Na manhã seguinte, o dia começou como todos os outros para Olívia.
Correria.
Mas havia algo diferente.
O cabelo estava preso de forma mais simples do que o normal, alguns fios ainda levemente soltos, e o olhar carregava uma mistura de cansaço e decisão.
Ela nem teve tempo de pensar muito nisso.
O restaurante já estava funcionando a todo vapor.
Foi quando ela o viu.
Felipe estava lá.
Como sempre.
No mesmo canto.
Calmo.
Observando.
Mas naquele dia, algo dentro dela parecia mais inquieto.
Olívia respirou fundo, ajeitou o avental e foi até ele.
— Boa tarde — disse ela.
— Boa tarde, Olívia — ele respondeu com um leve sorriso.
Ela hesitou por um segundo.
— Eu posso sentar aqui?
— Claro.
Ela puxou a cadeira e sentou, mas não relaxou.
As mãos estavam juntas sobre a mesa, como se estivesse segurando o próprio nervosismo.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, percebendo.
Olívia soltou um suspiro.
— Eu queria falar uma coisa com você… mas eu não sei nem por onde começar. Você vai achar que eu sou maluca.
Felipe franziu levemente a testa, mas manteve o tom calmo.
— O quê, Olívia? Pode falar.
Ela respirou fundo.
— Por acaso você tem namorada? Esposa? Não sei…
Ele piscou, surpreso com a pergunta direta.
— Não. Sou solteiro. Por quê?
Ela soltou uma risada curta, nervosa.
— Bom… o que eu vou te propor é meio estranho.
Ele inclinou levemente o corpo para frente.
— Já estou curioso.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Você aceitaria… casar comigo em contrato?
Silêncio.
Por alguns segundos, Felipe apenas a encarou.
Depois soltou uma risada baixa, sem deboche — mais de surpresa mesmo.
— Oi?
Olívia levou a mão ao rosto.
— Eu disse que era estranho… desculpa.
Ela já ia se levantar quando ele segurou a mão dela com calma.
Não com força.
Só o suficiente para pedir que ela ficasse.
— Espera. Me conta direito.
Ela respirou fundo outra vez.
E contou.
Falou da fazenda.
Da infância no interior.
Da mudança para a capital aos 22 anos.
Dos cursos, dos anos de luta, da pensão que virou restaurante.
Felipe ouvia tudo com atenção genuína.
— Nossa… isso é incrível — ele comentou.
Ela sorriu de leve, quase tímida.
— Sim… mas agora eu tenho 26 anos e minha família não para de me apurrinhar. Dizem que eu preciso casar, que eu preciso arrumar um marido…
Ele soltou uma risada curta.
— Jura?
— Juro — ela respondeu, rindo também, cobrindo o rosto por um instante.
— Um dia, de tanto insistirem, eu falei que eu já tinha casado.
Felipe arregalou levemente os olhos.
— Você disse isso?
— Disse.
Ela suspirou, derrotada.
— E eu achei que isso ia acabar aí… mas não acabou.
Ela explicou tudo: o jantar na fazenda, o fim de ano, a expectativa da família, a mentira crescendo até virar algo impossível de controlar.
— Eu tentei pensar em alguém aqui do restaurante… mas não tem ninguém. Não combina comigo. Não teria como sustentar isso.
Ela passou a mão no rosto, exausta.
— E eu vivo aqui. Você vê isso todo dia. Eu não tenho tempo pra nada. Nem pra namorar. Nem pra conhecer alguém. Eu só trabalho.
Ela o olhou diretamente.
— E aí eu pensei… em um contrato. Só isso. Uma farsa por alguns meses. Eu pago, se você quiser. Mas eu preciso resolver isso.
Felipe ficou em silêncio por alguns segundos.
Observando.
Processando.
Então, com um leve sorriso de canto, perguntou:
— E o que te faz pensar que eu tenho essa “vibe” ideal?
Ela riu, sem acreditar.
— Não é vibe… é o jeito que você fala comigo. Sua educação. Sua postura. Você encaixa exatamente no tipo de homem que eu sempre disse pra minha mãe e pra minha avó que eu ia casar.
Ele ergueu uma sobrancelha, divertido.
— Então você sempre disse que ia casar com um homem alto, moreno e musculoso?
Olívia ficou vermelha na hora.
— Felipe… por favor.
Ele riu.
— Só estou tentando entender o critério.
Ela respirou fundo, ainda rindo.
— Eu preciso de alguém assim. Alguém que não levante suspeitas. Que consiga conversar naturalmente comigo. Que pareça… real.
Ela ficou mais séria.
— São só três meses. Na fazenda. Depois disso, acaba.
Ele ficou em silêncio outra vez.
E então disse, simples:
— Tá.
Olívia piscou.
— Tá?
— Eu aceito.
Ela arregalou os olhos.
— Você tá falando sério?
— Tô.
Ela soltou o ar, como se não acreditasse.
— Quando… a gente faz isso?
Felipe olhou o relógio, tranquilo.
— Amanhã de manhã.
Ela assentiu, ainda tentando processar.
— Tá… então me passa seu número. Eu te explico tudo que você vai precisar levar.
Ele entregou o celular sem hesitar.
Ela salvou o contato.
Levantou rápido, já voltando ao modo trabalho.
— Eu preciso voltar pro restaurante. Eu te mando as informações depois.
Ela deu dois passos, parou e olhou de volta.
— Felipe… obrigada.
Ele apenas sorriu.
— Ainda não fiz nada.
Mas algo no olhar dele dizia que… talvez ele já tivesse começado há muito tempo.