A viagem até Natal pareceu interminável. Cada quilômetro percorrido era como um peso extra sobre meus ombros. O carro avançava pela estrada, e a cada placa que mostrava a aproximação da cidade, meu coração acelerava mais.
Quando finalmente chegamos, fiquei em silêncio absoluto. A cidade se erguia diante de mim, enorme, movimentada, cheia de vida — e estranhamente assustadora. Pessoas cruzavam as ruas apressadas, buzinas soavam de todos os lados, e eu me sentia uma intrusa, como se aquele lugar tivesse sido palco de algo terrível em minha vida, mas que minha mente insistia em apagar.
Matteo estacionou o carro e respirou fundo antes de falar:
— Chegamos.
Olhei pela janela e engoli em seco. Não havia nada familiar. Era como se eu tivesse acabado de aterrissar em outro mundo. Mas, ao mesmo tempo, uma pontada estranha me atravessou o peito. Algo dentro de mim sussurrava que eu já havia estado ali antes.
Seguimos direto para a delegacia responsável pelo acidente. O prédio era simples, antigo, com paredes de tinta descascada e um ar abafado que parecia carregar histórias pesadas. Ao entrar, senti um arrepio subir pela espinha.
Um policial de meia-idade nos recebeu. Seus olhos eram sérios, mas não hostis. Matteo explicou toda a situação: o acidente, minha perda de memória, a confusão com Cecília, as dúvidas que ainda nos cercavam.
O policial ouviu em silêncio, anotando algumas coisas em um caderno amassado. Quando Matteo terminou, ele respirou fundo e apoiou as mãos sobre a mesa.
— Eu lembro desse caso — disse com voz firme. — O ônibus vinha de outra cidade, sofreu o acidente na estrada. Muitos feridos, alguns mortos... mas confesso que havia algumas coisas estranhas.
Meu corpo inteiro se arrepiou.
— Estranhas... como? — perguntei, a voz quase falhando.
Ele me olhou, os olhos estreitos como se avaliasse minhas reações.
— Houve inconsistências nos registros. Documentos desaparecidos, testemunhos que não batiam. Mas nada foi muito adiante.
Matteo se adiantou, a voz carregada de tensão:
— O que quer dizer com isso? Está insinuando que a investigação foi malfeita?
O policial suspirou e balançou a cabeça.
— O que estou dizendo é que esse caso... sempre me pareceu incompleto. Mas eu não tinha provas suficientes. Agora, com o que vocês me trazem, talvez valha a pena rever tudo.
Meu coração disparou. As mãos tremiam sobre meu colo. Era como se cada palavra dele fosse arrancando um pedaço da cortina que cobria meu passado.
— Nós precisamos saber quem ela é de verdade — Matteo disse firme, apontando para mim. — Se há qualquer coisa que prove que ela não é Cecília... precisamos encontrar.
O policial assentiu devagar.
— Vou revisar os arquivos. Vou ver o que consigo levantar sobre os passageiros daquele ônibus e cruzar com os registros de pessoas desaparecidas. Pode levar alguns dias, mas vou entrar em contato.
— Dias? — Matteo perguntou, frustrado.
— É o tempo que preciso. — Ele encarou nós dois com seriedade. — Mas se há algo errado nessa história, eu prometo que vamos descobrir.
Saímos da delegacia em silêncio. Do lado de fora, o sol forte da cidade contrastava com o peso que eu sentia no peito. Não sabia se aquilo era um começo ou apenas mais um beco sem saída.
Matteo caminhava ao meu lado, o maxilar travado, claramente inquieto.
— Eu não confio em investigações incompletas — murmurou. — Se esconderam alguma coisa, eu vou descobrir, com ou sem ajuda da polícia.
Olhei para ele, sentindo uma mistura de medo e conforto.
— E se eu não gostar do que a gente descobrir, Matteo? — perguntei, com a voz embargada. — E se a verdade for pior do que o vazio?
