Capítulo 15 — A Fortaleza

1321 Words
A festa ainda acontecia quando Luca decidiu que já era suficiente. Os risos eram altos demais. Os olhares, atentos demais. Os cumprimentos, intermináveis. Ele conhecia aquele ambiente como a palma da própria mão — política disfarçada de celebração, alianças seladas com vinho caro e sorrisos calculados. Mas naquela noite, nada daquilo importava. O que importava estava ao lado dele. Beatrice permanecia sentada, postura impecável, mãos delicadamente apoiadas no colo, o sorriso educado preso ao rosto como parte da maquiagem. Mas Luca via além. O maxilar levemente tenso. Os dedos frios. O olhar que fugia sempre que alguém se aproximava demais. Ela não gostava de multidões. Não daquele tipo. Ele inclinou o corpo discretamente em sua direção. — Vamos embora. Ela o olhou pela primeira vez em minutos. — Já? — Já. Não houve discussão. Apenas um leve aceno de cabeça. Luca se levantou, ajudou-a a levantar também e anunciou a saída para a mesa da cúpula. Vittorio apenas assentiu, expressão indecifrável. O pai dela observou com atenção, mas não questionou. A mãe a abraçou demoradamente, segurando seu rosto entre as mãos como se quisesse memorizar cada traço. — Seja forte — sussurrou. Beatrice apenas respirou fundo. — Eu te amo — Disse Siena com os olhos cheios de lagrimas. — Também te amo! — Beatrice respondeu com o coração apertado. Do lado de fora, quatro carros aguardavam. Homens posicionados estrategicamente, armamentos pesados visíveis, postura rígida. Não era apenas um deslocamento. Era uma transferência. Agora ela pertencia à fortaleza dele. Luca abriu a porta traseira do carro principal e esperou que ela entrasse primeiro. Depois se acomodou ao lado dela. O motorista já aguardava instruções. Bastou um gesto. A caravana partiu. As três horas de viagem foram consumidas por um silêncio quase físico. Luca olhava para a paisagem escura passando pela janela, mas sua mente estava na noite anterior. No olhar dela na sacada. Na preocupação m*l disfarçada. No beijo que ela não recusou. Ele queria aquele olhar de volta. Queria a guerra, a ironia, a provocação. Queria qualquer coisa que fosse viva. Mas ao seu lado, Beatrice parecia distante. As mãos pousadas sobre o vestido, os olhos fixos em algum ponto invisível. Ela não pensava na festa. Nem na família. Pensava na noite. Na cama. No que aconteceria quando as portas se fechassem. Nunca havia estado com homem algum. Sabia apenas o que ouvira em conversas sussurradas, histórias contadas com risadinhas nervosas ou advertências veladas sobre homens poderosos que tomavam o que era deles sem perguntar. E Luca era poderoso. Era intenso. Era imprevisível. Ela não sabia qual versão dele encontraria quando estivessem sozinhos. Quando os muros altos da propriedade começaram a surgir no horizonte, o coração dela acelerou, os batimentos eram tão fortes e rápidos, que Beatrice achou que Luca podia ouvi-la. A fortaleza se erguia imponente contra a noite, luzes estavam iluminando os portões de aço. Era impenetrável. E agora era sua casa. Rose aguardava na entrada principal. — Boa noite, senhor Luca. Boa noite, senhora Beatrice. A casa está preparada. Os funcionários foram dispensados esta semana para garantir privacidade. O quarto passou pela higienização solicitada. O colchão novo já foi instalado. Se precisarem de mim, ainda ficarei na casa. Privacidade. A palavra ecoou. — Obrigada, Rose — Beatrice respondeu, mantendo a voz firme. Luca fez um gesto discreto, dispensando-a. Entraram. Beatrice atravessou o hall ainda de salto alto, sem sequer perceber. Luca notou, mas não comentou. Nunca a tinha visto tão desligada de si mesma. Preocupação começou a substituir a expectativa dentro dele. — Beatrice — chamou, a voz mais suave do que pretendia. — Você está bem? Precisa de um médico? — Estou. Só preciso tirar essa roupa. Está me sufocando. Ele não hesitou. A tomou nos braços. Ela soltou um pequeno suspiro de surpresa, mas não protestou. Ele subiu as escadas com passos firmes, sentindo o peso quase inexistente dela contra