Capítulo 9 — Antecipação

1375 Words
O escritório do pai de Beatrice era o único cômodo da casa onde até o ar parecia obedecer regras. Ali dentro, palavras eram calculadas, decisões eram definitivas e sentimentos não tinham espaço. Luca sem pressa. Sozinho. Precisava daquela conversa sem testemunhas. Sem soldados. Sem olhares curiosos. Apenas dois homens e um acordo. Impecável como sempre. Frio como precisava ser. — Imagino que não veio falar sobre negócios — o pai disse, sem levantar os olhos dos papéis. — Não. — Vim falar sobre o casamento. O olhar dele se ergueu lentamente. — O que tem ele? — a voz ficou mais rígida. — Ou o que ela fez? — Dois anos é muito tempo. O pai fechou a pasta devagar, medindo cada gesto. — Foi o acordo. — Eu quero antecipar. O silêncio que se formou não foi apenas surpresa. Foi tensão. — Antecipar quanto? — Este ano. De preferência, no próximo mês. O pai permaneceu calado por alguns segundos. Ele não era homem fácil de pressionar. Mas também sabia reconhecer quando estava diante de uma decisão já tomada. — Ela ainda é muito jovem. — Já atingiu a idade mínima pela máfia. Se eu quisesse, teria me casado no dia em que vocë a prometeu a mim. — Não estou falando da lei da máfia. Estou falando da minha filha! — E eu estou falando da minha mulher! O choque foi inevitável, o olhar dos dois se sustentou. Poder reconhecendo poder. O pai conhecia Beatrice. Sabia que ela não receberia aquela notícia com doçura, nem com um sorriso no rosto. Muito provavelmente reagiria com fúria. E, por um segundo, quase sentiu pena de Luca. — Ela sabe disso? — Não. — E não pretende contar? — Vou contar. Hoje à noite. Luca inclinou-se levemente para frente. — Só preciso que você avise que vou leva-lá pra jantar. Ela precisa comparecer. O pai analisou o homem à sua frente. Sabia que não havia como medir forças. Quando uma mulher era prometida, o homem podia tomá-la como sua. Luca nunca quis uma criança. Mas agora ela não era mais uma menina. Aos olhos dele, era mulher. Era a sua mulher Não havia descontrole. Não havia impulso naquele olhar Havia decisão. — Muito bem — respondeu por fim. — Mas você dará essa notícia hoje. Luca assentiu. Ao sair, passou pela sala. Sentiu a presença dela antes mesmo de vê-la. O perfume era inconfundível. Era isso que o desestabilizava. Que o hipnotizava. Mas não olhou. Não podia. Porque, se olhasse, lembraria do quarto. Do beijo. Do quanto a desejava. E ele não podia perder o controle outra vez. ⸻ Minutos depois, o pai a chamou. Beatrice entrou no escritório com um meio sorriso debochado. — Sabia que ele ia desistir fácil demais. O pai não sorriu. — Ele não desistiu. O sorriso dela enfraqueceu. Por um instante, imaginou que ele tivesse contado sobre o que aconteceu no quarto. Pensamentos passaram rápidos demais por sua mente. Todos, menos o verdadeiro motivo. — Então o que ele queria? — Jantar. Hoje à noite. Com você. E eu consenti. — Para quê? — Vocês tem muito o que conversar. O coração dela deu um salto estranho. Mas o orgulho falou mais alto. — Não precisava de jantar para dizer que desistiu. — Ele não desistiu, Beatrice. Mas ela já estava saindo. Não queria ouvir mais nada. Subiu as escadas tomada por uma raiva que m*l conseguia conter. Como ele teve coragem de sumir por duas semanas e reaparecer conversando com seu pai como se nada tivesse acontecido? Como teve coragem de ignorá-la? E agora queria jantar? Ele não precisava de cenário para anunciar que estava fora. Ela não precisava de espetáculo para ser descartada. Os pensamentos estavam dominado. Ela sentia vontade de ligar para ele e despejar tudo o que havia guardado. Chamá-lo de covarde. De b****a. No mínimo uma explicação. Mas não ligou. Guardou. E vestiu a própria raiva como armadura. ⸻ À noite, estava deslumbrante. Não para ele. Para si. Vestido verde oliva ajustado ao corpo, cabelo solto dessa vez, maquiagem impecável. Ela sabia o efeito que causava. E, naquela