Capítulo 24

493 Words
Felipe caminhava ao lado do marido da tia de Olívia, enquanto Roberta explicava cada parte da fazenda com um orgulho cansado. A paisagem era bonita… mas havia algo fora do lugar. O curral precisava de reparo. Algumas cercas estavam antigas demais. O galpão de armazenamento tinha sinais claros de desgaste. E o movimento de trabalhadores… era mínimo para o tamanho da propriedade. Roberta falava sobre rotina, produção, criação de animais. Mas evitava detalhes mais profundos. E isso, para Felipe, era justamente o detalhe mais importante. Ele não dizia nada. Só observava. — Aqui a gente cria o gado e vende parte da produção pra manter as despesas — comentou o marido da tia, tentando soar simples. — Entendi — Felipe respondeu, neutro. Mas o olhar dele já tinha mudado. Ele passou a mão de leve na cerca de madeira. — Isso aqui já foi reformado há quanto tempo? O homem hesitou. — Ah… faz um tempo. Roberta entrou rápido na conversa: — A gente vai melhorando aos poucos, sabe como é. Felipe assentiu devagar. Mas não parecia convencido. Eles seguiram andando. E a cada novo ponto da fazenda que ele observava, a mesma sensação crescia. Não era apenas “desgaste”. Era algo mais profundo. Fluxo fraco. Manutenção atrasada. Estrutura sustentando mais memória do que investimento. E pior: dependência. Ele parou por um segundo perto do galpão. Olhou ao redor com calma. O marido da tia percebeu. — Algum problema? Felipe sorriu leve. — Não. Só observando. Mas por dentro, ele já tinha entendido. Aquilo não estava só “precisando de melhorias”. Estava… sustentado no limite. Roberta tentou quebrar o clima: — A Olívia sempre foi muito ligada a isso aqui. Ela fala que quer recuperar tudo um dia. Felipe olhou na direção da casa principal. — Ela vai conseguir. A frase saiu simples. Mas carregava algo diferente. Roberta sorriu. — Você acredita nela. Felipe respondeu sem pensar muito: — Eu vejo capacidade nela. Silêncio curto. O marido da tia apenas assentiu. Mas Felipe já não estava só acompanhando o passeio. Ele estava calculando. Comparando mentalmente custos, estruturas, fluxo, potencial de retorno. Coisa automática. De quem já tinha visto negócios ruírem… e crescerem. E ali, no meio daquela fazenda… ele viu algo perigoso. Não fraqueza. Potencial subestimado. E também um risco grande demais para ser ignorado. 🌾 Mais tarde Quando ficaram sozinhos por alguns minutos, Roberta comentou, mais baixa: — Você percebeu, não foi? Felipe olhou de canto. Não respondeu de imediato. — Depende do que você quer dizer — ele falou por fim. Ela suspirou. — A gente não fala muito sobre isso pra não preocupar a Olívia. Ele entendeu na hora. Mas manteve a postura. — Ela não sabe? Roberta negou com a cabeça. — Não. Silêncio. Felipe voltou a olhar a fazenda. Agora com outro peso. Outro tipo de preocupação. E outro tipo de pensamento também… Ela não via aquilo. Mas ele via. E isso mudava tudo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD