Eloá Narrando.
Eu não sei o que vai ser da minha vida daqui para frente, sinto medo. Medo do desconhecido, medo do que estar por vim, medo de ser encontrada.
Depois que o Alexandre fez o curativo eu vim para o quarto.
Mais não encontro o sono, acho que dormir demais.
Me levantei e fui até a cozinha, tomei um copo de água.
Olhei para sala, ele parecia estar dormindo.
Me aproximei devagar, sem fazer barulho para não o acordar.
Me sentei na poltrona de frente para a janela, fiquei olhando a escuridão lá fora.
Faz tanto tempo que vivo na escuridão absurda, que é estranho ver uma luz no fim do túnel, uma nova chance de viver.
Mais o medo me impedi, me trava, não sei explicar.
- Angelina...- escuto o Alexandre sussurrar atrás de mim.
Me virei, ele continua dormindo.
"Quem será Angelina".
- Angelina meu amor... - ele sussurrou de novo.
Me levantei devagar e me aproximei dele.
- Alexandre... - chamei baixo.
Ele não acordou.
- Alexandre... - chamei e coloquei a mão nele.
Ele segurou meu pulso e me puxou, me fazendo cair sobre seu peito, me envolveu em um abraço de urso.
Eu arregalei os olhos.
Meu corpo inteiro tremeu e estranhamente relaxou, se sentiu em casa.
Tentei me levantar, ele apertou mais o abraço. Deitei minha cabeça no seu peito, sentindo meu corpo se entregar, pelo calor dos seus braços.
O sono profundo me levou.
Acordei com ele se mexendo assustado. Se sentou rápido comigo no colo.
Olhei para ele assustada. Ele me tirou do seu colo e se levantou rápido.
- O que está fazendo aqui? - perguntou nervoso.
- Desculpa. - falei abaixando a cabeça.
- Não peça desculpa, responda minha pergunta. - falou alto e bravo.
Muito bravo.
- Eu vim beber água, você chamou por Angelina, eu me aproximei para te acordar, você me abraçou e não soltou mais. - falei e olhei para ele.
Sua fisionomia mudou de raiva para dor e desconforto.
- Não se aproxima mais. - falou.
Virou as costas e saiu.
- Desculpa. - Sussurrei antes que ele passasse pela porta.
Não sei se ele ouviu, se ouviu ignorou.
Me levantei rápido e voltei para o quarto. Meu corpo tremia de medo, me enfiei na cama e chorei. Será que ele vai me mandar embora.
Não tive coragem de sair do quarto, estou com medo de ver ele, medo da sua reação.
Escutei batidas na porta e ele apareceu.
Me sentei.
- Posso entrar? - ele perguntou.
Assenti.
- Está com fome? - perguntou sem entrar muito no quarto.
Assenti.
- Vamos comer está pronta. - Ele falou e saiu.
Me levantei e fui atrás dele. Ele já estava sentado na mesa, me sentei também.
- Me desculpa. - Sussurrei de cabeça baixa.
Ele soltou a colher no prato fazendo um barulho que me assustou.
Mais não levantei o olhar.
- Você precisa para de pedir desculpas toda hora Eloá. - falou nervoso.
Assenti.
- Merda... eu que deveria te pedir desculpa, acho que estava sonhando e acabei confundindo com a realidade. - falou.
Olhei para ele.
"Acho que é a primeira vez que eu escuto alguém me pedindo desculpas, isso me deu uma vontade que a muito tempo eu não sentia, sorrir".
Abrir um sorriso.
Seus olhos se arregalaram, um brilho diferente passou por eles.
Ele se levantou e saiu.
Fiquei confusa, me levantei e fui atrás.
Avistei ele entrando na floresta rápido.
Pensei em chamar, mas ele não me ouviria. Entrei para dentro e me sentei na mesa. Me servi e comecei a comer.
Terminei lavei tudo. E fui me sentar na sala.
É estranho como eu ainda sinto o calor de seus braços ao meu redor. Nunca sentir algo parecido.
As horas foram passando e nada de voltar.
Tomei um banho demorada, sentindo a água quente aquecer meu corpo. Até tomar banho parece novidade. Coisa que era rara onde eu vivia.
Sai coloquei uma de suas camisas que parece um vestido em mim. Fiz o curativo no meu pé, do jeito que eu consegui e coloquei uma meia. Essa casa é bem quietinha não preciso me encher de roupa.
A noite caiu e ele não voltou. Meu estômago reclamou de fome, esquentei o caldo e comi.
Nada dele voltar. Estou me sentindo ansiosa e preocupada. Será que ele está bem. Me sentei no sofá para esperar ele voltar. Mas acabei me deitando e dormir, sentindo o seu cheiro no estofado.
Acordei com um barulho, me sentei assustada.
Olhei e vi ele na cozinha. Me levantei e fui até ele.
- Oi. - falei me aproximando.
- Oi. - respondeu sem me olhar.
- Quer ajuda? - perguntei vendo ele guardando umas carnes.
- Não. - respondeu seco.
- Eu quero ajudar, me sentir útil. - falei.
- Me ajuda ficando longe de mim. - falou nervoso.
- O que eu fiz para você? - perguntei sentindo um incomodo estranho com as suas palavras.
Ele soltou o que estava na sua mão na pia fazendo um barulho de vidro se quebrando. Colocou a mão na borda e respirou fundo.
Meu corpo tremeu de medo.
- Desculpa eu só queria ajudar, você já fez tanto por mim. - Sussurrei.
- Para de pedir desculpas p***a. - falou nervoso.
Me encolhi. Ele se virou e me olhou. Se aproximou rápido e olhou nos meus olhos.
- Me ajuda ficando longe de mim. - falou entre os dentes.
As lágrimas escorreram, meu corpo tremeu e as minhas pernas fraquejaram me fazendo desabar no chão.
- p***a. - Ele falou nervoso e se abaixou.
Me arrastei para longe.
- Não toca em mim por favor... desculpa. - Sussurrei com a voz embargada me arrastando para longe dele.
- Eloá, desculpa porra... é que... - falou se aproximando.
Me encolhi.
- Me deixa te ajudar. - falou estendendo a mão.
Neguei com a cabeça e me arrastei para mais longe dele.
- Eu não vou te machucar, eu nunca machucaria você. - falou com dor.
Olhei para ele.
As lágrimas ainda escorriam, mas sentir segurança em suas palavras.
Assenti devagar.
Ele me pegou no colo, passei os braços pelo seu pescoço e enfiei o rosto, sentindo o seu cheiro que me acalma.
Ele ficou tenso.
Mais...
Eu não consigo me afastar.
Eu não entendo o porquê, só me traz paz.