Capítulo 17 — A Porta Trancada

1181 Words
Beatrice continuou parada diante da janela por longos segundos, a coberta enrolada sobre o corpo nu, os pensamentos da noite anterior ainda vivos demais para serem ignorados. O quarto carregava os vestígios do que quase tinha acontecido. O vestido de noiva permanecia no chão, espalhado como uma memória interrompida. O cinto e a camisa de Luca estavam próximos à cama. O seu corpo estava intacto. Sem marcas. Sem posse. Sem ele. E aquilo, de alguma forma, a confundia ainda mais. Ela passou minutos tentando entender o que tinha acontecido. Sempre fora forte, determinada, quase provocadora diante dele. Até a noite anterior, o enfrentava sem recuar. O que tinha mudado de uma hora para outra? Por que o medo surgira tão brutal, tão incontrolável? Por que seu corpo reagira antes mesmo que sua mente pudesse raciocinar? Os pensamentos vinham sem resposta e faziam pouco sentido até para ela. Não conseguia aceitar que tivesse se encolhido daquela forma. Fora criada dentro daquele mundo. Sabia o que era um casamento na máfia. Sabia que muitas mulheres não tinham escolha, não tinham voz, não tinham sequer direito ao medo. Ela tinha sido preparada para aquilo. Se tivesse que suportar dor, suportaria. Se tivesse que enfrentar dureza, enfrentaria. Não seria uma menina chorona. Não fugiria. Mas, ainda assim, tinha tremido. Com irritação consigo mesma, afastou-se da janela e foi direto para o banheiro. Agora era ela quem precisava da água quente. Precisava que o vapor levasse embora o que restava da noite m*l resolvida. Não tinha como fazer o ritual que sua mãe lhe ensinara. Não sabia onde estavam suas coisas. Não sabia sequer onde encontrar uma toalha naquela casa que agora era sua. Ficou debaixo do chuveiro por longos minutos, deixando a água escorrer pelos cabelos, pelos ombros, pelas costas. Tentando lavar o medo. Tentando lavar a vergonha. Tentando lavar o desejo que também existia — e que a incomodava ainda mais. Desligou o chuveiro e percebeu que realmente não havia toalha à vista. Suspirou. Ele já tinha saído. Os funcionários estavam dispensados. Rose não parecia do tipo que invadiria o quarto do patrão sem permissão. Estava segura. Ou pelo menos acreditava estar. Saiu do banheiro completamente nua. E congelou. Luca estava sentado na cama, olhando diretamente para a porta. O coração dela disparou. — Meu Deus… — levou as mãos ao corpo instintivamente, tentando cobrir o que podia. — Eu pensei que tivesse saído. Não achei a toalha e a Rose disse que não teria ninguém em casa, então… Ele a observava com uma calma quase perigosa. — Você fala bastante quando está nervosa, não fala? Havia um sorriso discreto no canto da boca dele. — Falo — respondeu, ainda tentando decidir qual parte do corpo cobrir primeiro. — Não precisa ter vergonha de mim. Eu sou seu marido. Ela sentiu o rosto inteiro arder. — Eu sei que é. Mas nunca fiquei nua na frente de ninguém. E aquela era a verdade mais crua. Não era apenas sobre ele. Era sobre vulnerabilidade. Sobre se permitir ser vista. Ele sustentou o olhar por alguns segundos. O desejo era evidente. O corpo dele reagia, firme sob a calça. Ele a queria. Intensamente. Mas também sabia que precisava sair dali antes que a tensão explodisse em algo que ela ainda não estava pronta para viver. — Já estou de saída. Vim buscar algumas coisas e vi que você estava no banheiro. Resolvi esperar. — Você pode se virar e me dizer onde acho uma toalha? Ele riu baixo e se virou. — Você precisa passar por mim para pegar. Está no closet. — d***a… — Eu pego para você. Ele atravessou o espaço até o closet e voltou com a toalha, entregando-a sem tocá-la além do necessário. O autocontrole estava por um fio. O m****o pulsava, exigente. O cheiro dela ainda pairava no ar. Ele precisava sair dali. — Obrigada. Ela praticamente correu de volta para o banheiro. Ficou alguns segundos apoiada na pia, encarando o próprio reflexo. Respirando fundo. Tentando convencer a si mesma de que não precisava fugir. Era forte. Sempre fora. Não começaria a recuar agora. Quando saiu novamente, enrolada na toalha, ele já não estava mais ali. E, para sua própria surpresa, sentiu-se aliviada. Vestiu-se rapidamente com um conjunto simples de moletom rosa-claro. O frio da manhã combinava com o silêncio da casa. Precisava se ocupar. Precisava organizar algo. Colocar ordem ao redor talvez ajudasse a colocar ordem dentro de si. Desceu até a cozinha. Rose estava lá, organizando o que já parecia perfeitamente organizado. — Bom dia, senhora. — Bom dia, Rose. Não precisa me chamar assim. Posso me servir de café? — A casa é sua. Não precisa pedir nada. Beatrice serviu-se e observou a governanta por alguns segundos. Havia algo reconfortante na presença dela. — Posso perguntar uma coisa? — Claro. — Pode me falar sobre o Luca? Rose levantou os olhos com um leve sorriso. — O que quer saber? — Ele é difícil de entender. Às vezes tem um olhar tão… terno. E em outros momentos, como ontem à noite, parecia escuro. Como se pudesse atacar qualquer um. Rose apoiou as mãos sobre o balcão. — Luca é como um filho para mim. Ele é exigente. Gosta das coisas do jeito dele, na hora dele. E com você, nada está sendo do jeito dele. Isso tem sido um teste enorme de paciência. Beatrice abaixou os olhos. — Ontem eu não consegui cumprir meu papel de esposa. Imagino que ele tenha ficado irritado. — Não acho que seja isso — Rose respondeu com firmeza. — Acho que o que o irrita é o fato de você ter medo dele. Beatrice ergueu o olhar rapidamente. — Como sabe? — Eu o conheço. E os palavrões que ele gritou no escritório deixaram claro. Ela ficou em silêncio. — Ele tem defeitos — Rose continuou — mas não vai machucar você. Aquelas palavras ficaram ecoando mesmo depois que Rose saiu. Beatrice terminou o café e voltou para o quarto decidida a se ocupar. Organizou as roupas no closet com método quase obsessivo. Separou por tonalidades. Dobrou com precisão. Organizou bolsas com visibilidade perfeita. Sapatos alinhados por cor e altura do salto. Sorriu ao perceber que talvez compartilhasse algo com ele: a necessidade de controle através da organização. Ousou, inclusive, ajustar algumas peças dele. Não muito. Apenas o suficiente para deixar mais funcional. Foi então que notou a porta. Discreta. No fundo do closet. Trancada. Ela franziu a testa. Por que alguém que morava sozinho manteria uma porta trancada dentro do próprio quarto? Não parecia um cofre comum. Não tinha aparência de depósito. Era… pessoal. A curiosidade cresceu rápido demais. Por que aquilo a incomodava tanto? Por que, mesmo com medo quando ele estava perto, não conseguia parar de pensar nele quando ele se afastava? Aproximou-se da porta. Passou os dedos pela maçaneta. Trancada. Um arrepio percorreu sua espinha. Ela não sabia se queria descobrir o que havia ali dentro. Mas sabia que aquela porta representava algo maior do que um simples cômodo fechado. Representava a parte dele que ainda não conhecia.
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