o peito. Pensou que talvez fosse isso o vestido, a tensão do dia, o excesso de estímulos. Precisava aliviar. Colocou-a no chão assim que entraram no quarto. O ambiente estava impecável. Lençóis novos. Velas discretas que ele sequer lembrava de ter mandado colocar. Não era um homem romântico. Fizera o que julgou suficiente, Rose fazia seu trabalho muito bem, sabia que aquelas velas tinham vindo dela, e não dele... Virou-a de costas. Os dedos encontraram os inúmeros botões do vestido. — Quem coloca tantos botões numa única peça? — murmurou, quase para si. Um por um. Sem pressa. Apesar da vontade de rasgar o tecido e acabar com a distância de uma vez. Quando o vestido deslizou pelo corpo dela e tocou o chão, o ar no quarto mudou. Beatrice estava apenas com uma calcinha fina de renda branca. Era Perfeita. Completamente perfeita, e completamente dele. Natural. Real. Os s***s pequenos e arredondados, que ele amou desde o primeiro instante que a viu, ele não entendia como havia homens que gostavam coisas tão falsas, e sua mulher era perfeita e totalmente sua, as curvas delicadas, a pele bronzeada contrastando com a escuridão do quarto. O corpo dele reagiu imediatamente. Seu m****o Pulsava sob o tecido do terno, pesado, vivo, exigente, e rígido! Mas Beatrice cruzou os braços sobre o peito num reflexo instintivo. O tremor voltou. — Você precisa relaxar — ele murmurou perto do ouvido dela. — Eu estou relaxada. Ela não estava. Ele retirou a coroa do cabelo dela com cuidado e a colocou sobre a cômoda. Aproximou-se outra vez. — Você é linda. Sabia? Silêncio. Beijou o pescoço dela com delicadeza. Conduziu-a até a cama. Deitou-a com cuidado. Seus lábios exploraram pele, clavícula, ombros. O desejo crescia, urgente. Ele a queria. Inteira. Sua. completamente sua. Mas quando ergueu o olhar para o rosto dela… Os olhos estavam fechados com força. O corpo rígido. Os dedos cravados no lençol. Não havia entrega. Havia espera. Preparação para suportar. — Abra os olhos, Beatrice. Nada. Ela parecia não ouvir Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Beatrice. Abra os olhos. Ela obedeceu, confusa. — O que há com você? — Nada. Só estou deixando acontecer. A frase o atingiu como um soco. Deixando acontecer. Como se fosse algo inevitável. Como se ele fosse uma tempestade que ela precisava suportar. Ele se afastou imediatamente. — Eu não quero isso. Ela piscou, perdida. — Não quero alguém que apenas tolere meu toque. Não quero alguém que feche os olhos para aguentar. Ele passou a mão pelos cabelos, irritado consigo mesmo. — Eu não vou tocar em você assim. E saiu, sem esperar resposta. A porta se fechou com firmeza, o barulho ecoou sobre a casa. No escritório, Luca apoiou as mãos na mesa de madeira escura e respirou fundo. Raiva. Frustração. Desejo não satisfeito. Mas, acima de tudo, algo pior. Ela tinha medo dele. E isso era insuportável. Ele era um homem que conquistava territórios, que impunha respeito, que resolvia conflitos com frieza. Mas diante daquela mulher tremendo em sua cama, sentiu-se o pior dos monstros. Não a forçaria Mesmo que isso o consumisse. No quarto, Beatrice permaneceu imóvel por alguns segundos. Depois puxou os joelhos contra o peito e se encolheu. Ele tinha ido embora. Não a tocara. Não a obrigara. Mas também não ficara. As lágrimas vieram silenciosas. Ela não sabia o que era pior: o medo do que poderia acontecer… ou a dor de perceber que, no fundo, queria que tivesse sido diferente. Queria ter conseguido corresponder. Queria não sentir aquele pavor irracional. A noite avançou lenta. Fria. A fortaleza que parecia impenetrável do lado de fora agora parecia vazia por dentro. Luca permaneceu no escritório até tarde, lutando contra o próprio corpo e contra a própria mente. Beatrice permaneceu na cama, abraçando a si mesma, tentando entender como podia temer e desejar o mesmo homem ao mesmo tempo. E, sob o mesmo teto, recém-casados, passaram a primeira noite separados por algo mais forte que muros. O medo. E o orgulho.
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