As janelas da casa ainda estavam abertas. Ao chegar na porta, Martiniel sente o aroma da comida sendo preparada por sua mãe, dona Ozenilda. Seu pai, Onofre, estava assistindo TV.
- Pai! Mãe! Cheguei! - avisa Martiniel, um pouco avexado.
- Martiniel? Onde você esteve? - perguntou Onofre.
- Fui jogar bola, pai! - responde Martiniel, secamente. Seu Onofre olha para Martiniel, que fica sem jeito.
- Venham jantar! Está pronto! - chama dona Ozenilda.
- Vou tomar banho primeiro! - avisa Martiniel. Os pais olham Martiniel. Percebem que ele está estranho.
- Onofre, ele disse onde estava este tempo todo? - pergunta dona Ozenilda, aflita. Seu Onofre olha um tanto triste para dona Ozenilda.
- Ele disse que foi jogar bola. Ele sempre joga bola quando pode, vontando antes de anoitecer. Desta vez demorou demais para voltar pra casa... - reflete seu Onofre.
- Você acredita nele, Onofre? - insiste dona Ozenilda.
- Sim, acredito! - responde seu Onofre, inseguro. Martiniel aparece. Os três vão para a mesa.
- O que tem pra janta, mãe? - pergunta Martiniel.
- Arroz branco e sardinha! - responde dona Ozenilda, animada. Martiniel não se anima tanto. Seu Onofre e dona Ozenilda percebem Martiniel amuado enquanto estavam se servindo. Vendo isso, seu Onofre pensa em algo para tirar Martiniel do amuo.
- Sabe o Vicentino da rua da Praça? - pergunta seu Onofre, confidencialmente, tentando criar suspense. Martiniel levanta o rosto.
- Sim, o que tem ele? - pergunta o jovem, desinteressado.
- Ele vai abrir um mercadinho lá perto da avenida. Disse que está contratando gente para trabalhar para ele. Você não quer ir? - revela seu Onofre. Martiniel não se mostrava disposto. Olha para os dois, acuado.
- Vá filho! É um salto para o seu futuro! - incentiva dona Ozenilda. Martiniel apenas os olha em silêncio.
- Você vai ter salário, férias, décimo terceiro! - enumera seu Onofre, animado.
- Vai ser melhor pra você, Martiniel! - completa dona Ozenilda, com uma ponta de esperança.
- Vou pensar! - responde Martiniel. Não era bem a resposta que os pais esperavam. Seu Onofre e dona Ozenilda se entreolham por segundos, aflitos.
- Não é todo dia que se tem uma oportunidade como esta por aqui, Martiniel! - responde seu Onofre, preocupado.
- Eu já disse que vou pensar! - insiste Martiniel. Os pais se dão por conformados.
- Ele ainda vai se decidir, Onofre! - conclui dona Ozenilda, um pouco decepcionada.
- É... Vamos apoiá-lo... - responde seu Onofre, pensativo. Depois da refeição, seu Onofre e dona Ozenilda assistem TV. Martiniel foi para o seu quarto ver novidades no celular. Depois de um tempo adormece. Acorda no dia seguinte, quatro da madrugada. Toma um café rápido silenciosamente. Deixa um bilhete e sai de fininho. Ao chegar na esquina de sua rua vê Zaroio se aproximando.
- E aí, Zaroio? Firmeza? - pergunta Martiniel. Zaroio olha aborrecido para ele.
- Cê tá de zoeira? Tive que inventar um torneio de bairro para que meus pais não desconfiassem!
- Relaxa! Vamos nessa! - retorquiu Martiniel. E caminham morro abaixo. Quando se aproximavam do acesso ao barracão de Capitão, são cercados por homens equipados que estavam às ocultas.
- Chega aí, pivete! - diz um deles. Pé-de-c***a aparece e se aproxima dos dois amigos.
- Estão limpos, podem subir! - responde Pé-de-c***a após revistá-los. Martiniel e Zaroio sobem com outros dois homens até o barracão. Lá, Capitão já os aguardava. Havia agora uma mesa, que não estava ali na ocasião anterior, com alguns equipamentos.
- E aím Niel? Chega aí! - diz Capitão, sério. Zaroio não se move enquanto Martiniel se aproxima da mesa. Capitão olha para Zaroio, desconfiado.
- Vem tu também, vesgo! - ordena Capitão para Zaroio, que segue após Martiniel. Capitão se aproxima lentamente dos dois.
- Cês serão sentinelas onde eu mandar, tá ligado? - diz Capitão, lentamente, para que prestassem atenção.
