos da fazenda.
Teve todo o carinho e amor, como se fosse o filho deles de sangue. Estudou na melhor escola particular da cidade e a melhor faculdade de Belo Horizonte. Formado em administração, aos 25 anos, abriu sua própria construtora com o apoio dos seus pais adotivos que ficaram muito orgulhosos. Começou aos poucos, apenas uma sala em um prédio de vinte cinco andares. Logo foi expandindo, precisando de mais funcionários e mais salas.
Vovô conheceu a vovó aos seus 20 anos numa noite badalada de Belo Horizonte, amor à primeira vista, namoraram, noivaram e se casaram. Tiveram uma filha linda. Minha mãe, Patrícia Giordano. Alguns anos depois, os pais adotivos do vovô se foram num intervalo de dois anos, foi um e depois o outro. Eles deixaram para o vô 50% dos seus bens, os outros 50% foram doados para construção de um asilo e um hospital, a empresa do vovô fez todo o projeto e a construção sem cobrar um centavo... e quando precisou se afastar para cuidar da saúde, vovô me preparou para assumir a presidência da empresa... O que vem causando muita insatisfação e inveja desde quando eu assumir o lugar do vovô. E então ele partiu, em 2020. Me deixando com o cargo mais importante e cobiçado da empresa.
Janice já estava na recepção me aguardando sorridente e simpática como sempre. Me entregou o copo de café com o rótulo da cafeteria "Café e cia", que fica bem em frente a Gior"s. Agradeci dando um gole em seguida, do jeito que gosto, pouco cafeinado e bastante canela. Ainda sorridente, abriu a porta da sala de reunião, entrei ligeiro dando meu bom dia sem olhar para ninguém.
— Ótimo, podemos começar, pois quem faltava, chegou.
Jorge Moura. Sempre sendo irônico. Jorge era do financeiro e amigo do vovô. Era um dos mais velhos funcionários, passou anos se dedicando ao trabalho até ganhar a confiança do vovô. Se tornando assim, o vice-presidente da empresa. Vovô deixou para ele 30% da empresa, mas é claro que ele não poderia tomar nenhuma decisão sem o meu consentimento.
— Não pode começar uma reunião sem o presidente da empresa, sr. Moura.
Renato Rodrigues respondeu a altura. Renato era um amigo da faculdade, ele já estava no terceiro semestre de engenharia civil quando eu entrei para a faculdade. Ele era mestre de obras, um dia, vovô visitando uma construção, o conheceu. Viu que era bem dedicado e muito inteligente. E então, lhe fez uma proposta que não poderia recusar. Vovô pagou todo seu estudo e assim que se formou, o colocou como chefe de engenheiro de obras, ele é responsável pelo pagamento daqueles que trabalham nas obras.
— Certamente que não.
Jorge retrucou me olhando com desdém. Ele tinha um ódio mortal de mim, pois passou anos naquela empresa, e não achava justo o vovô ter passado para mim o cargo mais importante e majoritário da empresa. E não fazia questão de esconder, eu sabia que era capaz de qualquer coisa para ter a presidência, era uma cobra pronta para dar o bote e precisava ser esmagada o mais rápido possível.
— Bom, a empresa Ferreira, escolheu a Gior's para a construção de mais uma loja de cosméticos... — Jorge começou. — A sra. Ferreira não pôde estar presente hoje, mas mandou sua representante e sua filha, a srta. Daniela Ferreira. Seja bem-vinda, senhorita.
Quando olhei a minha frente, lá estava ela, com seu batom vermelho e tentador, nos lábios, um sorriso irônico.
PUTA QUE PARIU. Mas que p***a. A loura da semana passada. Conheci em uma noite badalada, achei gostosa e a quis naquela noite... Achei que não a veria novamente. Como o normal.
— Obrigada, senhor. Minha mãe teve um imprevisto de última hora, pediu desculpas pela ausência. Mas não se preocupe. Passarei tudo para ela e, se gostar do projeto, tomará a sábia decisão. E, minha mãe costuma sempre ouvir minha opinião.
Me olhou sagaz. Me endireitei na cadeira, mas não deixei transparecer nada. Minha vida era reservada. Nunca me envolvi com nenhuma das minhas funcionárias, muito menos com as clientes, menos ainda com as filhas delas... não as que eu soubesse... como foi o caso com a Daniela.
— Muito bem. Rodrigues, por favor, apresente a senhorita o meu projeto.
Falei sereno e bem natural.
— Isso, Rodrigues. Mostre-me o projeto do sr. Giordano. Vamos ver se me convence...
***
Não via a hora de sair daquela sala. A reunião com a srta. Ferreira foi tensa, porém me sair muito bem e em nenhum momento deixei transparecer algo para os demais daquela sala. Daniela havia deixado bem claro que, o contrato assinado dependia muito de mim, esclareceu isso num pedaço de papel escrito à mão em letras delicadas, e no final, um número de telefone.
Foda-se. A Gior's não precisava desse contrato de m***a, temos contratos internacionais. Raramente fechamos contratos nacionais, mas Jorge insistiu muito para pegar essa obra. Então, ela tinha que se sentir privilegiada por conseguir uma vaga na agenda. Agora me imprensar contra a parede por causa de uma transa... Ela não sabia quem eu sou...
Entrei na minha sala me jogando na cadeira e desfazendo o nó da gravata. Sempre odiei essas coisas formais, paletó, terno, gravata... É um saco. Mas, é necessário para a minha posição. De vez em quando vinha a saudade da vida no campo. Como eu adorava aquele lugar sossegado..., mas desde quando meu velho pai se foi, para mim, tudo perdeu a graça. Fazia sete anos que eu não ia a fazenda. Meu pai nunca saiu de lá. Como adorava aquele lugar. E como não amar. A vida no campo é maravilhosa, sem correria do dia a dia, sem trânsito parado por horas, sem buzinação de carros e motos, sem violência a todo instante..., mas confesso que depois desse tempo sem ir lá, eu já estava até me acostumado com a cidade grande, e mesmo sentindo falta dos meus tempos de criança, correndo a fazenda, cavalgando nos campos... Voltar para lá, não era minha intenção... não no momento de glória que eu estava vivendo...
Meu celular pessoal vibrou no bolso, era uma mensagem de dona Patrícia me lembrando da promessa que fiz a ela mais cedo...
— p***a. Ainda mais essa!