Ele parou, virou-se para mim e segurou meu rosto com as duas mãos. Seus olhos estavam intensos, queimando de determinação.
— Pior do que viver sem saber quem você é... não existe.
Engoli em seco, tentando absorver a força das palavras dele. Mas, no fundo, eu sabia: a verdade estava perto, e quando viesse à tona, mudaria tudo.
O sol já estava baixo quando deixamos a delegacia. O vento de Natal tinha um gosto salgado, mas não era agradável — parecia carregar uma ansiedade que se agarrava em mim como poeira. Matteo caminhava ao meu lado em silêncio, as mãos fechadas em punhos. Eu sabia que ele estava lutando contra as próprias emoções, tentando manter a calma.
— Vamos ao hospital — ele disse, a voz firme, quase seca. — Se houve outro paciente com as mesmas características que você... talvez seja a chave que precisamos.
Assenti, com o coração batendo forte.
O hospital era grande, barulhento e frio. O cheiro de antisséptico me fez estremecer; era o mesmo odor que me acompanhava nos fragmentos da minha memória desde que acordei após o acidente.
Entramos pela recepção, e Matteo falou com a atendente, explicando a situação. Seus olhos escuros tinham uma intensidade que parecia sempre arrancar respostas das pessoas, mas mesmo assim, a mulher demorou para entender.
— A senhora sofreu um acidente de carro há alguns meses... — Matteo explicou, controlando a impaciência. — Precisamos saber se outra mulher, com características físicas semelhantes, deu entrada aqui no mesmo período.
A atendente suspirou, mexeu nos papéis, depois no computador antigo, e disse:
— Os arquivos desse período estão no setor de registros médicos. Vou pedir para que tragam. Pode demorar um pouco.
Ficamos esperando em um corredor gelado, as paredes brancas pareciam me engolir. Eu me sentia presa em um labirinto sem saída. Matteo não desgrudava de mim, mas também não dizia nada. Apenas me olhava de vez em quando, com aquele olhar que queimava, como se quisesse atravessar minha alma.
— E se eles encontrarem outra pessoa? — minha voz saiu baixa, trêmula.
Matteo demorou a responder. — Então saberemos quem você é.
Quis acreditar no tom seguro dele, mas percebi a sombra em seu rosto. Ele não queria admitir, mas também temia a resposta.
Um homem de jaleco finalmente apareceu com uma pasta gasta. Ele abriu os papéis na nossa frente.
— Aqui estão as fichas das mulheres internadas após o acidente em questão... algumas já receberam alta, outras foram transferidas.
Meus olhos percorriam os nomes, as descrições... cabelos castanhos, pele clara, altura semelhante à minha. Uma delas podia ser eu. Outra podia ser... Cecília.
Senti um aperto na garganta. — Isso não faz sentido... por que eu estaria com a identidade de outra pessoa?
O médico nos encarou, confuso. — Às vezes, em acidentes graves, há trocas de identificação. Documentos podem ser danificados, confusões acontecem. Mas... não é comum.
Matteo se aproximou dele, a voz baixa, quase ameaçadora:
— Quero que revise cada registro, cada detalhe. Quero saber se alguém ficou sem identidade definida.
O médico assentiu, visivelmente nervoso. — Vou verificar e aviso vocês. Mas pode levar alguns dias.
Saímos do hospital mais pesados do que entramos. Eu sentia que a cada passo que dávamos em busca da verdade, mais sombras se levantavam. Quem eu era? Quem havia sido confundida comigo?
E, principalmente... por que alguém trocaria a minha identidade?
Matteo me pegou pela mão ao atravessarmos a rua, e seu toque foi firme, protetor. Mas eu percebia que por trás daquela força havia medo.
— A gente vai descobrir — ele murmurou, quase como uma promessa para si mesmo.
Fechei os olhos por um instante. Talvez descobrir fosse exatamente o que eu mais temia.