- Sim, Capitão! - responde Martiniel.
- Sim, Capitão! - emenda Zaroio.
- Estão vendo esses celulares aqui? - pergunta Capitão, apontando para os dispositivos sobre a mesa.
- Sim, Capitão! - respondem Martiniel e Zaroio simultaneamente.
- Vou dar um para cada um de vocês dois. Quando tratar de assuntos do movimento não é para usar o celular que vocês estão usando, usem só os que eu dar a vocês, tá ligado? - instrui Capitão, pegando dois celulares não muito novos. Entrega um para Martiniel e outro para Zaroio.
- Neles só tem o meu número. Não coloquem mais nada neles, tá entendendo? - explica Capitão.
- Tá certo, Capitão! - responde Martiniel.
- Sim, Capitão! - complementa Zaroio.
- Pé-de-c***a vai levar vocês aos seus pontos! Comigo não tem caô! Se vacilarem se verão comigo!. - determina Capitão. Pé-de-c***a se aproxima dos dois, instando-os a segui-lo. Saem do barracão sob os olhares estranhos de Capitão. Capitão percebe que seus comandados pareciam inquietos.
- Que caô é esse? - pergunta Capitão.
- Pirata se antecipou, Capitão! - diz Canivete, um dos homens de Capitão. Capitão se surpreende.
- Esta vindo por onde? - pergunta Capitão, preocupado.
- Do lado do paredão! - responde Canivete.
- Avisa a rapaziada do Morro da Lua, que tá mais perto da comunidade da Ladeira! - determina Capitão. Canivete retira um celular da bermuda e começa a falar nele.
- Vamo! É agora! - diz Capitão, pegando alguns equipamentos. Cinco homens o seguem. Lá fora, mais sete se encontram com Capitão e os cinco e descem o morro por um caminho diferente do que Zaroio e Martiniel seguiram. Alheis a isso, Martiniel e Zaroio seguiam com Pé-de c***a morro abaixo. Param em um entroncamento de ruas.
- Tu vai ficar aqui, Zaroio! Se ver os homi de farda ou gente de outro movimento subindo pra cá tu avisa Capitão! - explica Pé-de-c***a.
- Como vou saber quem é do outro movimento? - pergunta Zaroio.
- Quando tu ouvir os pipoco contra quem tá subindo aí tu avisa Capitão! - responde Pé-de-c***a. O celular de Pé-de-c***a toca.
- Capitão tá chamando a gente pra descer! Depois mostro teu lugar, seu pé-no-saco! Não vacila comigo senão tu já era!- diz Pé-de-c***a, dando um leve empurrão em Martiniel. Pé-de-c***a e os homens que estavam com ele prosseguem sob os olhares espantados dos jovens amigos.
- E agora, Martiniel? - pergunta Zaroio, temeroso.
- Vamo ficar aqui! - responde Martiniel. O ponto em que estavam possibilitava uma ótima visibilidade de grande parte das comunidades vizinhas. Escutam tiros vindos de não muito longe.
- Eita, Martiniel! - se assusta Zaroio.
- Fica frio, Zaroio! Tu sempre ouviu esses pipoco e não ficava de caô! - retruca Martiniel.
- É, mas antes eu estava dentro de casa ou na escola, não no meio dos pipoco! - rebate Zaroio. Martiniel percebe que subiam em determinadas ruas. .
- Capitão, eles tão subindo pela ladeira aqui perto da pista grande! - avisa Martiniel. Os tiros aumentam de intensidade. Gritos ao longe são ouvidos. Martiniel e Zaroio tentam se proteger. Depois de um tempo, os tiros cessam. Martiniel e Zaroio esperam alguns minutos.
- Parece que pararam! - observa Zaroio,
- Sim! - completa Martiniel. Ficam em silêncio. Alguns homens equipados aparecem pela passagem com mata diante deles. Era Pé-de-c***a e a tropa dele. Martiniel e Zaroio ficaram mais despreocupados.
- Não deu tempo de a gente chegar onde estavam atacando. Capitão e os cara da vila botaram aqueles lixo do Pirata pra correr! - diz Pé-de-c***a. O celular de Pé-de-c***a toca e ele atende.
- Capitão tá chamando a gente lá no barracão, vamo nessa!- ordena Pé-de-c***a. Seguem morro acima. Novamente o celular de Pé-de-c***a toca. Depois de atender, Pé-de-c***a sorri para Martiniel.
- Eita, Cavalo tá lá também! - diz Pé-de-c***a.
Martiniel e Zaroio seguem, em silêncio.