Eloá Narrando.
Eu nem me lembro direto quando eu estive em paz. Minha mãe morreu quando eu tinha 15 anos, mais antes disso ela ficou doente por muitos e muitos anos, não me lembro o quanto, era pequena demais.
Éramos somente eu ela e meu pai, não lembro da fase boa, mais lembro dele cuidando dela e de mim.
Sempre cuidadoso e amoroso.
Mais tudo mudou, quando ela morreu.
Ele mudou.
No começo era só as bebedeiras, ele chegava em casa caindo, eu o ajudava.
Dava comida.
Com o tempo a comida passou voar na minha direção, que se eu não desviasse, me machucaria.
Eu limpava chorando, por que fazia com carinho.
Depois disso começou as agressões, no começo era só uns puxões de cabelos ou alguns tapas.
Mais com o tempo foi piorando, eram tapas, socos e se eu caia era ponta pês. Eu gritava, chorava pedia, implorava e nada dele parar.
Quando ele cansava, simplesmente se afastava e me deixa ali no chão.
Eu tentei fugir, pedir ajuda e tudo piorou, como se já não estivesse pior.
Ele me trancou no quarto, colocou uma madeira na janela e amarrou uma corrente no meu tornozelo.
Eu perguntava, questionava, tanto para ele como para deus, até para minha mãe, o porquê, o que eu fiz, por que tinha que passar por isso.
Mais nunca tive respostas.
E continuava passando por aquilo. Todos os dias era as agressões, ele m*l me trazia comida, tomar banho era raro, só me deixava ir ao banheiro uma vez por dia.
E o que eu achei que não podia piorar, que ele já tinha feito de tudo.
Chegou o pior dia da minha vida, o dia que eu realmente desejei a morte.
Ele entrou de madrugada no meu quarto, só de cueca.
Me sentei.
Ele me olhava como um pedaço de carne.
Eu não sabia o que estava por vim, eu não entendia.
Lembro como se fosse hoje a suas palavras.
- Agora você vai ser a minha mulher...
Eu tremi e as lágrimas escorrendo.
- Eu sou sua filha... você não pode...
- Você não é minha filha quando me casei com a sua mãe você tinha dois anos, agora que ela morreu você vai ocupar o lugar dela na minha vida...
Ele veio para cima de mim.
Eu chorei, gritei, implorei.
E sentir a pior dor que eu avia sentindo na minha vida, pior que qualquer agressão que ele já tenha me feito.
Orei para aquilo acabar logo.
E quando finalmente acabou eu não conseguia me mexer.
Ele voltada todas as noites, e fazia a mesma coisa, sempre me machucando, no começo eu lutava mais depois desistir.
Fechava meus olhos e espera ele terminar.
Toda a vez eu achava que ia morrer.
Orei para a morte me levar, mas ela não vinha, eu sempre acordava e estava ali.
Quando ele bebia demais ele usava meu corpo, na frente, atrás.
Um dia eu acordei em um lugar diferente, em um porão escuro, sem janelas.
Deitada em colchão no chão.
Presa pela corrente, e nada mudou.
Pouco comida, agressões e meu corpo sendo usado da pior forma.
Os anos foram passando.
Não tinha como fugir, não tinha para onde ir.
Até que chegou o dia.
A oportunidade que eu nunca tive.
Ele me soltou me levou ao banheiro, quando voltamos ele usou meu corpo até que eu desmaiei mais uma vez.
Mais quando eu acordei estava diferente, ele estava caído dormindo do meu lado, não tinha corrente.
Me levantei devagar para não acordar ele. Sai de fininho na pontas dos pés.
Consegui passar pela porta, e sentir o frio no meu corpo.
A dor aumentou.
Mas eu não parei não podia parar ali, então eu corri, entrei a floresta.
Corri sentindo os galhos me cortarem, meu pé queimar na neve, mas eu não parei minha vida dependia disso.
Avistei uma cabana.
E corri até ela.
Agradeci a porta aberta.
E quando eu entrei meu corpo agradeceu.
E tudo apagou.
Eu não sei quanto tempo passou.
Quando acordei estava em uma cama diferente, com roupas diferentes e limpas.
Me sentei olhando em volta, confusa.
"Como eu cheguei até aqui".
Uma porta se abriu, eu olhei e travei.
Um homem enorme só de toalha, com seus cabelos presos, eu uma cara assustadora.
Ele me olhou.
- Até que fim você acordou garota. - Ele falou com uma voz grossa.
Eu me enfiei embaixo da coberta.
Sentindo meu corpo tremer.
Eu não posso ter saído de um inferno e entrar em outro.
Sentir ele se sentar próximo de mim.
- Por favor não me machuca. - Eu falei.
Ele puxou a coberta, eu me assustei.
- Se fosse para eu te machucar, já teria feito. - falou sério.
- O que vai fazer comigo. - Sussurrei.
