Capítulo 19

946 Words
O campo aberto parecia não ter fim. O vento passava leve, o som dos cascos dos cavalos marcando um ritmo calmo, quase hipnótico. Olívia ia à frente no Máximos, guiando com naturalidade, enquanto Felipe seguia logo ao lado, ainda se adaptando à sela e ao movimento. Ela soltou um sorriso pequeno. — Quem diria… um empresário montando cavalo. Felipe riu de leve. — Quem diria que eu ia sobreviver a isso. Ela olhou de canto, divertida. — Tá indo bem. Ele respondeu no mesmo tom: — Tô tentando não cair. Ela soltou uma risada baixa. — Isso já é um ótimo começo. O silêncio voltou por alguns instantes. Mas não era vazio. Era confortável. Quase íntimo. Olívia inclinou levemente o corpo na direção dele. — Isso aqui… é totalmente diferente de tudo na minha vida na cidade. Felipe olhou pra ela. — Eu tô percebendo. Ela sorriu. — Bom. Apontou à frente. — Ali na frente tem um lugar onde eu sempre gostei de ir. Vamos até lá. Eles seguiram devagar. Até que o cenário mudou. Uma pequena área mais afastada, com árvores, uma cabaninha antiga e sombra natural. Um refúgio dela. Olívia desceu primeiro, com facilidade, como alguém que fazia aquilo desde sempre. Amarrou o Máximos com cuidado. Depois segurou as rédeas do cavalo de Felipe, ajudando ele a descer com segurança. — Calma… vai com cuidado. — Eu tô tentando — ele respondeu rindo. Quando os dois cavalos estavam presos, eles caminharam até a grama. Olívia se jogou ali sem cerimônia. Felipe fez o mesmo, mais devagar. O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente. Ela esticou o braço e pegou uma maçã caída da árvore ao lado. Mordeu com calma. — Eu ficava muito aqui… quando era mais nova. Felipe a olhou. — Sozinha? Ela assentiu. — Ou discutindo com minhas primas. Ele riu. — Você parece alguém difícil de conviver. Ela virou o rosto pra ele. — Eu era. Fez uma pausa. — Elas sempre me fizeram me sentir meio… inferior. Felipe franziu a testa. Ela continuou, mais baixa: — Por eu ser filha única. Por não ser “igual” às outras. Olhou pro campo. — Então eu vinha pra cá. Ficava com o Máximos. Com o Hércules. Silêncio. — Acho que eles sentiram tudo isso também. Felipe ouviu em silêncio. — Por isso eles não deixam qualquer pessoa chegar perto. Ela deu de ombros. — Só eu… e meu pai. A voz dela baixou um pouco na última palavra. Felipe observou isso. E sem dizer nada, estendeu a mão. Olívia olhou. E aceitou. Os dedos deles se entrelaçaram com naturalidade. Sem pressa. Sem hesitação. Ela respirou fundo. — Posso te dizer uma coisa? — Pode — ele respondeu. Ela ficou alguns segundos olhando pra frente. — Por que você não fica mais tempo vindo pra cá? Ele sorriu de leve. — Você tá me convidando pra ficar mais? Ela deu de ombros, tentando disfarçar. — Talvez. Ele apertou levemente a mão dela. — Eu tô gostando daqui. Ela sorriu. — Que bom. Olhou ao redor. — Tem muita coisa pra refazer aqui, sabia? Felipe seguiu o olhar dela. — Dá pra ver. Ela suspirou. — A casa, os currais… tudo precisa de cuidado. Fez uma pausa. — Meu tio deixou isso aqui… meio abandonado. Olhou pra ele. — O que minha mãe consegue com as vendas só dá pra manter o básico. Silêncio. Ela continuou: — Eu tenho vontade de um dia juntar dinheiro suficiente no restaurante… pra reformar tudo isso. Deixar como era antes. A voz dela ficou mais firme. — Quando eu era pequena, isso aqui era outra vida. Funcionários, organização… era tudo bem cuidado. Felipe a observava com atenção. — Eu quero devolver isso pra minha família. Ela respirou fundo. — Deixar isso aqui no nível que sempre deveria ter sido. Felipe ficou alguns segundos em silêncio. E então falou, simples: — Podemos fazer isso juntos. Olívia virou o rosto rápido pra ele. — Como assim? Ele a olhou direto. — Juntos. Ela ficou sem reação por um instante. E então desviou o olhar. — Felipe… eu preciso te falar uma coisa. Ele esperou. Ela respirou fundo. — Você me disse que ia no restaurante porque gostava da comida. Ele assentiu. — Mas não era só isso. Olívia o encarou. Ele continuou: — Eu ia lá porque eu gostava de você. Silêncio. O vento passou mais forte entre as árvores. Ela piscou. — O quê? Ele deu um leve sorriso. — Eu já te observava antes disso tudo. Ela ficou quieta. Felipe respirou fundo. — Só que você nunca me via. Nunca tinha tempo. Nunca olhava pra esse lado. Olívia desviou o olhar. — Felipe… A voz dela saiu mais baixa. — Eu nunca tive tempo pra namorar. Pra me apaixonar. Fez uma pausa. — Eu tenho medo de você criar expectativas… Olhou pra ele. — E eu não ser a “princesa” que sua família espera. Felipe franziu a testa. Ela continuou: — Eu cresci no campo, sou assim… direta, meio bruta às vezes, trabalho demais… Respirou fundo. — Você é de uma família rica. Eles esperam alguém… refinada. Olhou pra baixo. — Eu não sou isso. Silêncio. Felipe soltou a mão dela devagar… só pra segurar o rosto dela com calma. — Olívia. Ela levantou os olhos. Ele falou, firme: — Eu não te escolhi pra caber no padrão de ninguém. Pausa. — Eu escolhi você porque você não cabe em nenhum padrão. Silêncio profundo. O mundo ao redor parecia menor. E naquele instante… não havia contrato. Não havia fazenda. Não havia restaurante. Só eles dois. E algo começando a deixar de ser fingimento.
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