O campo aberto parecia não ter fim.
O vento passava leve, o som dos cascos dos cavalos marcando um ritmo calmo, quase hipnótico.
Olívia ia à frente no Máximos, guiando com naturalidade, enquanto Felipe seguia logo ao lado, ainda se adaptando à sela e ao movimento.
Ela soltou um sorriso pequeno.
— Quem diria… um empresário montando cavalo.
Felipe riu de leve.
— Quem diria que eu ia sobreviver a isso.
Ela olhou de canto, divertida.
— Tá indo bem.
Ele respondeu no mesmo tom:
— Tô tentando não cair.
Ela soltou uma risada baixa.
— Isso já é um ótimo começo.
O silêncio voltou por alguns instantes.
Mas não era vazio.
Era confortável.
Quase íntimo.
Olívia inclinou levemente o corpo na direção dele.
— Isso aqui… é totalmente diferente de tudo na minha vida na cidade.
Felipe olhou pra ela.
— Eu tô percebendo.
Ela sorriu.
— Bom.
Apontou à frente.
— Ali na frente tem um lugar onde eu sempre gostei de ir. Vamos até lá.
Eles seguiram devagar.
Até que o cenário mudou.
Uma pequena área mais afastada, com árvores, uma cabaninha antiga e sombra natural.
Um refúgio dela.
Olívia desceu primeiro, com facilidade, como alguém que fazia aquilo desde sempre.
Amarrou o Máximos com cuidado.
Depois segurou as rédeas do cavalo de Felipe, ajudando ele a descer com segurança.
— Calma… vai com cuidado.
— Eu tô tentando — ele respondeu rindo.
Quando os dois cavalos estavam presos, eles caminharam até a grama.
Olívia se jogou ali sem cerimônia.
Felipe fez o mesmo, mais devagar.
O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente.
Ela esticou o braço e pegou uma maçã caída da árvore ao lado.
Mordeu com calma.
— Eu ficava muito aqui… quando era mais nova.
Felipe a olhou.
— Sozinha?
Ela assentiu.
— Ou discutindo com minhas primas.
Ele riu.
— Você parece alguém difícil de conviver.
Ela virou o rosto pra ele.
— Eu era.
Fez uma pausa.
— Elas sempre me fizeram me sentir meio… inferior.
Felipe franziu a testa.
Ela continuou, mais baixa:
— Por eu ser filha única. Por não ser “igual” às outras.
Olhou pro campo.
— Então eu vinha pra cá. Ficava com o Máximos. Com o Hércules.
Silêncio.
— Acho que eles sentiram tudo isso também.
Felipe ouviu em silêncio.
— Por isso eles não deixam qualquer pessoa chegar perto.
Ela deu de ombros.
— Só eu… e meu pai.
A voz dela baixou um pouco na última palavra.
Felipe observou isso.
E sem dizer nada, estendeu a mão.
Olívia olhou.
E aceitou.
Os dedos deles se entrelaçaram com naturalidade.
Sem pressa.
Sem hesitação.
Ela respirou fundo.
— Posso te dizer uma coisa?
— Pode — ele respondeu.
Ela ficou alguns segundos olhando pra frente.
— Por que você não fica mais tempo vindo pra cá?
Ele sorriu de leve.
— Você tá me convidando pra ficar mais?
Ela deu de ombros, tentando disfarçar.
— Talvez.
Ele apertou levemente a mão dela.
— Eu tô gostando daqui.
Ela sorriu.
— Que bom.
Olhou ao redor.
— Tem muita coisa pra refazer aqui, sabia?
Felipe seguiu o olhar dela.
— Dá pra ver.
Ela suspirou.
— A casa, os currais… tudo precisa de cuidado.
Fez uma pausa.
— Meu tio deixou isso aqui… meio abandonado.
Olhou pra ele.
— O que minha mãe consegue com as vendas só dá pra manter o básico.
Silêncio.
Ela continuou:
— Eu tenho vontade de um dia juntar dinheiro suficiente no restaurante… pra reformar tudo isso. Deixar como era antes.
A voz dela ficou mais firme.
— Quando eu era pequena, isso aqui era outra vida. Funcionários, organização… era tudo bem cuidado.
Felipe a observava com atenção.
— Eu quero devolver isso pra minha família.
Ela respirou fundo.
— Deixar isso aqui no nível que sempre deveria ter sido.
Felipe ficou alguns segundos em silêncio.
E então falou, simples:
— Podemos fazer isso juntos.
Olívia virou o rosto rápido pra ele.
— Como assim?
Ele a olhou direto.
— Juntos.
Ela ficou sem reação por um instante.
E então desviou o olhar.
— Felipe… eu preciso te falar uma coisa.
Ele esperou.
Ela respirou fundo.
— Você me disse que ia no restaurante porque gostava da comida.
Ele assentiu.
— Mas não era só isso.
Olívia o encarou.
Ele continuou:
— Eu ia lá porque eu gostava de você.
Silêncio.
O vento passou mais forte entre as árvores.
Ela piscou.
— O quê?
Ele deu um leve sorriso.
— Eu já te observava antes disso tudo.
Ela ficou quieta.
Felipe respirou fundo.
— Só que você nunca me via. Nunca tinha tempo. Nunca olhava pra esse lado.
Olívia desviou o olhar.
— Felipe…
A voz dela saiu mais baixa.
— Eu nunca tive tempo pra namorar. Pra me apaixonar.
Fez uma pausa.
— Eu tenho medo de você criar expectativas…
Olhou pra ele.
— E eu não ser a “princesa” que sua família espera.
Felipe franziu a testa.
Ela continuou:
— Eu cresci no campo, sou assim… direta, meio bruta às vezes, trabalho demais…
Respirou fundo.
— Você é de uma família rica. Eles esperam alguém… refinada.
Olhou pra baixo.
— Eu não sou isso.
Silêncio.
Felipe soltou a mão dela devagar… só pra segurar o rosto dela com calma.
— Olívia.
Ela levantou os olhos.
Ele falou, firme:
— Eu não te escolhi pra caber no padrão de ninguém.
Pausa.
— Eu escolhi você porque você não cabe em nenhum padrão.
Silêncio profundo.
O mundo ao redor parecia menor.
E naquele instante…
não havia contrato.
Não havia fazenda.
Não havia restaurante.
Só eles dois.
E algo começando a deixar de ser fingimento.