CAPÍTULO SETE

1744 Words
- Senhora, está bem? - Celeste ainda retirava resto de molho das roupas. - Sim, Celeste. Só preciso subir, tirar esse vestido e tomar um banho! Quero esquecer que essa noite existiu! - Lorena também tentava se livrar do excesso de creme de chantili - Um verdadeiro homem das cavernas - Dizia ela mais para si mesma sobre a atitude de seu marido. - E se pensa que acabou, Mun- Rá, está enganada! - Castor parecia não ter superado o fato da torta que Celeste arremessara tê-lo acertado. - Ah, meu poupe, bicha má! Acha mesmo que eu tenho medo das suas ameaças? - Não tem, mas deveria! Velha coroca! - Finalizou o mordomo indo em direção a cozinha. - Acho que achou alguém com a personalidade tão forte quanto a sua, Celeste! - Lorena não pode deixar de comentar. - Esse mordomo é muito intrometido, doutora. Ele que fique na dele que eu fico na minha! ~*~ Passada uma hora, após certificar-se de que a sala já estava completamente vazia, Bruno desceu para o andar inferior. Trombou com Luiz que bebia algo que restara dos drinks. - O que aconteceu aqui, cara? - Indagou Luiz sentado no sofá. - Uma tremenda falta de respeito o que aquele "serzinho" fez aqui hoje! - Resmungou Bruno vagamente andando para um lado e para o outro com as mãos no bolso. - Se refere à Lorena? - Luiz, você se lembra de que ela não é uma mulher de verdade, não é? Ela na verdade é o Ariel! - Sim, eu sei disso! Mas agora estamos falando de uma linda mulher que se chama Lorena. Se seu olhos são incapazes de enxergá-la como um baita mulherão, eu sinto muito! - Que nojo, Luiz! Você é gay? - Não que eu saiba! - Respondeu Luiz com um risinho de bom humor - Mas vem cá: por que permitiu entrar nesse plano t**o de casamento arranjado? Bruno ainda caminhava impaciente pela sala. - Bom, acho que não é mais segredo para quase ninguém que a minha família faliu. Aí quando tia Soraya recebeu a proposta de uma compra anônima da mansão que tudo começou a ir por água abaixo! Ofereceram um valor bem acima do que realmente vale... - E Lorena era a compradora misteriosa, suponho? - Sim, era! E advinha? A condição para a compra ocorrer seria que eu me casasse com ela! Luiz estava pensativo bebericando seu drink. - O que não faz sentido algum. Você era uma dos que mais praticava Bullying contra ela. Por que Lorena se casaria com você? - Sei lá... para me deixar maluco, talvez! Mas acontece que agora terei de aturá-la. Aturá-la por dois longos anos! É o que prevê o maldito contrato nupcial que eu assinei. - E após isso vocês podem se separar? Um suspirou saiu pelos pulmões de Bruno, como um alívio. - Sim, Luiz. Aí estarei finalmente livre desse fardo. A casa será totalmente minha, como parte do acordo - Um leve sorriso surgiu no rosto do advogado ao vislumbrar o futuro. - E como ela arranjou dinheiro para arcar com esse capricho? Por que olha, eu não pediria nada em troca para me casar com ela! Bruno revirou os olhos com os elogios que Luiz tecia a sua mulher. - Bom, eu sei muito pouco da vida dela. Tia Soraya me contou que assim que Lorena se formou ela acabou casando com um médico cheio da grana, dono de uma rede imensa de hospitais. E ao se separarem ela acabou ficando com uma boa parte da fortuna. - Que sorte a dela! - E azar o meu, Luiz! E que azar! Bom, se não se importa eu vou achar algum bar para terminar essa noite h******l. Vamos? - Eu passo dessa vez, meu amigo - Luiz terminou o drink num ultimo gole cheio - Amanhã preciso estar cedo na empresa para verificar algumas quebras de caixa. Parece que o gerente da unidade da cidade vizinha está roubando dinheiro. Maior pepino pra tratar. - Fraco! - Sou sim, Bruno, você sabe! Bom divertimento e juizo! ~*~ Era manhã quando o voo de Soraya e o marido aterrissou em Guarulhos, São Paulo. O vai-e-vem frenético de pessoas lembrava à megera de que havia chegado a maior metrópole do país. Soraya se sentia completamente frustrada em ter que deixar Paris e retornar para sua vida no interior do estado. Balthazar, seu marido, vinha logo atrás, agora se dividindo entre carregar os excessos de malas de sua esposa e comer um sanduiche. - Balthazar, será que não consegue ficar sem mastigar algo um segundo sequer? Sua barriga está imensa, querido! - Dizia a mulher completamente impaciente com a lentidão com que o marido caminhava pelo aeroporto. Balthazar deu de ombros, como se não se importasse com as palavras ácidas de Soraya. O engenheiro de fato havia ganhado algum peso nos últimos anos, mas as palavras da megera eram recheadas de exageros. Ele acostumara-se aos comentários de tal forma que estranhava quando Soraya ficava muito tempo sem fazê-los. Ambos sentaram-se num banco disposto no imenso saguão do aeroporto enquanto aguardavam a chegava do motorista particular que havia saído de Jundiaí para buscá-los. Balthazar ficou por um tempo observando as peripécias de dois garotos que brincavam no banco da frente, enquanto a mãe deles parecia distraída numa ligação