Capítulo 03

1613 Words
Bruna narrando O dia tinha sido cansativo pra c*****o. Eu não via a hora de chegar em casa e simplesmente deitar na minha cama. Meus pés doíam tanto que parecia que eu tinha passado o dia inteiro andando de um lado para o outro, quando, na verdade, eu praticamente não saí do lugar. Passei tanta roupa hoje que, em determinado momento, simplesmente perdi as contas. Quando finalmente chegou o horário de ir embora, desliguei o ferro, organizei algumas coisas e peguei minha bolsa. Saí da lavanderia com um certo desânimo. Por mais que eu não tivesse amigas ali, pelo menos tinha um pessoal. E, querendo ou não, já era alguma coisa. As meninas m*l falavam comigo, mas eu estava sempre ouvindo as conversas delas. Às vezes, ficava quietinha trabalhando enquanto elas conversavam sobre as festas do fim de semana, os namorados, as brigas com os pais, os problemas em casa... E, por várias e várias vezes, eu me pegava pensando em como conseguiam ser tão ingratas. Elas tinham pais. Tinham mães. Tinham irmãos. Tinham namorados. Tinham amigas. Tinham alguém para ligar quando precisavam conversar. E ainda assim reclamavam. Eu não conseguia entender. Bem que dizem que a gente só dá valor às pequenas coisas depois que perde. No meu caso, eu nunca nem tive a oportunidade de conhecer algumas dessas sensações que elas reclamavam tanto. Eu daria qualquer coisa para ouvir minha mãe reclamando comigo. Qualquer coisa para ter meu pai chegando em casa. Até uma bronca seria bem-vinda. Porque, no final das contas, o que eu queria não era uma vida perfeita. Eu só queria ter alguém. Hoje, porém, era dia de pagamento. E enquanto todo mundo saía da lavanderia empolgado, fazendo planos para o dinheiro que tinha acabado de receber, eu só conseguia pensar nas minhas contas. Aluguel. Internet. Energia. Comida. Era isso. Meu salário não era grande, então eu precisava pensar muito antes de gastar qualquer centavo. Passei no banco que fica na mesma rua da lavanderia e saquei o dinheiro do aluguel. Conferi as notas duas vezes antes de guardar na bolsa. Depois segui direto para o ponto de ônibus. Sentei em um dos bancos e soltei um suspiro. Peguei meu celular velho dentro da bolsa, coloquei os fones de ouvido e fiquei ali observando o movimento da rua. Carros passando. Pessoas indo embora do trabalho. Gente conversando. Casais andando de mãos dadas. Uma senhora carregando sacolas. Era engraçado observar a vida dos outros. Todo mundo parecia ter para onde ir. Todo mundo parecia ter alguém esperando. Eu só tinha uma casa vazia e um gato. Meu único companheiro. Depois de alguns minutos, um carro parou próximo ao ponto. Nem dei muita importância. Até os vidros baixarem. Olhei para o lado e reconheci o Gabriel. — Quer uma carona? Fiquei surpresa. Gabriel nunca tinha falado comigo antes. Literalmente nunca. E agora estava ali, do nada, me oferecendo uma carona. — Não precisa. Meu ônibus já vai passar. Ele deu de ombros. — Beleza. Fechou o vidro e foi embora. Fiquei olhando o carro se afastar por alguns segundos. Aquilo foi estranho. Muito estranho. Por que ele tinha parado? Será que alguém tinha mandado? Será que estava apenas sendo educado? Balancei a cabeça. Não queria ficar pensando nisso. Poucos minutos depois, meu ônibus apareceu. Entrei, paguei a passagem e fui direto para os bancos de trás. Graças a Deus, como eu trabalhava quase no ponto final da linha, geralmente pegava o ônibus vazio. Era uma das poucas vantagens que eu tinha. Podia escolher onde sentar. Encostei a cabeça no vidro e fiquei observando a cidade passar pela janela. Quando cheguei ao morro, desci no ponto que ficava alguns metros depois da barreira. Segui caminhando morro acima. Os vapores que estavam espalhados pelas ruas apenas me olharam. Eu já estava acostumada. Baixei a cabeça e continuei andando. Foi quando senti alguns pingos de chuva. Olhei para o céu. Ótimo. Era só o que faltava. Acelerei o passo porque a chuva estava começando a engrossar. Então ouvi o barulho de uma moto subindo rapidamente. Meu corpo inteiro ficou tenso. Nem precisava olhar. Eu já sabia. Mesmo assim, virei o rosto. Era Morte. E, atrás dele, vinha Fantasma, seu sub. Respirei fundo. Já sabia que ele ia parar do meu lado. Então fiz o que sempre fazia. Ignorei. Fingi que não tinha visto. Continuei andando. Mas, claro, ele me viu. A moto diminuiu a velocidade até parar ao meu lado. — E aí, Bruninha. Quando que tu vai dar uma moral pro pai? Revirei os olhos e fiz uma careta. — No dia de São Nunca. Já falei que não quero nada com você. Não sei por que você ainda insiste. Ele riu. — Mas pelo menos uma coisa certa você fez hoje. Vai me poupar o trabalho de ter