Eu saí do escritório da Carolina com uma cópia da procuração na mão e a sensação de que tinha feito alguma coisa sem fazer nada.
Era uma sensação r**m.
Na minha vida, quando eu tomava uma decisão, alguém se mexia.
Carro saía.
Telefone tocava.
Porta abria.
Problema começava a andar.
No escritório dela, eu tinha assinado papel, entregue documento, ouvido explicação e ido embora.
Agora dependia de protocolo.
De distribuição.
De alguém que eu não conhecia.
De um juiz que provavelmente nunca tinha ouvido falar de mim.
Talvez fosse essa a parte que mais me incomodava.
Eu não significava nada ali.
No morro, meu nome chegava antes de mim.
Na Justiça, eu era só o pai de Benício Azevedo.
E, pela primeira vez, isso não pareceu pouco.
Meu telefone vibrou quando eu ainda estava dentro do carro.
MT.
“Preciso que venha.”
Fechei os olhos.
Depois de duas ligações ignoradas, uma conversa adiada e Kadu pressionando sobre a Baixa, eu sabia que não dava para empurrar aquilo por muito mais tempo.
Liguei.
— Onde vocês estão?
— No lugar de sempre.
— Tô indo.
Antes de arrancar, mandei mensagem para minha mãe.
“Como ele tá?”
Ela respondeu:
“Comendo.”
Só isso.
Sorri.
Naquela semana, “comendo” tinha virado informação importante.
⸻
MT estava encostado na mesa quando eu entrei.
Kadu andava de um lado pro outro.
DN estava sentado mais ao fundo, calado.
— Finalmente — Kadu falou.
Olhei pra ele.
— Quer começar de novo?
Ele parou.
— Não. Só tô dizendo que a gente precisava de você aqui.
— E eu vim.
MT me entregou o resumo do problema.
Território.
Entrega atrasada.
Gente da Baixa testando limite.
Um dos meninos tinha respondido mais alto do que devia.
Nada ainda irreversível.
Em outro momento, eu teria passado uma hora discutindo cada detalhe.
Naquele dia, minha cabeça estava em uma sala de escritório, num laudo e numa negativa de plano.
— Ninguém faz movimento hoje — falei.
Kadu franziu a testa.
— Eles vão achar que a gente tá recuando.
— E?
Ele me olhou como se eu tivesse falado outra língua.
— E que isso vira fraqueza.
— Não confunde silêncio com fraqueza.
— Tô só dizendo que enquanto você tá fora…
A sala ficou quieta.
MT levantou os olhos para ele.
Kadu percebeu tarde demais.
— Enquanto eu tô fora o quê?
— Nada.
— Termina.
Ele respirou.
— O pessoal percebe.
— Percebe o quê?
— Que você não tá aqui como antes.
Aquilo era verdade.
E talvez por isso irritasse tanto.
— Meu filho tá doente.
— Eu sei.
— Então escolhe bem o que você vai falar agora.
DN finalmente se mexeu.
— Chega.
Olhei pra ele.
— Ele não tá errado numa parte — disse DN. — O morro percebe sua ausência. Mas isso não significa que você tem que escolher esse lugar agora.
Kadu abriu a boca.
DN cortou:
— E você também não vai usar doença de filho pra testar espaço.
Silêncio.
MT assentiu.
Eu olhei para Kadu.
— Se eu precisar ficar um mês no hospital, você trabalha. Se eu precisar ficar três, você trabalha. Quem confundir minha ausência com autorização pra criar problema vai ter problema comigo quando eu voltar.
Kadu baixou o olhar.
— Entendi.
Meu telefone vibrou.
Todo mundo olhou.
Carolina.
Abri.
“Petição protocolada. Processo distribuído. Pedido de tutela apresentado com a documentação médica. Agora aguardamos análise.”
Li duas vezes.
MT percebeu minha cara.
— É sobre o Beni?
— A advogada entrou com a ação.
DN se levantou.
— Deu certo?
— Ainda não decidiram.
Kadu perguntou:
— E demora quanto?
Eu ri sem humor.
— Se eu soubesse.
Guardei o telefone.