qualquer. Os dois meninos corriam de um lado para o outro e se divertiam muito com o pega-pega. Era tão encantador ver aquelas duas crianças curtindo uma das melhores fases da vida que um sorriso gentil surgiu nos lábios do engenheiro, que ainda mastigava seu lanche. Balthazar sempre desejou ter filhos. Bruno, seu sobrinho, havia suprido parte dessa vontade quando fora morar com ele e Soraya quando ainda tinha onze anos de idade. Contudo, o homem sentia uma pena pro algo que não teve, de curtir aquela fase que os dois meninos encenavam bem em sua frente. Balthazar até mesmo conseguia se imaginar sentado no chão brincando com aqueles garotos como se fosse o pai deles. Os meninos não deviam ter mais de quatro ou cinco anos. - Acho que se tivéssemos tido filhos nosso casamento teria sido melhor! O comentário de Balthazar soou como uma queixa inoportuna aos ouvidos de Soraya. - E acabar com meu corpo? Diz isso porque não seria você que carregaria um parasitazinho sugando os nutrientes do seu corpo, deixando a pele flácida e com estrias. Ah, faça-me o favor, Balthazar! E além do mais, Bruno é praticamente nosso filho. Ao ouvir as últimas palavras o engenheiro se exaltou: - Filho? Como assim, filho? Você teve coragem de casá-lo por meio de um contrato, num casamento arranjado que todos sabiam que ele não queria. E tudo para quê? Simplesmente para não você não ter de deixar suas mordomias. Você vendeu nosso sobrinho!! Sem qualquer alteração emocional em seu tom de voz, Soraya disse: - Se enxerga dessa maneira a culpa não é minha. Depois de tudo o que fizemos quando os pais dele morreram naquele acidente, seria o mínimo que Bruno poderia fazer para retribuir por todos esses anos que levei da minha vida cuidando dele. E não sei do que reclamam, serão apenas dois anos. - É pra rir, querida? - A ironia na voz de Balthazar tentava esconder sua indignação - Não consigo entendê-la, eu juro! Sempre foi uma mulher tão religiosa e não hesitou um segundo sequer ao propor o casamento do nosso filho com uma mulher transexual! - Homem de Deus!!!! Será que você não é capaz de raciocinar? Bruno jamais teria qualquer tipo de envolvimento com aquela aberração. Ele nunca teve inclinação para ser homossexual. Bruno sempre gostou de mulheres. Esse casamento não passa de um acordo. E se quer saber, se não fosse pelas minhas decisões já teríamos ido morar embaixo da ponte. Deveriam é me agradecer! Na verdade, todos sabiam que os gastos desenfreados de Soraya que eram responsavéis pela ruina financeira da família. Mas Balthazar já sabia que seria inútil contraargumentar. ~*~ Lorena estranhava seu novo quarto. O teto, o cheiro, a roupa de cama. E logo ao despertar fora se recordando de tudo que acontecera na noite anterior. O relógio de pulso ao lado da cabeceira da cama apontavam seis e meia da manhã. Ela deveria levantar-se e se aprontar para o compromisso que marcara logo cedo. Calçou as pantufas e dirigiu-se ao banheiro. Despiu-se do pijama e entrou no box ligando a água quente e relaxante. Após muito xampu e sabonete, o que restara de gordura e molho em seu cabelo e corpo foi removido de vez. Mas o banho foi interrompido quando um barulho de explosão fizera Lorena se assustar. A água quente logo foi esfriando e as luzes se apagaram. Provavelmente havia sido um curto circuito. - Celeste? Celeste? - Gritava a moça para que a serviçal a ajudasse. Porém, naquela mesma manhã, a velha senhora havia tirado o dia para fazer feira. Queria fazer um ensopado de batatas que havia prometido à sua patroa. - Que d***a! O que será que aconteceu? - Murmurava Lorena para si mesma - Talvez haja algum painel com djuntore pelo corredor. Devem ter desarmado! Não posso me esquecer de mandar olharem a parte elétrica da mansão - continuava para si própria enquanto se enrolava em uma toalha. Saiu pela porta do quarto olhando para os dois lados. Havia um completo silêncio pela mansão naquele o início de manhã pós-festa. O cheiro de álcool pelo ar era ainda intenso e fez o estômago de Lorena se retorcer. De longe ela avistara uma pequena portinha branca e ali deveria estar os djuntores que procurava. Sentira um alívio, afinal, seu horário de sair se aproximava. Todavia, ao se aproximar do painel elétrico, uma gargalhada deteve seus passos. Em seguida um homem e uma mulher passaram a conversar. Lorena preocupou-se, afinal, estava vestindo apenas uma toalha. A moça ficou por um tempo pensando se seria melhor esconder-se atrás de alguma mobília ou retornar para o quarto. As vozes ficavam cada vez mais próximas e agoniava Lorena. Ela tomou impulso na esperança de alcançar seu quarto antes das duas pessoas a virem, porém não deu tempo e logo ao pé da escada Bruno surgia abraçando uma moça loira pela cintura. Ao ver de quem se tratava, a médica deu um grito de susto e sem ter tempo de segurar a toalha, ficou completamente despida na frente do marido e da moça que o acompanhava.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD