15. Vicente

1285 Words
Benício não falou quase nada no caminho. Eu também não. Normalmente, o silêncio dele me incomodava porque eu queria saber o que estava passando na cabeça dele. Naquele dia, eu tinha medo de descobrir. Quando estacionamos em frente à clínica, ele não abriu a porta. Ficou olhando pro painel. — Quer esperar um pouco? — A consulta é agora. — Eu sei. — Então vamos. Mas continuou sentado. Desliguei o carro. — Beni. Ele virou o rosto. — Se ela falar que é câncer, o que acontece depois? Era a pergunta que eu vinha evitando desde que li sobre calcitonina no celular. — A gente pergunta. — Pergunta o quê? — Tudo. Ele soltou uma risada sem humor. — Grande estratégia. — É a única que eu tenho hoje. Isso pareceu convencê-lo mais do que qualquer promessa. Saímos. ⸻ Minha mãe já estava na recepção. E Carolina também. Parei quando vi. — Você veio. Ela levantou os olhos do celular. — Benício pediu. Meu filho passou por mim. — Eu convidei. — Eu não falei nada. — Sua cara falou. Carolina sorriu de lado. — Continua com esse problema. Antes que eu respondesse, Helena apareceu na porta. — Benício? Entramos os quatro. A médica olhou pra Carolina. — Você é? — Advogada da família. Mas estou aqui porque o Benício pediu. Se você preferir que eu espere lá fora… — Pode ficar — ele interrompeu. Helena olhou pra ele. — Tudo bem pra você? — Sim. Aquilo parecia pequeno. Não era. A médica esperava a resposta dele. Não a minha. Sentei e fiquei calado. ⸻ Helena colocou os exames na tela. — Eu quero conversar com vocês de forma muito clara, mas também sem transformar suspeita em confirmação antes da hora. Benício cruzou os braços. — Tá. — A sua calcitonina veio bastante elevada. O CEA também está acima do valor de referência. Quando eu junto isso às características do nódulo e ao material parcial da punção, aumenta bastante a preocupação com um tipo específico de tumor da tireoide chamado carcinoma medular. Meu corpo inteiro endureceu. Benício perguntou antes de mim: — É câncer? Helena respirou. — Sim. Carcinoma medular é um câncer da tireoide. Mas eu quero separar duas coisas: eu estou dizendo que os achados aumentaram muito a suspeita. O fechamento diagnóstico ainda depende da complementação que o patologista está fazendo. Minha mãe começou a chorar em silêncio. Benício não. Só ficou parado. — Então existe uma chance grande de ser isso. — Existe uma preocupação importante, sim. Ele olhou pra mesa. — Importante é jeito de médico falar “grande”? Helena não fugiu. — Neste caso, sim. Fechei os olhos. Uma parte de mim ainda esperava ouvir que o exame estava errado. Que aquela palavra não pertencia ao meu filho. Mas ela estava ali. Carcinoma. Dentro de uma sala branca. Ao lado do nome dele. — E se confirmar? — perguntei. Helena virou pra mim. — O tratamento principal costuma envolver cirurgia. Mas antes de falar de extensão de cirurgia, precisamos completar a avaliação. — Quando? — Vamos organizar os exames necessários com agilidade. — Hoje? Carolina tocou meu braço. Só uma vez. Nem precisou falar. Respirei. Helena continuou: — Quero uma avaliação detalhada do pescoço, principalmente dos linfonodos. Dependendo dos achados e da confirmação, outros exames podem ser necessários. Depois disso, discutimos a conduta. — Tem cura? — Benício perguntou. A sala inteira parou. Helena aproximou um pouco a cadeira. — Existem pacientes tratados com boa evolução, principalmente quando a doença está localizada e pode ser removida cirurgicamente. Mas eu não seria responsável se prometesse cura sem saber extensão, confirmação e características do seu caso. Meu filho assentiu devagar. — Então ainda falta saber se espalhou. Minha mãe soltou um soluço. — Vó. Ela limpou o rosto. — Desculpa. — Não pede