que ir na boca atrás de você. Parei de andar. — E o que você quer comigo, já que não vou te dar uma moral? Ele desligou a moto e virou o corpo um pouco na minha direção. — Já te passei a visão, tá ligado? Se quiser virar minha fiel, eu te dou tudo do bom e do melhor. Tu não vai mais precisar ficar nesse teu emprego de bosta. Vai ter tudo o que quiser na hora que quiser. Ele entortou a cabeça, me olhando de cima a baixo. Aquilo me deu nojo. Mas eu sorri. Um sorriso bem debochado. Ele abriu o maior sorrisão, provavelmente achando que finalmente tinha conseguido alguma coisa. Então levantei a mão. E mostrei o dedo do meio. O sorriso dele morreu na hora. — Prefiro morrer ou ficar debaixo da ponte. Desviei o olhar. — A única pretensão de ir atrás de você é pagar o que eu devo. Abri minha bolsa e tirei o dinheiro. Olhei para Fantasma, que estava rachando o bico da situação. Estendi a mão na direção dele. — Toma. Fantasma olhou para o dinheiro. Depois olhou para Morte. O semblante dele ficou sério. — Eu ainda vou tirar essa marra sua, mandada. Revirei os olhos. — Boa sorte. Entreguei o dinheiro para ele. Depois olhei novamente para o Morte. Levantei o dedo do meio mais uma vez. — Boa noite. Nem esperei resposta. Entrei no beco e comecei a subir. Ouvi o barulho da moto acelerando atrás de mim e, por um instante, virei para trás, achando que Morte já tinha subido o morro. Mas não. Quem tinha subido era Fantasma. Morte ainda estava parado no mesmo lugar. Me olhando. Senti um arrepio. Virei para frente imediatamente. Não queria saber o que aquele homem estava pensando. Continuei andando até chegar ao mercado. Aproveitei para comprar algumas coisas que estavam faltando em casa. Arroz. Feijão. Leite. Algumas coisas para o café da manhã. Peguei também a ração do meu gato. Paguei tudo contando as notas com cuidado. Depois voltei para casa. Assim que entrei, a primeira coisa que ouvi foi meu gato miando. — Oi, meu amor. Ele veio se esfregando nas minhas pernas. Sorri pela primeira vez naquele dia. — Pelo menos você sente minha falta. Coloquei as compras na cozinha e fui direto para o banho. Fiquei alguns minutos debaixo da água quente, deixando a tensão do dia inteiro escorrer pelo ralo. Quando saí, coloquei meu pijama e prendi o cabelo. Desci novamente para preparar minha janta. Além de estar morrendo de fome, eu ainda precisava fazer a marmita do dia seguinte. Era sempre assim. Eu chegava cansada, mas ainda tinha coisas para fazer. Preparei arroz, feijão e um pouco de frango. Enquanto a comida ficava pronta, fiquei encostada na pia, olhando para a cozinha silenciosa. Foi quando pensei nas meninas da lavanderia. Provavelmente, naquele momento, estavam em algum bar ou na casa de algum namorado. Talvez estivessem conversando em algum grupo. Talvez planejando o fim de semana. Eu? Estava ali. Sozinha. Com meu gato. E com uma marmita para preparar. Respirei fundo. Não queria sentir pena de mim mesma. Já tinha feito isso várias vezes. Coloquei minha comida no prato e sentei à mesa. Meu gato ficou próximo aos meus pés. — Pelo menos você não me acha amaldiçoada, né? Ele apenas miou. Soltei uma risada baixa. — É... você é o único que não tem medo de mim. Fiquei alguns segundos olhando para ele. Depois abaixei os olhos para o prato. Talvez minha vida nunca fosse mudar. Talvez eu realmente estivesse destinada a viver daquele jeito. Sozinha. Sempre sendo observada. Sempre carregando uma história que eu nunca pedi para ter. Mas, apesar de tudo, eu ainda tinha esperança. Pequena. Quase invisível. Mas tinha. Eu queria acreditar que algum dia alguém olharia para mim e enxergaria apenas Bruna. Não o Anjo da Morte. Não a garota que sobreviveu. Não a mulher amaldiçoada. Só Bruna. Uma pessoa que também queria ser amada. E talvez fosse justamente por isso que eu precisava continuar. Porque, por mais cansativa que aquela vida fosse, eu ainda queria descobrir se existia alguma coisa além dela. Terminei minha janta, lavei a louça e preparei minha marmita. Depois subi para o quarto. Antes de deitar, conferi o celular. Nenhuma mensagem. Como sempre. Coloquei o aparelho na cabeceira e me deitei. Puxei o cobertor até o pescoço. Fechei os olhos. Mas, por algum motivo, a imagem de Morte parado no meio da rua, olhando para mim, não saía da minha cabeça. E aquilo me incomodava. Porque eu sabia que aquele homem não desistiria tão cedo. E eu só esperava que, dessa vez, a minha fama de Anjo da Morte fosse suficiente para mantê-lo longe. Eu já tinha perdido pessoas demais. Não precisava que mais uma pessoa entrasse na minha vida só para transformar tudo em outra tragédia.
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