Capítulo 20 — O Peso do Autocontrole

1460 Words
A primeira coisa que Beatrice sentiu ao acordar foi calor. Não o calor do quarto. O calor dele. O braço de Luca estava firme ao redor da cintura dela, pesado, possessivo mesmo dormindo. O peito dele subia e descia contra suas costas em uma respiração profunda e estável. O rosto estava enterrado nos cabelos dela, como se, mesmo inconsciente, precisasse sentir que ela ainda estava ali. Ela ficou imóvel por alguns segundos. Não por medo. Mas porque aquela era a primeira vez que acordava assim. Casada. Na cama dele. Envolvida por ele. Sem tensão no ar. Sem distância. Devagar, virou um pouco o rosto para olhá-lo. Dormindo, Luca parecia diferente. A rigidez do maxilar não estava ali. A expressão dura que ele usava como armadura simplesmente desaparecia. Ele parecia… mais jovem. Mais humano. Ela sentiu algo apertar dentro do peito. Ele tinha voltado. Ele tinha escolhido voltar. Os dedos dela subiram lentamente pelo braço dele, sentindo a pele quente e firme. Não era um toque provocativo. Era curioso. Como se estivesse aprendendo o território que agora também era seu. Desceu devagar pelo abdômen dele, sentindo os músculos sob a pele. A respiração dela mudou quase imperceptivelmente. A curiosidade venceu qualquer timidez que ainda restasse nela. Era a primeira vez que estava tão próxima assim de um homem, a primeira vez que observava aquele corpo sem pressa, sem medo. A curiosidade de como ele estava duro mesmo dormindo, a deixou intrigada. Passou os dedos macios envolta do seu m****o. Não tinha ninguém para comparar, mas sabia bem que seu marido era dotado, era grande e largo. Ele estava completamente nu. Nu e despreocupado. Não parecia ter pensado se ela ficaria constrangida ou assustada. Estava ali, exposto, cru, natural, como se não houvesse nada a esconder dela. O efeito foi imediato. A mão dele se contraiu levemente nos cabelos dela. A respiração ficou mais pesada. Os olhos se abriram. Escuros. Alertas. Fixos nela. Eles se encararam por alguns segundos em silêncio. Ele não afastou a mão dela. Não interrompeu. Apenas observou. — Gosta do que vê? — a voz dele saiu rouca, ainda carregada de sono. Ela corou. — Eu não sabia que estava acordado. Ele não sorriu de imediato. Apenas a analisou, como se estivesse tentando entender se aquilo era real. Se ela ainda estaria ali quando piscasse. — Se quiser, posso fingir que estou dormindo… pra você continuar. Ela não conseguiu evitar o sorriso. Luca fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como se estivesse lutando internamente contra algo maior do que ele. E ela percebeu. — Bom dia — disse ela, suave demais, tentando desviar a tensão. Um erro. O simples tom da voz dela atravessou qualquer tentativa de autocontrole que ele ainda sustentava. Ele a puxou levemente mais para perto, o nariz roçando o pescoço dela, inspirando o cheiro da pele limpa. — Não faz isso — murmurou. — Isso o quê? — Falar comigo assim… me tocar assim. Ela virou parcialmente o corpo para encará-lo melhor. — Assim como? — Como se não tivesse ideia do que faz comigo. O coração dela acelerou. Ela se aproximou um pouco mais, sentindo o peito dele contra o seu. — E o que eu faço com você? Ele abriu os olhos novamente. E dessa vez não havia suavidade. — Você me faz esquecer que prometi ir devagar. O silêncio que se seguiu foi denso. Ela engoliu em seco. Sabia que estava provocando demais. Sabia que talvez não estivesse preparada para todas as consequências daquele jogo. E, estranhamente, aquilo a fazia se sentir segura. Ele estava se controlando. Por ela. Ela deixou os dedos deslizarem pelo peito dele, quase distraída. Ele segurou o pulso dela. — Se eu ficar mais cinco minutos nessa cama, eu não respondo por mim. Ela não sabia se aquilo era ameaça ou confissão. — Luca… Ele soltou o pulso dela e se afastou abruptamente, sentando-se na cama. Passou as mãos pelo rosto, respirando fundo como um homem tentando se recompor antes de uma batalha. — Eu vou treinar. — Agora? — Agora. Ela puxou o lençol até o peito, observando-o caminhar até o banheiro. Ele parecia irritado. Mas não com ela. Com ele mesmo. A porta se fechou. Minutos depois, ela ouviu o som do chuveiro. Água fria. Ele precisava esfriar a cabeça. O corpo. A mente. A promessa que tinha