desculpa. Benício estendeu a mão. Ela segurou. Eu assisti aos dois e senti uma coisa que não sabia nomear. Talvez impotência. Talvez culpa. — Tem alguma coisa que causou isso? — perguntei. — Alguma coisa que ele fez? Alimentação? Algum remédio? Alguma coisa que… — Não — Helena interrompeu com calma. — Não coloquem culpa no Benício. — Não tô colocando nele. — Nem em você. A frase me pegou. — Alguns casos desse tipo de tumor podem ter relação hereditária. Muitos outros aparecem sem uma síndrome familiar identificada. Se a suspeita se confirmar, avaliação genética pode fazer parte da investigação. Olhei pra Benício. — Hereditária? — Pai. — Eu posso ter passado isso pra ele? Helena sustentou meu olhar. — Neste momento, nós não sabemos sequer se há componente hereditário. Não transforme uma possibilidade futura em culpa presente. Carolina não falou nada. Mas eu sabia que tinha ouvido. E pior: sabia que repetiria aquilo se eu começasse a me torturar depois. Benício me encarou. — Eu não vou ficar com raiva de você por causa de DNA. — Eu não falei que… — Sua cara. Baixei os olhos. Até naquela hora ele ainda conseguia fazer aquilo. Me desmontar com uma frase. ⸻ Helena explicou os próximos pedidos com cuidado. Benício fez mais perguntas do que eu esperava. Se poderia continuar indo à escola. Se cirurgia deixava cicatriz. Se perderia a voz. Se precisaria faltar muito. Perguntas de alguém com dezesseis anos. Não de um caso clínico. Quando ele perguntou sobre a cicatriz, meu peito apertou. — Dependendo da cirurgia, haverá uma cicatriz no pescoço — Helena respondeu. — Mas vamos conversar sobre isso com detalhes quando tivermos toda a informação. Benício tocou o local do nódulo. — Vai ficar muito feio? Minha mãe chorou de novo. Dessa vez, Carolina respondeu antes de qualquer adulto tentar dizer que cicatriz não importava. — Se isso te preocupa, importa. Benício olhou pra ela. — Todo mundo ia falar que o importante é ficar vivo. — E é. Mas você continua tendo direito de se preocupar com seu corpo. Ele assentiu. Eu não tinha pensado nisso. Pra mim, bastava tirarem o que fosse preciso. Abrir. Cortar. Fazer qualquer coisa. Desde que ele ficasse vivo. Mas o corpo era dele. Mais uma coisa que eu precisava aprender. ⸻ Na saída, Benício pediu pra ir ao banheiro. Minha mãe foi comprar água. Fiquei no corredor com Carolina. — Fala. — O quê? — Você tá com essa cara. — Que cara? — A cara de advogada que tá pensando. Ela cruzou os braços. — Agora não tem questão jurídica. — Ainda. — Ainda. Olhei para a porta por onde Benício tinha desaparecido. — Se confirmar e o plano negar alguma coisa… — A gente age. — Quanto rápido? — Tão rápido quanto os documentos e a situação permitirem. — Carolina… — Eu sei. — Não. Você não sabe. Minha voz baixou. — Aquele é meu filho. Ela não recuou. — E é justamente por isso que eu não vou te vender promessa. Fiquei encarando. — Eu vou fazer tudo que estiver juridicamente ao meu alcance. Mas médico decide medicina. Operadora responde pelo que deve cobrir. E, se precisarmos do Judiciário, juiz decide processo. — E eu? Ela olhou na direção do banheiro. — Você é o pai. Era como se fosse pouco. Só que já não parecia. Benício voltou. Olhos vermelhos. Não perguntei se tinha chorado. Ele também não fingiu que não. Parou na nossa frente. — Eu quero ir pra casa. — Vamos. Descemos juntos. No estacionamento, meu telefone vibrou várias vezes. MT. Kadu. Jonas. Não abri nenhuma. Benício entrou no carro. Dessa vez eu não estava escolhendo entre o morro e meu filho. Pela primeira vez, parecia evidente demais pra existir escolha. O morro tinha passado anos me chamando de Nero. Naquela tarde, eu só conseguia ouvir uma palavra. Pai.
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