Eu achei que descobrir o nome da doença ia acabar com a espera.
Não acabou.
Só mudou o tipo de coisa que a gente esperava.
No carro, ninguém falava.
Minha avó sentou atrás comigo, embora eu tivesse dito que não precisava. Meu pai dirigia como se estivesse segurando o volante com força demais pra não segurar outra coisa.
Carolina foi no carro dela.
Antes de sairmos da clínica, ela tinha ficado com os números dos protocolos, o pedido dos exames e o relatório da doutora Helena.
Eu fiquei com uma palavra.
Câncer.
Agora era minha.
Não uma possibilidade.
Não uma pesquisa no Google.
Não uma palavra que os adultos tentavam contornar.
Minha.
— Beni — minha avó chamou.
— Hum?
— Quer parar em algum lugar? Comer alguma coisa?
— Não tô com fome.
Meu pai olhou pelo retrovisor.
— Você não almoçou direito.
— Pai.
Ele voltou os olhos pra rua.
— Tá.
Foi uma resposta simples.
Mesmo assim, eu percebi o esforço.
Talvez, se fosse uma semana antes, ele já estivesse escolhendo restaurante, pedindo comida, mandando alguém trazer qualquer coisa que eu gostasse.
Agora ele só disse “tá”.
Eu devia estar feliz pela evolução.
Não estava feliz com nada.
Encostei a cabeça no vidro.
As pessoas passavam na calçada.
Um cara carregava sacola de mercado.
Uma mulher brigava com uma criança porque ela não queria dar a mão.
Dois meninos riam em cima de uma bicicleta.
O mundo continuava ofensivamente normal.
Eu tinha câncer.
E um ônibus tinha acabado de fechar nosso carro como se aquilo fosse relevante.
— Filho — minha avó falou de novo.
— Vó, eu tô bem.
Ela não respondeu.
Eu olhei pra ela.
Os olhos ainda estavam inchados.
— Quer dizer… não tô bem. Mas não precisa ficar me olhando assim.
— Assim como?
— Como se eu fosse sumir.
Meu pai apertou o volante.
Celina passou a mão no meu cabelo.
— Desculpa.
— Não precisa pedir desculpa.
Eu já estava cansado de todo mundo pedindo desculpa por sentir alguma coisa perto de mim.
⸻
Em casa, subi direto pro quarto.
Tranquei a porta.
Não porque quisesse ficar sozinho para sempre.
Só precisava de dez minutos em que ninguém perguntasse nada.
Sentei na cama.
Peguei o celular.
Tinha vinte e três mensagens.
Igor.
Malu.
Nico.
Clara.
A maioria ainda não sabia.
Clara sabia que eu tinha ido falar com a médica, mas eu não tinha contado o resultado.
Abri a conversa dela.
“saiu”
Ela respondeu quase na mesma hora.
“quer me ligar?”
Fiquei olhando.
Depois escrevi:
“é câncer”
Apareceram os três pontinhos.
Sumiram.
Voltaram.
Sumiram de novo.
Por fim:
“tô aqui”
Foi só isso.
E eu comecei a chorar.
Não bonito.
Não silencioso.
Chorei com raiva.
Com a mão na boca porque eu não queria que meu pai escutasse do corredor.
O pior era que eu nem sabia exatamente pelo que estava chorando.
Pela palavra.
Pela cirurgia.
Pela cicatriz que eu ainda nem tinha.
Pela possibilidade de a minha voz mudar.
Por ter dezesseis anos e precisar saber o que era carcinoma medular da tireoide.
Meu celular tocou.
Clara.
Atendi sem falar.
Ela também não falou de imediato.
— Beni?
— É.
Minha voz saiu horrível.
— Quer que eu vá aí?
— Não.
— Tá.
— Não fala “vai ficar tudo bem”.
— Não ia falar.
Fechei os olhos.
— Eu tenho câncer, Clara.
Dizer pra ela tornou tudo mais real de novo.
— Eu sei.
— Não. Agora eu tenho mesmo.
— Eu sei.
— Eu não sei o que acontece agora.
— Então você não precisa saber tudo hoje.
Respirei pelo nariz.
— Você combinou frases com a Carolina?
— Talvez eu tenha um grupo secreto com ela.
Eu ri no meio do choro.
Foi ridículo.
Mas funcionou.
⸻
Quando desci, quase uma hora depois, meu pai estava na sala com Carolina.
Ela tinha o notebook aberto.
Minha avó estava na cozinha rezando baixo.
