capítulo 4

503 Words
Os meses passaram sem pressa para o mundo… mas correndo para Olívia. O restaurante continuava cheio, os dias continuavam longos, e a rotina dela parecia sempre a mesma: cozinha, salão, pedidos, clientes, problemas, soluções. E, no meio disso tudo, algo começou a se repetir também. Felipe. Ele não era mais apenas “o cliente do canto”. Virou presença. Discreta, constante. Um dia sim, um dia não, ele aparecia no restaurante. Sentava sempre no mesmo lugar. Fazia sempre pedidos simples. E sempre observava ela. Mas nunca de forma invasiva. Nunca atravessando limites. Era quase… cuidadoso demais. Às vezes ele tentava puxar uma conversa rápida, leve. — Dia cheio hoje? — Como sempre — ela respondia, sem parar o que estava fazendo. E ele aceitava isso. Sem insistir. Sem pressionar. Só ficava ali. Como se a presença dela fosse o suficiente. Com o tempo, Olívia começou a perceber algo estranho. Ele não estava tentando ganhar nada dela. Não estava flertando de forma direta. Não estava invadindo seu espaço. Era só… constante. E isso, de alguma forma, começou a se tornar familiar. Confortável até. Mas ela não tinha tempo para pensar nisso profundamente. A vida dela não permitia. Para Olívia, ele ainda era apenas um cliente frequente. Um rosto conhecido. Nada mais do que isso. Ou pelo menos era o que ela dizia para si mesma. Até que o telefone tocou. Era fim de expediente. O restaurante já estava mais vazio, alguns funcionários limpando as mesas, a cozinha começando a desacelerar. Olívia atendeu sem olhar o visor. — Restaurante da Olívia. Do outro lado da linha, a voz veio imediata. — Olívia! Ela fechou os olhos por um segundo. Já sabia. — Mãe… — Você não vai acreditar no que eu estou te falando! Ela já sentiu o corpo pesar. Encostou no balcão, respirando fundo. — Fala logo… — Nós vamos fazer um jantar especial na fazenda no mês que vem! Olívia congelou. A mãe continuou, animada demais para perceber o impacto: — E não é só isso! Sua avó está tão feliz… ela quer finalmente conhecer seu esposo! Silêncio. O mundo pareceu ficar mais lento. Olívia apertou o telefone com mais força. — Meu… esposo? — repetiu, baixo. — Sim! Você não disse que era casada? Então queremos conhecer ele! Vai ser um evento lindo, família toda reunida! Ela fechou os olhos com força. A lembrança da mentira voltou como um choque. — Mãe… eu— Mas do outro lado, a empolgação não parava. — Já está tudo decidido! No mês que vem, na fazenda! Você precisa trazer ela, tá bom? A ligação terminou antes que ela pudesse responder. Silêncio. Só o som do restaurante ao fundo. Olívia ficou parada. Imóvel. Com o telefone ainda na mão. E pela primeira vez em muito tempo… o controle da própria vida parecia ter escapado completamente dela. E em algum lugar dentro do restaurante, Felipe ainda estava lá. Observando. Sem saber que, naquele exato momento… a vida dela tinha acabado de virar de cabeça para baixo.
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