Eu estava atrasado pra escola.
Celina já tinha gritado meu nome duas vezes do outro lado da porta, e eu tentava fechar o último botão da camisa olhando pro espelho enquanto procurava o celular com o pé.
— Benício!
— Já vou, vó!
Minha voz saiu meio arranhada.
Fiz uma careta.
Na noite anterior, Igor tinha me convencido a ficar quase uma hora na quadra vendo uma pelada que eu nem queria assistir. Gritei, zoei, discuti com um moleque que jurava que uma bola claramente fora tinha entrado.
Pronto.
Rouquidão explicada.
Eu puxei a gola da camisa.
Foi aí que percebi.
Um volume pequeno, na parte de baixo do pescoço.
Nada absurdo.
Se eu não estivesse praticamente com a cara colada no espelho, talvez nem tivesse visto.
Passei os dedos.
Tinha alguma coisa ali.
— Que merda…
Apertei.
Não doeu.
Apertei de novo, como se o negócio fosse entender a indireta e desaparecer só porque eu estava sem tempo pra aquilo.
Continuava ali.
— Benício, eu vou contar até três!
— Vó, pelo amor de Deus, eu tenho dezesseis anos!
— Então usa os dezesseis pra descer essa escada sozinho!
Eu ri.
Ou tentei.
A garganta arranhou outra vez.
Peguei a mochila, enfiei o celular no bolso e dei mais uma olhada no espelho.
Devia ser uma íngua.
Já tinha aparecido uma atrás da minha orelha quando fiquei gripado.
Corpo fazia umas coisas esquisitas mesmo.
Fim.
Problema resolvido.
Ou era isso que eu queria acreditar.
Desci.
Celina estava na cozinha, colocando café numa caneca.
Minha avó tinha um talento impressionante pra fazer uma pessoa se sentir julgada sem precisar abrir a boca.
Bastava levantar uma sobrancelha.
— Oito e dezessete.
— Eu sei ver hora.
— Tenho minhas dúvidas.
Peguei um pão.
Ela bateu na minha mão.
— Senta.
— Vó…
— Senta.
Sentei.
Celina podia ter pouco mais de um metro e sessenta, mas mandava naquela casa melhor do que muito homem mandava no morro.
Inclusive meu pai.
Principalmente meu pai.
Ela colocou o prato na minha frente.
— Seu pai mandou mensagem.
Revirei os olhos.
— Claro que mandou.
— Disse que passa aqui mais tarde.
— Ele sempre diz.
Celina me encarou.
Abaixei os olhos pro pão.
— Não precisava falar assim.
— Mas eu menti?
Silêncio.
Essa era uma tradição da minha família.
As conversas mais importantes quase sempre terminavam onde ninguém dizia mais nada.
Meu pai me amava.
Eu nunca duvidei disso.
Só que Vicente Azevedo tinha uma capacidade absurda de estar presente e ausente ao mesmo tempo.
Todo mundo conhecia Nero.
O homem que mandava.
O homem que resolvia.
O homem que fazia uma rua inteira se mexer depois de meia dúzia de palavras.
Eu conhecia Vicente.
O cara que entrava no meu quarto quase meia-noite, perguntava se eu tinha comido, reclamava das minhas notas mesmo quando estavam boas e depois ficava encarando meu computador sem entender porcaria nenhuma.
— Isso aí é o quê?
— Edição.
— De quê?
— Foto.
— Pra quê?
— Pra ficar melhor.
— Mas já não tava boa?
Era impossível conversar com ele sobre fotografia.
Peguei a caneca.
— Posso ir?
— Come direito primeiro.
— Tô comendo.
— Engolir correndo não é comer.
— A senhora tem regra pra tudo.
— Por isso você chegou aos dezesseis inteiro.
Mordi o pão.
Na hora de engolir, senti uma coisa estranha.
Não chegou a doer.
Foi mais como se tivesse descido devagar demais.
Peguei café.
Celina percebeu.
Claro que percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Engasgou?
— Não.
Ela continuou me olhando.
— Tô de boa, vó.
E estava.
Pelo menos era o que eu achava.
⸻
Na escola, esqueci completamente o negócio no pescoço.
Quando você tem dezesseis anos, existem problemas muito mais urgentes.
Igor tinha descoberto que eu ainda não tinha respondido uma mensagem da Clara.
Pra ele, isso era praticamente crime.
— Você é muito burro — ele anunciou assim que me viu.
— Bom dia pra você também.
— Ela mandou coração.
— Era reação numa foto.
— Coração é coração.
Nico puxou uma cadeira e sentou ao contrário.
— Concordo com o professor Igor.
— Você não entende mulher nenhuma.
— Não entendo. Mas não desperdiço coração.
Malu chegou atrás dele.
— Quatro adolescentes e nenhum neurônio funcional.
— Bom dia, Malu.
— Bom dia nada. Você fez o trabalho de História?
Silêncio.
Ela fechou os olhos.
— Inacreditável.
Eu ri.
Minha voz falhou no meio.
Igor olhou pra mim.
— Ih. Virou cantor de pagode?
— Gritei ontem.
— Tá parecendo velho fumante.
— Vai se ferrar.
— Até xingando tá rouco.
Peguei o celular e abri a câmera.
Era meu jeito preferido de terminar conversa.
Quando eu colocava uma lente entre mim e o mundo, tudo parecia mais simples.
Luz.
Distância.
Enquadramento.
As pessoas achavam que fotografia era só uma coisa bonita.
Pra mim, era organização.
Eu podia escolher o que entrava.
O que ficava de fora.
O que merecia foco.
