CAPÍTULO 9 — EU QUERO SENTIR

1131 Words
Alexandre Narrando  Deixei ela no quarto e fiquei na sala. Ela não saiu mais. Me sentei na frente da varanda e fiquei olhando a neve cair. O tempo está demorando mais que o comum para melhorar. Parece que alguém está contra mim. Quanto mais tempo demora, mais tempo ela fica. Procurei a paz por tanto tempo, e tive. Só que agora eu me sinto desconfortável dentro da minha própria casa. Onde tem um anjo que mandaram para mim. Só não consegui descobrir ainda se era para me destruir ou para me salvar. Ou eu salvar ela, isso eu já fiz. Agora... Agora ela só precisa ir embora para minha paz voltar de novo. Ou não... Porque eu não sei como seria quando chegar o momento da sua partida. Fiz o almoço e ela não saiu do quarto. As horas foram passando, então resolvi chamá-la. Ficar longe de mim não quer dizer que tem que ficar sem comer. Bati na porta do quarto e não tive resposta. Abri. Avistei ela coberta encolhida na cama. Me aproximei. — Eloá... — chamei. Ela abriu os olhos e me olhou. — Vamos comer. — falei. Ela negou com a cabeça e se cobriu. Me sentei na cama. — Eloá... tudo bem? — perguntei. Não tive resposta. Puxei a coberta e olhei para ela. — Está se sentindo m*l? — perguntei. Ela assentiu. Coloquei a mão na testa dela e constatei que ela estava quente demais. — Está quente. O que está sentindo? — perguntei. Ela negou com a cabeça. — Você precisa falar para mim. — falei, puxando a coberta. Ela se encolheu. — Vem, se levanta. — falei, segurando sua mão. — Dói. — falou. — O que está doendo? — perguntei, pegando ela no colo. Ela não respondeu. Levei ela até o banheiro e liguei o chuveiro no morno. — Tá frio. — reclamou. — É para abaixar a febre. — falei. Me sentei no chão. Essa febre só pode estar vindo por causa do seu pé machucado. Ela enfiou o rosto no meu pescoço. — É o seu pé que dói? — perguntei, tirando sua meia. Ela negou com a cabeça. Olhei o machucado e estava quase bom. — Então me fala onde dói. — falei. — Aqui. — falou e colocou a mão no peito. Eu travei por um momento. Afastei ela e fiz com que me olhasse. Olhei nos seus olhos, que transbordavam dor. — Seu peito? — perguntei confuso. — Não quero ficar longe de você... — falou. Enfiou a cabeça no meu pescoço de novo. — Você me faz bem. — sussurrou. Meu coração acelerou. Não respondi. Não sabia o que falar. — Você não pode me afastar, por favor. — sussurrou. Eu a abracei como resposta. Sentindo seu coração acelerado junto ao meu. Me levantei com ela no colo, desliguei o chuveiro e coloquei ela sentada no banco. Entreguei uma toalha e peguei outra. Saí do banheiro, peguei uma camisa e voltei. — Toma, se troca. — falei. Ela assentiu sem me olhar. Saí do banheiro, peguei uma roupa e me troquei rápido. Quando voltei, ela não tinha se trocado. Estava abraçada à toalha, se tremendo. — Por que não se trocou? Vai ficar doente. — falei, me abaixando na sua frente. Ela me olhou. — Me desculpa... — sussurrou. — Está pedindo desculpa pelo quê? — perguntei. — Eu não consigo. — falou, negando com a cabeça. As lágrimas escorreram. — Não conseguiu se trocar? — perguntei. — Não. — sussurrou com a voz embargada. "Isso não vai ser fácil. Acabei de perceber que eu não estou sentindo isso sozinho." — Se troca. Depois a gente conversa. Vou esperar no quarto. — falei. Ela assentiu e eu saí. Me sentei na cama, com as costas na cabeceira. Depois de alguns minutos, ela saiu do banheiro. Veio até a cama e se deitou, se enfiando embaixo da coberta do meu lado. Olhei para ela, que me olhava curiosa. Eu nem sabia o que falar. Me deitei e me enfiei embaixo da coberta com ela. Mantendo uma distância segura. — Essa situação não é nada boa. — falei. Ela se aproximou e colou seu corpo no meu. Encostou a cabeça no meu peito. Meu corpo reagiu na hora. — Eu só quero ficar assim com você. — sussurrou. — Não podemos. — sussurrei, me afastando um pouco. — Podemos, sim. — ela falou, me olhando. — Você não entendeu nada do que eu te falei. — falei, olhando para ela. Ela colocou a mão no meu rosto. — Você falou que não machuca. — ela falou. — Eloá... — falei, fechando os olhos. Sentindo sua mão pequena no meu rosto. O carinho na minha pele, que se arrepiou com um minuto de contato. Senti seu polegar alisar meus lábios. Abri os olhos. Olhei para ela. — Para. — falei, tirando a mão dela de mim. "Isso só está piorando as coisas." — Por favor... não me afasta. — sussurrou com os olhos cheios de lágrimas. Ela colocou a mão de novo no meu rosto. Se aproximou. O suficiente para deixar seus lábios bem próximos dos meus. — Não faz isso... — sussurrei. Ela ignorou e colou seus lábios nos meus. Quando os lábios dela tocaram os meus, meu mundo pareceu parar. O beijo era tímido, hesitante, como se ela estivesse descobrindo o que era confiar em alguém pela primeira vez, e isso fez algo dentro de mim se partir. Tudo o que eu mais queria era segura ela nos braços e prometer que ninguém jamais voltaria a machucar elz, mas eu também sabia que, se cedesse àquele momento, já não teria forças para pedir que ela se afastasse de mim outra vez. Me afastei. — Não faz isso. — falei firme. — Eu quero sentir. — sussurrou, olhando nos meus olhos. — Eu não sou a pessoa certa para isso. — falei. — Para mim você é... por favor... — pediu. Ela me olhava curiosa, esperando um único movimento meu. Mas eu não consigo fazer isso. Não sei até onde eu iria. Ou se conseguiria parar. Então ela não esperou mais e colocou seus lábios nos meus mais uma vez. Seus lábios permaneceram nos meus por mais um instante, e meu corpo cedeu antes da minha razão. Quando percebi, eu já estava correspondendo àquele beijo. Foi lento. Cuidadoso. Encostei minha boca na dela como se qualquer movimento brusco pudesse machucar ela. O gosto do beijo não foi o que me marcou. Foi o tremor leve dos lábios dela, a confiança silenciosa que depositava em mim. Cada segundo fazia meu peito pesar mais, porque eu sabia que aquele beijo mudava tudo. Eu já não tinha forças para afasta ela... E, pela primeira vez em muito tempo, também não queria.
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