Benício não falou quase nada no caminho.
Eu também não.
Normalmente, o silêncio dele me incomodava porque eu queria saber o que estava passando na cabeça dele.
Naquele dia, eu tinha medo de descobrir.
Quando estacionamos em frente à clínica, ele não abriu a porta.
Ficou olhando pro painel.
— Quer esperar um pouco?
— A consulta é agora.
— Eu sei.
— Então vamos.
Mas continuou sentado.
Desliguei o carro.
— Beni.
Ele virou o rosto.
— Se ela falar que é câncer, o que acontece depois?
Era a pergunta que eu vinha evitando desde que li sobre calcitonina no celular.
— A gente pergunta.
— Pergunta o quê?
— Tudo.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Grande estratégia.
— É a única que eu tenho hoje.
Isso pareceu convencê-lo mais do que qualquer promessa.
Saímos.
⸻
Minha mãe já estava na recepção.
E Carolina também.
Parei quando vi.
— Você veio.
Ela levantou os olhos do celular.
— Benício pediu.
Meu filho passou por mim.
— Eu convidei.
— Eu não falei nada.
— Sua cara falou.
Carolina sorriu de lado.
— Continua com esse problema.
Antes que eu respondesse, Helena apareceu na porta.
— Benício?
Entramos os quatro.
A médica olhou pra Carolina.
— Você é?
— Advogada da família. Mas estou aqui porque o Benício pediu. Se você preferir que eu espere lá fora…
— Pode ficar — ele interrompeu.
Helena olhou pra ele.
— Tudo bem pra você?
— Sim.
Aquilo parecia pequeno.
Não era.
A médica esperava a resposta dele.
Não a minha.
Sentei e fiquei calado.
⸻
Helena colocou os exames na tela.
— Eu quero conversar com vocês de forma muito clara, mas também sem transformar suspeita em confirmação antes da hora.
Benício cruzou os braços.
— Tá.
— A sua calcitonina veio bastante elevada. O CEA também está acima do valor de referência. Quando eu junto isso às características do nódulo e ao material parcial da punção, aumenta bastante a preocupação com um tipo específico de tumor da tireoide chamado carcinoma medular.
Meu corpo inteiro endureceu.
Benício perguntou antes de mim:
— É câncer?
Helena respirou.
— Sim. Carcinoma medular é um câncer da tireoide. Mas eu quero separar duas coisas: eu estou dizendo que os achados aumentaram muito a suspeita. O fechamento diagnóstico ainda depende da complementação que o patologista está fazendo.
Minha mãe começou a chorar em silêncio.
Benício não.
Só ficou parado.
— Então existe uma chance grande de ser isso.
— Existe uma preocupação importante, sim.
Ele olhou pra mesa.
— Importante é jeito de médico falar “grande”?
Helena não fugiu.
— Neste caso, sim.
Fechei os olhos.
Uma parte de mim ainda esperava ouvir que o exame estava errado.
Que aquela palavra não pertencia ao meu filho.
Mas ela estava ali.
Carcinoma.
Dentro de uma sala branca.
Ao lado do nome dele.
— E se confirmar? — perguntei.
Helena virou pra mim.
— O tratamento principal costuma envolver cirurgia. Mas antes de falar de extensão de cirurgia, precisamos completar a avaliação.
— Quando?
— Vamos organizar os exames necessários com agilidade.
— Hoje?
Carolina tocou meu braço.
Só uma vez.
Nem precisou falar.
Respirei.
Helena continuou:
— Quero uma avaliação detalhada do pescoço, principalmente dos linfonodos. Dependendo dos achados e da confirmação, outros exames podem ser necessários. Depois disso, discutimos a conduta.
— Tem cura? — Benício perguntou.
A sala inteira parou.
Helena aproximou um pouco a cadeira.
— Existem pacientes tratados com boa evolução, principalmente quando a doença está localizada e pode ser removida cirurgicamente. Mas eu não seria responsável se prometesse cura sem saber extensão, confirmação e características do seu caso.
Meu filho assentiu devagar.
— Então ainda falta saber se espalhou.
Minha mãe soltou um soluço.
— Vó.
Ela limpou o rosto.
— Desculpa.
— Não pede desculpa.
Benício estendeu a mão.
Ela segurou.
Eu assisti aos dois e senti uma coisa que não sabia nomear.