— MT, segura isso aqui. Sem provocação. Sem resposta desnecessária. Se a Baixa quiser conversar, conversa. Eu não quero barulho.
Ele assentiu.
— Pode deixar.
Saí antes que alguém dissesse mais alguma coisa.
⸻
Quando cheguei em casa, Benício estava no sofá com um prato no colo e a televisão ligada.
Minha mãe estava ao lado.
— Achei que você estivesse comendo — falei.
Ele levantou o garfo.
— E tô.
— Isso é jantar?
— É pizza.
— Isso não é jantar.
Celina me olhou.
— Deixa o menino.
Benício apontou para ela.
— Finalmente alguém sensato.
Sentei na poltrona.
— A Carolina protocolou.
Ele ficou sério.
— A ação?
— É.
— E agora?
A mesma pergunta.
Sempre.
E agora?
— Agora o juiz analisa.
— Hoje?
— Pode ser hoje. Pode não ser.
— E se negar?
Minha mãe fez o sinal da cruz.
— Beni.
— Ué, eu quero saber.
Olhei para ele.
— A gente vê com a Carolina o que cabe fazer.
— E se autorizar?
— O plano tem que cumprir a decisão.
— Tem que mesmo?
— É o que ela explicou.
Ele voltou a mexer na pizza.
— Muito doido.
— O quê?
— Você esperando alguém mandar outra pessoa fazer alguma coisa.
Minha mãe começou a rir.
— Não incentiva — falei.
Benício sorriu.
— Tô só observando.
Meu celular vibrou de novo.
Dessa vez era Helena.
Mensagem curta.
“Resultado do exame de imagem disponível. Preciso rever Benício amanhã pela manhã. Há achado cervical que precisa ser discutido com vocês.”
O barulho da televisão desapareceu.
Não porque tivesse desligado.
Porque eu parei de ouvir.
— Pai?
Levantei os olhos.
Benício estava me olhando.
— O que foi?
Eu tinha prometido.
Nada escondido.
Nem quando fosse r**m.
— A doutora Helena mandou mensagem.
Ele colocou o prato na mesa.
— E?
Sentei mais perto.
— Saiu o exame.
— Ela falou o que deu?
— Disse que apareceu um achado no pescoço que precisa ser discutido amanhã.
Ele ficou parado.
— Achado é o quê?
— Não explicou.
— Linfonodo?
Aquilo me pegou.
— Como você sabe?
— Eu pesquisei antes.
Minha mãe fechou os olhos.
— Benício…
— Eu sei, vó.
Ele olhou para mim.
— Pode ser que tenha ido pros gânglios?
— Eu não sei.
— Pai.
— Eu não sei mesmo.
Ele passou as duas mãos pelo rosto.
— Caraca.
Sentei ao lado dele.
— Amanhã a gente pergunta tudo.
— E se tiver espalhado?
Meu peito apertou.
— A gente pergunta o que isso muda no tratamento.
— Você tá ficando muito Carolina.
— Isso foi uma ofensa.
Ele riu sem vontade.
Depois encostou a cabeça no sofá.
Ficamos em silêncio.
Minha mãe segurou a mão dele.
Eu fiquei do outro lado.
Três pessoas esperando uma manhã chegar.
Às dez e quarenta e seis da noite, o celular vibrou outra vez.
Carolina.
Meu coração disparou.
Abri.
Não era decisão.
“Sem análise até agora. Pode sair a qualquer momento ou ficar para amanhã. Não vire a noite atualizando o processo.”
Olhei para Benício.
— O juiz?
— Ainda nada.
Ele assentiu.
— Então dorme.
— Você mandando eu dormir?
— Agora eu que tô aprendendo.
Sorri.
Mas quando subi para o quarto, levei o celular comigo.
Não atualizei o processo.
Pelo menos não nos primeiros cinco minutos.
Naquela noite, havia duas respostas que eu queria e nenhuma dependia de mim.
Uma estava num gabinete.
A outra, no consultório de uma médica.
E eu começava a entender que perder o controle não acontecia de uma vez.
Acontecia toda vez que alguém dizia:
— Amanhã a gente sabe mais.