Na vida real, ninguém dava essa opção.
Principalmente quando você era filho de um homem como o meu pai.
Na escola, eu era Benício.
No morro, dependendo de quem falava comigo, eu era primeiro o filho do Nero e depois qualquer outra coisa.
Eu odiava isso.
— Beni.
Baixei o celular.
Clara estava na minha frente.
Cabelo preso, mochila numa mão, cara de quem já tinha decidido que eu estava errado antes mesmo de começar a conversa.
— Oi.
— Você sumiu ontem.
— Eu tava na quadra.
— Existe internet na quadra.
Atrás dela, Igor abriu os braços como quem dizia eu avisei.
Mostrei o dedo do meio discretamente.
Clara riu.
— Tá rouco?
— Todo mundo resolveu fiscalizar minha garganta hoje?
— Nossa, que simpatia.
— Foi m*l.
Ela ficou me olhando por alguns segundos.
— Tá tudo bem?
Quase respondi no automático.
Aí lembrei do espelho.
Levei a mão ao pescoço sem perceber.
Clara acompanhou o movimento.
— O que foi aí?
Tirei a mão na mesma hora.
— Nada.
— Você acabou de…
— Espinha.
Ela estreitou os olhos.
— No pescoço?
— Lugar democrático.
Ela soltou uma risada.
Assunto encerrado.
Era exatamente o que eu queria.
Quando voltei pra casa, já passava das cinco.
Celina estava na sala vendo televisão.
— Chegou?
— Não, vó. É uma projeção astral minha.
— Engraçadinho.
Subi antes que ela inventasse alguma coisa pra eu fazer.
Entrei no banheiro.
Tranquei a porta.
Puxei a gola da camisa.
Olhei de novo.
Continuava lá.
Talvez do mesmo tamanho.
Talvez maior.
Era difícil saber depois que a gente começava a encanar com uma coisa.
Passei os dedos.
Aquilo era firme.
Não parecia espinha.
Peguei o celular.
Digitei:
caroço no pescoço adolescente
Fiquei olhando a tela.
Apaguei.
Não queria saber.
Digitei de novo:
íngua pescoço quanto tempo dura
Apareceu um monte de coisa.
Infecção.
Garganta.
Gripe.
Inflamação.
Ótimo.
Perfeito.
Fechei.
Cinco segundos depois abri de novo.
Rolei mais.
Nódulo.
Tireoide.
Ultrassom.
Médico.
Fechei na mesma hora.
— Para de ser i****a.
Minha voz me assustou.
Estava pior.
Pigarreei.
Tentei outra vez.
— Alô.
Ridículo.
Eu estava conversando com o espelho.
Passei a mão no pescoço.
— Amanhã você some.
Como se aquilo tivesse obrigação de me obedecer.
Talvez fosse coisa de família.
A gente crescia cercado por gente que acreditava que falar com firmeza mudava o mundo.
Saí do banheiro.
Celina estava no corredor com uma pilha de roupa dobrada nos braços.
— Tá falando sozinho agora?
— Sempre falei.
Ela parou.
— Sua voz tá estranha.
Meu corpo inteiro ficou atento.
Dei de ombros.
— Gritei ontem na quadra.
Ela me olhou.
Demorado.
Do jeito dela.
— Vem cá.
— Pra quê?
— Benício.
— Vó, eu tenho que…
— Tem que o quê?
Não tinha resposta.
Ela colocou as roupas em cima da cômoda e veio na minha direção.
Sem perceber, puxei a gola da camisa um pouco mais pra cima.
Foi um movimento pequeno.
Qualquer outra pessoa talvez nem reparasse.
Celina reparou.
Os olhos dela desceram pro meu pescoço.
Depois voltaram pro meu rosto.
— O que você tá escondendo aí?
Meu coração deu uma batida mais forte.
Sorri.
— Nada.
Ela estendeu a mão.
— Deixa eu ver.
— Vó…
— Benício.
Tentei rir.
— Deve ser uma íngua.
O rosto dela mudou só um pouco.
Tão pouco que, se eu não conhecesse minha avó, não teria percebido.
Mas conhecia.
— Desde quando?
— Hoje.
— Tá doendo?
— Não.
— Tá com febre?
— Não.
— Tá gripado?
— Também não.
Ela encostou os dedos com cuidado na lateral do meu pescoço.
Fiquei parado.
O jeito como ela tocou fez aquilo parecer maior.
Mais real.
Celina apertou os lábios.
— Amanhã a gente vai ver isso.
— Pra quê? Vai sumir.
Ela me encarou.
— Pode sumir.
— Então pronto.
— E pode não sumir.
Revirei os olhos.
— Vó, sério.
— Sério sou eu.
Ela passou a mão pelo meu cabelo.
— Não custa olhar.
Eu devia ter insistido.
Devia ter feito piada.
Devia ter dito que ela estava exagerando.
Mas alguma coisa no jeito dela falar me fez ficar quieto.
Olhei pro espelho da cômoda.
Meu pescoço parecia normal.
Quase.
— Vai ser nada — falei.
Celina segurou meu rosto por um segundo.
— Tomara.
Naquele momento, eu ainda acreditava que era só isso.
Um negócio pequeno no pescoço.
Uma voz rouca.
Uma consulta que minha avó estava inventando porque avó sempre acha que neto vai morrer de qualquer coisa.
Eu não fazia ideia de que algumas histórias começam assim.
Sem sirene.
Sem sangue.
Sem ninguém correndo.
Só com uma manhã atrasada, um espelho e alguma coisa pequena demais pra parecer capaz de mudar tudo.