noite, aquilo seria sua arma. Quando desceu, Luca já a esperava. Terno escuro. Postura firme. Olhar contido demais. Ele sabia que não podia encará-la por muito tempo, ou perderia o controle, mesmo com o pai dela dentro da mesma casa. Ainda assim, abriu a porta do carro. Sem motorista. Ela pensou que pelo menos ele não trouxe plateia Sem plateia. Um alivio para ela O trajeto foi silencioso. Nenhuma farpa. Nenhum olhar prolongado. O restaurante era diferente. Mais discreto. Mais reservado. Tinham uma mesa privada no terraço. Ela agradeceu de novo mentalmente pela ausência de espectadores. A cidade abaixo deles parecia distante demais para importar. Ele tentou agir como se nada tivesse acontecido. Comentou sobre a comida, e como era ótimo, e por isso fez questão de leva-la, sobre o clima. Sobre trivialidades. Ela o interrompeu. — Você sumiu. Ele ficou em silêncio. — Duas semanas — ela continuou. — E hoje de manhã fingiu que eu não existia. — Eu não estava fingindo. — Então o que estava fazendo? Ele respirou fundo. Sabia que tinha agido m*l sumido. — Tentando não fazer algo errado de novo. Ela franziu o cenho. — Eu não queria corromper você. Nem ultrapassar nenhum limite outra vez. Você merece algo decente. Ela soltou uma risada sem humor. — Que nobre da sua parte. Eu achei que tivesse desistido. — Desistido? — Sim. Você não conseguiu o que queria. Sumiu. Achei coerente. A mandíbula dele travou. Aquilo o atingiu. — Você entendeu errado. Ele sabia que não era santo. Sabia que ela imaginava coisas sobre ele. Mas presumir que ele só a queria pelo s**o foi quase um insulto. Mesmo assim, manteve o foco do porque estavam lá Colocou a mão no bolso interno do paletó. Retirou uma pequena caixa. Colocou sobre a mesa. Abriu. Uma aliança elegante, definitiva, com pedras que refletiam a luz como pequenas chamas. — Eu pedi o adiantamento do casamento. O mundo pareceu suspenso. — O quê? — Dois anos é muito tempo. Ela piscou, incrédula. — Você enlouqueceu? — Seu pai autorizou. A cúpula também. — Você fez isso sem falar comigo? — Estou falando agora. — Isso não é conversa, Luca. Isso é um comunicado! — É decisão. — Sua decisão! O tom dela subiu. — Você não pode simplesmente decidir quando eu vou casar! — Você já ia casar comigo. — Daqui a dois anos! — Agora será no próximo mês. O silêncio que veio não era vazio. Era ruptura. Ela sentiu algo quebrar por dentro. Não era o casamento que doía. Era a ausência de escolha. Ele poderia ter falado com ela. Ela talvez aceitasse antecipar. Já sabia que não tinha como correr desse casamento, talvez não aceitaria para um mês, mas aceitaria se tivesse sigo comunicada antes de todo mundo. — Eu não aceito — disse, firme. Ele a encarou. — Eu não fiz isso para te fazer feliz. Aquilo doeu mais do que deveria. — Então por quê? Ele hesitou. Porque dois anos eram longos demais para fingir que não a queria. Longos demais para outros homens olharem. Longos demais para correr o risco de perdê-la. Longos demais para não fazê-la sua. Mas ele não disse nada disso. — Porque é o certo. Ela se levantou. — Eu quero ir embora. Ele não a impediu. Pagou a conta. Desceram em silêncio. No carro, o silêncio era quase sufocante, a tensão estava quase palpável. Ela olhava pela janela. Ele dirigia com as mãos rígidas demais no volante. O casamento tinha sido antecipado. Mas, naquele momento, parecia mais distante do que nunca. ⸻ Quando chegaram, ela saiu sem olhar para trás. A aliança ainda estava com ele. A raiva e a indignação tomaram conta do corpo pequeno dela Entrou em casa. Os pais estavam na sala. — Você aceitou para me punir? — perguntou ao pai. — Eu não tive escolha. — Teve quando me prometeu. Subiu antes que ele respondesse. A porta do quarto bateu com força. Luca ainda estava parado em frente à casa, conseguiu ouvir Sabia que aquela não era uma vitória. Era o começo de uma guerra muito mais perigosa.
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