feito menos de vinte e quatro horas antes estava por um fio. Ela permaneceu deitada, olhando para o teto. Tentando entender por que a saída dele doía um pouco. Tinham combinado ir devagar. Mas ela também precisava conhecê-lo. Precisava estar com ele. Queria estar com ele. Quando ele saiu do banheiro, já vestido com roupas de treino, o cabelo levemente úmido, ela estava sentada na cama. Ele parou por um segundo ao vê-la. O baby-doll da noite anterior ainda moldava o corpo dela de maneira quase c***l. — Você faz isso de propósito? — ele perguntou, sério demais. — Isso o quê? — Se exibir assim na minha frente. Ela mordeu o lábio para conter o sorriso. Ele balançou a cabeça e saiu do quarto antes que mudasse de ideia. ⸻ Beatrice tomou banho e desceu para o café da manhã sozinha. A manhã passou estranhamente silenciosa. Os funcionários a cumprimentaram com respeito absoluto. Ninguém a encarava por tempo demais. Todos sabiam como Luca reagiria a qualquer olhar que ultrapassasse o limite. Ela não era uma mulher qualquer naquela casa. E todos sabiam disso. O peso da posição dela era evidente. Ela procurou Rose. Precisava conversar. Queria saber mais sobre Luca. Sobre o que ele fazia. Sobre quem ele era longe dela. Mas ali ninguém falava nada que ele não autorizasse. Tentou se distrair organizando papéis, revendo documentos, observando a rotina da casa. Queria entender o império do qual agora fazia parte. Mas não encontrava nada concreto. Nada sobre negócios. E nada sobre ele. A mente dela, no entanto, não estava ali. Estava na academia. Imaginando-o suado, descarregando a tensão que ela mesma havia despertado. ⸻ Quase uma hora e meia depois, Luca entrou pela porta principal. A camiseta preta colava no corpo ainda quente, com o suor. O cabelo mais bagunçado. A expressão ainda carregava tensão. Ele parou ao vê-la no corredor. Os olhos desceram lentamente pelo corpo dela. Subiram novamente. Silêncio. — Treino bom? — ela perguntou, fingindo naturalidade. — Insuficiente. Ela arqueou a sobrancelha. — Insuficiente, pra quem? Ele caminhou até ela. Devagar. Parou perto demais. — Pra ficar longe de você. O coração dela disparou. Mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer, ele se afastou. — Eu vou sair. Tenho reuniões hoje. Ela piscou. — Achei que fosse ficar. — Eu preciso trabalhar. Ela cruzou os braços. — Parece que está fugindo. Ele se aproximou outra vez, agora mais sério. — Eu não estou fugindo de você. — Parece. Ele suspirou. — Eu estou tentando fazer isso direito. — Fazer o quê direito? — Nós. A palavra ficou no ar. Ele tocou o rosto dela com os dedos, suave. — Eu esperei tempo demais para ter você. Não vou estragar isso por causa do meu desejo. Ela sentiu a garganta apertar. — E eu não quero que você se sinta pressionada — ele completou. Ali estava o impasse. Ele queria protegê-la até de si mesmo. Ela só queria que ele não desaparecesse. Ele beijou a testa dela. — Eu volto antes do jantar. E saiu. ⸻ Rose entrou na sala falando com um dos funcionários. — Rose — chamou Beatrice com entusiasmo. — Senhora… — Beatrice. — Corrigiu. Rose dispensou o funcionário com um gesto. — Eu queria saber como posso ajudar nas coisas da casa. — O senhor Luca não vai gostar de ver a senhora trabalhando. — Rose, eu não aguento mais ficar entediada aqui. E me chame de Beatrice, por favor. Rose hesitou. — Eu deixo você ajudar… mas não conte pra ele. — Combinado. As duas passaram a tarde organizando detalhes da casa e conversando. Beatrice fazia perguntas discretas sobre Luca. Gostos. Hábitos. Pequenas manias. Ela queria conhecê-lo de verdade. — Rose, o que o Luca gosta de comer? — Ele ama pasta alla carbonara. Receita que fazia pra ele quando criança. Os olhos dela brilharam. — Eu também adoro. — Então venha. Vou ensinar Senhora. — E não me chame de senhora. Rose riu. O sol já tinha se posto quando começaram o jantar. A cozinha estava iluminada. O aroma se espalhava pela casa. Ele poderia chegar a qualquer momento. E, dessa vez, ela queria estar pronta. — Rose. — chamou Beatrice ajustando os ultimo detalhes da mesa. — Sim. — Pode me falar mais sobre a mãe dele? — Isso somente ele vai dizer. Beatrice queria confronta-la, mas ouviu o carro entrando na propriedade.
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