Talvez impotência.
Talvez culpa.
— Tem alguma coisa que causou isso? — perguntei. — Alguma coisa que ele fez? Alimentação? Algum remédio? Alguma coisa que…
— Não — Helena interrompeu com calma. — Não coloquem culpa no Benício.
— Não tô colocando nele.
— Nem em você.
A frase me pegou.
— Alguns casos desse tipo de tumor podem ter relação hereditária. Muitos outros aparecem sem uma síndrome familiar identificada. Se a suspeita se confirmar, avaliação genética pode fazer parte da investigação.
Olhei pra Benício.
— Hereditária?
— Pai.
— Eu posso ter passado isso pra ele?
Helena sustentou meu olhar.
— Neste momento, nós não sabemos sequer se há componente hereditário. Não transforme uma possibilidade futura em culpa presente.
Carolina não falou nada.
Mas eu sabia que tinha ouvido.
E pior: sabia que repetiria aquilo se eu começasse a me torturar depois.
Benício me encarou.
— Eu não vou ficar com raiva de você por causa de DNA.
— Eu não falei que…
— Sua cara.
Baixei os olhos.
Até naquela hora ele ainda conseguia fazer aquilo.
Me desmontar com uma frase.
⸻
Helena explicou os próximos pedidos com cuidado.
Benício fez mais perguntas do que eu esperava.
Se poderia continuar indo à escola.
Se cirurgia deixava cicatriz.
Se perderia a voz.
Se precisaria faltar muito.
Perguntas de alguém com dezesseis anos.
Não de um caso clínico.
Quando ele perguntou sobre a cicatriz, meu peito apertou.
— Dependendo da cirurgia, haverá uma cicatriz no pescoço — Helena respondeu. — Mas vamos conversar sobre isso com detalhes quando tivermos toda a informação.
Benício tocou o local do nódulo.
— Vai ficar muito feio?
Minha mãe chorou de novo.
Dessa vez, Carolina respondeu antes de qualquer adulto tentar dizer que cicatriz não importava.
— Se isso te preocupa, importa.
Benício olhou pra ela.
— Todo mundo ia falar que o importante é ficar vivo.
— E é. Mas você continua tendo direito de se preocupar com seu corpo.
Ele assentiu.
Eu não tinha pensado nisso.
Pra mim, bastava tirarem o que fosse preciso.
Abrir.
Cortar.
Fazer qualquer coisa.
Desde que ele ficasse vivo.
Mas o corpo era dele.
Mais uma coisa que eu precisava aprender.
⸻
Na saída, Benício pediu pra ir ao banheiro.
Minha mãe foi comprar água.
Fiquei no corredor com Carolina.
— Fala.
— O quê?
— Você tá com essa cara.
— Que cara?
— A cara de advogada que tá pensando.
Ela cruzou os braços.
— Agora não tem questão jurídica.
— Ainda.
— Ainda.
Olhei para a porta por onde Benício tinha desaparecido.
— Se confirmar e o plano negar alguma coisa…
— A gente age.
— Quanto rápido?
— Tão rápido quanto os documentos e a situação permitirem.
— Carolina…
— Eu sei.
— Não. Você não sabe.
Minha voz baixou.
— Aquele é meu filho.
Ela não recuou.
— E é justamente por isso que eu não vou te vender promessa.
Fiquei encarando.
— Eu vou fazer tudo que estiver juridicamente ao meu alcance. Mas médico decide medicina. Operadora responde pelo que deve cobrir. E, se precisarmos do Judiciário, juiz decide processo.
— E eu?
Ela olhou na direção do banheiro.
— Você é o pai.
Era como se fosse pouco.
Só que já não parecia.
Benício voltou.
Olhos vermelhos.
Não perguntei se tinha chorado.
Ele também não fingiu que não.
Parou na nossa frente.
— Eu quero ir pra casa.
— Vamos.
Descemos juntos.
No estacionamento, meu telefone vibrou várias vezes.
MT.
Kadu.
Jonas.
Não abri nenhuma.
Benício entrou no carro.
Dessa vez eu não estava escolhendo entre o morro e meu filho.
Pela primeira vez, parecia evidente demais pra existir escolha.
O morro tinha passado anos me chamando de Nero.
Naquela tarde, eu só conseguia ouvir uma palavra.
Pai.