- Nada, agora que você acordou, pode ir embora. - falou.
Eu arregalei os olhos.
"Para onde eu vou".
- Eu não tenho para onde ir. - falei.
- De onde você veio? - perguntou.
Eu neguei com a cabeça sentindo minhas lágrimas escorrerem.
- Qual o seu nome? - ele perguntou.
- Eloá. - Respondi.
- O meu é Alexandre, você não pode ficar aqui. - falou.
- Eu achei que não morava ninguém aqui. - Me expliquei.
- Mas eu moro e você precisa ir embora. - falou.
Eu assenti, me levantei devagar, mais uma tontura me fez parar.
- Tudo bem? - ele perguntou.
Sentir minhas pernas fraquejarem.
Ele me segurou.
- Vai com calma, está a muito tempo sem comer. - falou e me sentou na cama.
- Desculpa. - Eu falei.
- Vou trazer alguma coisa para você comer. - falou saindo do quarto.
Não sei o que eu vou fazer, para onde eu vou só não posso voltar para aquele lugar.
Ele voltou com uma bandeja.
E colocou na minha frente.
Eu comi rápido que m*l sentir o gosto, do tamanho que era minha fome.
Olhei para ele.
- Pode me dar mais um pouco? - perguntei com vergonha.
Ele assentiu e se levantou.
Me entregou outra tigela.
Comecei a comer com mais calma.
- Você fugiu? - perguntou.
Eu assenti.
- De quem? - perguntou.
- Meu pai. - falei sentindo o nó na garganta.
- Ele te mantinha presa? - perguntou.
Eu assenti, sentindo as lágrimas escorrerem de novo.
- Ele te batia? - perguntou.
Não consegui responder.
Ele não insistiu.
Voltei a comer, sobre seu olhar.
Quando eu terminei, ele pegou a bandeja e saiu.
Esperei ele voltar mais não voltou.
Me levantei devagar, fui até o banheiro, me olhei no espelho, e vi a quantidade de marca que ainda estão no meu rosto.
Faz tanto tempo que não olho no espelho que nem me lembrava mais do meu rosto.
Sai do quarto e fui andando procurando ele.
Ele estava na sala.
Me aproximei, estou sentindo uma dor horrível no meu pé.
- Onde estamos? - perguntei.
- Em uma montanha da Cecilia. - falou.
- Por que mora aqui? - eu perguntei.
- Gosto do sossego. - falou.
Eu assenti e me sentei no sofá.
- Como eu vou embora, não sei onde eu estou. - falei olhando a neve cair lá fora.
- Não morava aqui? - perguntou.
- Me lembro de morar na Itália. - falei.
- Próximo, tem família? - perguntou.
- Minha mãe morreu alguns anos, só tenho ele. - falei com a voz embargada.
- Quantos anos você tem? - perguntou.
- Pelas minhas contas 25. - falei.
Parei de contar a alguns anos.
Sequei as lágrimas que insistia em cair.
- Quer me contar o que aconteceu? - ele perguntou.
Assenti.
"Ele merece saber, fez mais por mim em tão pouco tempo, do que alguém fez por anos".
Respirei fundo.
- Depois da morte da minha mãe, ele mudou, começou a me bater, me xingar, me obrigou a fazer coisas... - falei entre os soluços.
- Seu pai? - perguntou em um tom de indignação.
- Ele não é meu pai de sangue, mas foi meu pai até a morte da minha mãe. - falei.
- Aí você fugiu? - perguntou.
- Ele me machucou como faz quando bebe demais, eu desmaiei e quando acordei estava desamarrada, a muito tempo ele não me desamarrava, desde a última vez que eu tentei fugir, meu corpo doía, ele estava desacordado do meu lado, mas eu consegui me levantar, corri o mais rápido que eu consegui e vim parar aqui, eu já não aguentava mais, se ele me achar, meu deus, ele não pode me achar. - falei abraçando os meus próprios joelhos.
Ele não falou nada.
É a primeira vez que eu falo o que ele fez comigo em voz alta, e isso dói demais.
Me acalmei um pouco.
Olhei para ele.
- Você pode me ajudar? - perguntei.
Ele me olhou.
- Me leva para algum lugar que eu possa pegar um ônibus, pra qualquer lugar ele não pode me achar. - falei desesperada.
O pânico toma conta de mim, só de pensar, em me aproximar dele de novo.
- Vamos esperar você se recuperar por completo, depois te levo. - Ele falou.
- Vai me deixar ficar aqui? - perguntei.
- Até se recuperar. - falou.
Sentir uma paz, que a muito tempo eu não sinto.
- Obrigado. - falei e ele assentiu.
Olhei para a janela de novo.
Mesmo com medo dele me encontrar, só de estar aqui eu me sinto seguro, uma segurança que não me lembro da última vez que sentir.
E isso é bom, muito bom mesmo.