— O que aconteceu? — perguntei.
Meu pai levantou na mesma hora.
— Nada.
Olhei pra Carolina.
— Quando ele fala “nada”, normalmente é alguma coisa.
Ela fechou parcialmente o computador.
— O plano respondeu ao pedido de um dos exames.
— E?
Ela fez uma pausa curta.
— Negou.
Meu pai começou a andar.
— Eu falei que eles estavam enrolando.
— Vicente — Carolina avisou.
— Não. Agora negaram.
Eu fiquei parado.
— Por quê?
Ela virou a tela na minha direção.
— Alegaram que o exame solicitado não atende aos critérios internos de cobertura apresentados no pedido.
— Mas a médica pediu.
— Pediu.
— Por causa do câncer.
— Sim.
— Então como eles podem negar?
Ninguém respondeu rápido.
A raiva veio antes do medo.
— Eles querem o quê? Que eu espere piorar?
— Não — Carolina respondeu. — E é exatamente isso que eu vou questionar.
Meu pai pegou o telefone.
— Não vai questionar. A gente paga.
— Pai.
— Você vai fazer o exame.
— Eu sei.
— Hoje, se tiver lugar.
Carolina fechou o notebook.
— E o pedido ao plano continua.
Meu pai virou pra ela.
— Pra quê? Eu acabei de falar que pago.
— Porque não é só esse exame.
Silêncio.
— O tratamento pode envolver cirurgia, internação, equipe, outros exames e acompanhamento. Pagar uma etapa particular não significa desistir da cobertura contratada.
Meu pai passou a mão pelo rosto.
— Eu não vou esperar discussão jurídica com câncer dentro do meu filho.
— E ninguém está propondo isso.
A voz dela continuou calma.
— Se vocês optarem por fazer particular pra não atrasar a investigação, façam. Paralelamente, eu reúno a documentação, peço reconsideração e avalio a medida adequada se a negativa permanecer.
— Quanto tempo?
— Já pedi o relatório completo da Helena. Quero a justificativa médica da necessidade e da urgência clínica real.
— Real?
Meu pai se irritou.
— Meu filho tem câncer.
— E justamente por isso eu não preciso inventar nada. O caso já é sério.
Ele ficou quieto.
Eu olhei pros dois.
— Posso falar?
Os dois viraram pra mim.
— Seria inovador — falei.
Carolina quase sorriu.
— Eu quero fazer o exame o mais rápido possível.
Meu pai assentiu imediatamente.
— Vai fazer.
— Mas eu também quero que ela resolva com o plano.
Vicente franziu a testa.
— Pra quê?
— Porque eu quero.
Ele abriu a boca.
Fechou.
— Tá.
Carolina me olhou.
— Então é isso que vamos fazer.
— E eu preciso fazer alguma coisa?
— Agora? Não.
— Assinar alguma coisa?
— Talvez depois. Como você é menor, seu pai participa dos atos formais, mas eu vou continuar explicando tudo pra você.
Assenti.
Meu pai ficou olhando pra mim.
— O quê?
— Nada.
— Fala.
— Você tá mandando mais do que eu.
— Não tô mandando. Tô escolhendo sobre mim.
A sala ficou silenciosa.
Ele respirou fundo.
— É.
Pela cara dele, eu sabia que aquilo ainda era difícil.
Mas também sabia que tinha entendido.
⸻
Mais tarde, Carolina foi embora levando cópias de tudo.
Meu pai conseguiu agendar o exame particular para a manhã seguinte.
Eu não perguntei quanto custava.
Pela primeira vez, dinheiro não era a parte que me assustava.
Antes de subir, ouvi Vicente falando com alguém no telefone.
— Não quero saber o preço. Quero o primeiro horário.
Parei no pé da escada.
Uma semana atrás, aquilo teria me irritado.
Naquela noite, não.
Porque agora eu entendia que meu pai também precisava fazer alguma coisa para não enlouquecer.
Só não podia fazer tudo.
Subi.
Na tela do celular, o grupo dos meus amigos tinha mais de cinquenta mensagens.
Ainda não tinha contado pra eles.
Abri.
Digitei:
“preciso falar uma coisa amanhã”
Igor respondeu primeiro.
“engravidou a clara?”
Malu:
“IGOR SEU i*****l”
Eu ri.
De verdade.
E foi estranho perceber que eu conseguia rir no mesmo dia em que descobri que tinha câncer.
Talvez fosse assim dali pra frente.
A doença dentro da vida.
Não a vida inteira dentro da doença.