Alexandre Narrando
Sou herdeiro da máfia grega. Como filho único de um casamento fracassado, era o braço direito e sucessor do meu pai, um dos homens mais cruéis que eu já conheci fora de casa, porque, dentro, era pai e esposo exemplar. Mas minha mãe nunca entendeu isso. Obrigada a se casar com ele, não suportou a vida que levava ao lado dele e se matou quando eu tinha dez anos, me deixando sozinho com o meu pai. Vi meu pai cair e se levantar depois de sua morte.
A máfia não espera pela recuperação de um luto doloroso, então ele seguiu em frente, nunca mais se casou e se dedicou completamente à máfia e ao meu treinamento, que não foi fácil, mas eu sempre fui forte e sabia qual era o meu caminho, então não adiantava reclamar.
Sempre fui o primeiro em tudo, me destaquei e me transformei no que ele sempre quis.
Virei um executor exemplar, sem falhas.
Mas tudo mudou quando eu a conheci, Angelina, a mulher dos olhos mais gentis e cheios de bondade. A inocência transbordava do seu sorriso, mas nasceu no mundo errado, onde ela não tinha muita escolha e foi obrigada a se casar comigo.
No momento em que ela me viu pela primeira vez, sorriu. Um sorriso que me fez me apaixonar por ela, e sempre prometi protegê-la acima de tudo.
Tínhamos o casamento perfeito. Ela sempre demonstrou o quanto me amava, em cada gesto, no sorriso, no carinho, no jeito que cozinhava para mim quando eu chegava tarde, no seu toque, no seu beijo, nos seus cuidados.
Me tornei um homem diferente por causa dela. Vivia por ela, vivia ansioso para chegar em casa e encontrar ela sentada no sofá, lendo seu livro e me esperando com o sorriso que iluminava meus dias.
Nosso primeiro filho veio cinco anos depois, um menino forte, que encheu nossa casa de alegria, o brilho da máfia, o próximo herdeiro ao posto. O nome dele era forte como ele: Aries.
A Angelina se tornou mais feliz com a sua chegada. Agora eu não encontrava só ela quando chegava em casa, eram os dois. A minha paz estava neles, em ter eles na minha vida.
Seis anos depois, ela engravidou de novo, completando ainda mais nossas felicidades.
Só que chegou o maldito dia, o dia que acabou com tudo, com a minha vida, minha felicidade e minha paz.
O dia que eu falhei na promessa de protegê-la.
Precisei viajar em uma missão que levou quase um mês e, quando eu voltei, meu mundo desmoronou. Minha vida acabou e o homem que ela construiu morreu junto com eles.
Um incêndio criminoso os tirou de mim, da forma mais c***l que alguém podia fazer.
Os inimigos invadiram a nossa casa, mataram meus homens e começaram o incêndio no nosso quarto, onde ela dormia com o nosso filho.
Quando eu voltei, só restavam cinzas e dois corpos para serem velados e enterrados.
Entrar na nossa casa e ver o estrago, os porta-retratos na sala no meio das cinzas, me destruiu.
Tudo tinha acabado.
Nada mais aplacava a dor de ver o caixão deles descer à sepultura. Pela primeira vez, eu me vi chorando por uma perda que doía mais do que qualquer tiro ou facada que eu já tenha tomado na minha vida.
E, diante do túmulo da minha família, eu jurei vingança. Jurei que isso não ia acabar ali, que todos que tinham tirado eles de mim iriam pagar.
E pagaram...
Eu não quis ajuda, não reportei meus planos. Só fui e fiz. Certo ou errado, não me importava.
Eu matei uma máfia inteira. Não sobraram crianças, mulheres, soldados, famílias, Dom, herdeiros.
Todos morreram pelas minhas mãos, pela minha dor.
Pagaram por terem tirado a minha paz de mim.
Mas a paz não voltou, a dor não passou, a falta continuou, e a solidão tomou conta.
Não conseguia mais viver ali, na cidade onde vivíamos, na máfia. Então eu resolvi ir embora.
Contra tudo, meu pai não aceitou, o conselho recusou. Eles me prenderam, me mantiveram preso por meses, até que eu mudei de ideia.
Ou melhor...
Fiz eles acreditarem que mudei.
Saí da prisão, fingi simpatia, continuei trabalhando e deixei meu dinheiro irrastreável.
E meses depois, com uma mochila e as duas fotos que me restaram deles, depois do incêndio...
Eu sumi...
Não olhei para trás, não tinha para onde olhar.
Nada mais me prendia ali.
Escolhi me fechar em uma montanha na cidade de Cecília, onde o frio é implacável e a dor é minha única companhia.
Onde a neve apaga meus rastros, mas não a dor.
Já se passaram cinco anos.
Hoje, com 35 anos, vivo com a dor, com a saudade, em um lugar onde ninguém me conhece e muitos me temem.
Me denominam a Fera das Montanhas.
Se eu me importo com isso?
Não.
É melhor assim. Pelo menos ninguém me importuna. Como o que eu mesmo caço e vou à cidade uma vez por mês para comprar o básico para uma sobrevivência humana.
E não preciso mais de nada.
Não sei sobre a máfia, não tenho telefone ou televisão, apenas um rádio velho que pega às vezes e um jipe para me locomover.
Não sei se meu pai ainda está vivo, não sei se já chegou a hora de assumir meu posto.
Não sei se me procuraram ou ainda me procuram.
Só sei que ainda não me acharam e, se depender de mim, nunca vão achar, porque, se eu souber ou vir um rastro de alguém próximo, eu sumo de novo.
Mas, até agora, nada, e agradeço por isso, porque agora o que me traz paz é essa montanha, longe de tudo e todos.
Tendo como companhia, silêncio, neve e dor.