Capítulo 12 — Cinco Dias

1354 Words
Os dias estavam passando com tanta velocidade que Beatrice sentia-se sufocada. A movimentação da casa estava agitada demais. Costureiras entrando e saindo, caixas empilhadas na sala, a mãe discutindo flores com uma serenidade quase c***l. Como se aquilo fosse apenas uma celebração comum. Como se não fosse uma sentença. Luca ainda a acompanhava nas caminhadas. Tornou-se uma rotina. No fundo, ele gostava. Era o único momento do dia em que podia vê-la, e havia se transformado na melhor parte do seu dia. Ele não a provocava mais. Sabia que ela estava magoada demais para aceitar qualquer provocação. O silêncio reinava entre os dois. Mesmo assim, era o momento que ele mais aguardava. Um muro invisível estava sendo construído entre eles. Luca sabia que não podia mais se aproximar tanto. Ela era sua ruína… A distância e o silêncio pareciam ser a melhor escolha naquele momento. Para os dois. Mas Beatrice odiava admitir, sentia falta da guerra. Sentia falta do jeito como ele perdia o controle quando alguém a olhava. Sentia falta das respostas afiadas. Sentia falta até do ciúme. Ainda assim, não podia ignorar o que ele havia feito. Adiantar o casamento daquela forma não foi justo. Agora restava apenas o silêncio. E cinco dias para o seu mundo mudar. — Fique reta, querida. A voz da mãe a trouxe de volta. O vestido branco deslizava pelo seu corpo com perfeição quase c***l. Ajustado na cintura, caindo em camadas delicadas até o chão. O tecido era leve, mas o peso que ela sentia não vinha dele. A costureira ajeitou o véu. Beatrice ergueu os olhos para o espelho. Era ela. Mas não parecia. Parecia uma versão distante de si mesma. Intocável. Como se estivesse vestindo um papel que ainda não sabia interpretar. A mãe levou a mão ao peito. — Você está linda. Linda. Ela deveria estar feliz? Ansiosa? Apaixonada? Em vez disso, sentia um nó estranho no peito. Por um instante, imaginou Luca vendo aquele vestido. O olhar dele. O silêncio pesado. A mandíbula travando. Os olhos escurecendo. Ela odiou imaginar. Mas imaginou mesmo assim. — Está apertado? — a mãe perguntou. — Não. Mas estava. Apertado no peito. Na garganta. Na respiração. Beatrice estava ansiosa demais. Principalmente com a noite de núpcias. Sabia que não tinha para onde correr. E não acreditava que ele não teria força para consumar aquele casamento. Então, ao menos, iria se proteger. Não teria um filho de um homem que a obrigou a casar. Beatrice decidiu sair sozinha. Não é uma tarefa fácil, parecia que com o casamento próximo Luca deixou mais soldados na casa dela, tinha a impressão que ele tinha medo que ela fugisse Então, pelo menos, fingir que estava sozinha. O carro a deixou em frente a um consultório discreto, longe o suficiente da casa para não levantar suspeitas. Não queria que aquilo chegasse aos ouvidos de Luca. Entrou respirando fundo. Já que iria se casar, dividir a vida e o corpo… ao menos queria escolher quando se tornaria mãe. Era uma decisão que desejava que fosse sua. — Nome completo? — perguntou a recepcionista. Ela respondeu. Assim que a ficha foi aberta no sistema, o telefone vibrou na bolsa. Ela soube antes mesmo de olhar. Luca. Como ele sabia tudo o tempo todo, viver por conta própria seria impossível. O coração acelerou, de raiva. Atendeu. — Você quer me contar o que está fazendo ai? — a voz dele saiu baixa. Controlada demais. Ela fechou os olhos por um segundo. — Não preciso prestar contas da minha agenda médica. — Médica? — Sim. Silêncio. Ela quase podia ouvir a respiração dele do outro lado da linha. Parecia que ia atravessar o celular para pega-lá — Você achou que eu não saberia? — Eu não sou sua propriedade. — Nunca disse que era. — Não precisa dizer. Você age como se fosse. A pausa foi longa. Quando ele voltou a falar, a voz estava diferente. Não mais fria. Mais firme. — Espere aí. Ele desligou. Ela ficou parada, o telefone ainda na mão, tentando entender. Ele chegou em menos de dez minutos. Sem escolta aparente. Sem alarde. Entrou no consultório como se aquele espaço também lhe pertencesse. O médico o reconheceu. A postura mudou imediatamente. — Ela não vai tomar nada — Luca disse, direto. — E não será examinada por um homem. — Você não pode decidir isso! — Beatrice explodiu. — E ele é apenas um médico! Ele virou o rosto para ela. Os olhos escuros, mas não violentos. — Continua sendo um homem. Ela respirou fundo, indignada. — E você acha que eu quero um filho que você não quer? A pergunta a desarmou por um segundo. — Então me deixa escolher. — Escolher, sim. Mas me esconder, não. — Eu não quero engravidar tão cedo. — Eu também não quero que nosso primeiro filho venha de obrigação ou de raiva. Ele continuou, mais calmo: — Se você não quer um filho, nós nos protegemos. Mas não às minhas costas. Virou-se para o médico. — Saia. O médico saiu em silêncio, sem interferir na discussão. Beatrice o encarou. — Você acha que eu mentiria para você? Ele sustentou o olhar. — Eu acho que você não confia em mim. Ela soltou uma risada sem humor. Completamente sarcástica — Você não faz nada até agora para que eu confie. Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente tentando conter a discussão. — Eu não vou brigar com você aqui. Vamos. Ela saiu com ele. Dentro do carro, o silêncio era espesso. Ela olhava pela janela. Ele dirigia com as mãos firmes no volante. — Eu não quero ser seu inimigo — ele disse, finalmente. Ela permaneceu em silêncio. — Não vou tocar em você se não quiser. Mas também não vou aceitar que se proteja de mim como se eu fosse um bicho, ou um risco pra você. — Você é um risco. — Afirmou Ele quase sorriu. — Talvez. Ela virou o rosto. — Eu não quero perder o pouco controle que ainda tenho. Ele diminuiu a velocidade. — Você acha que eu tenho controle de alguma coisa quando estou perto de você? Ela não esperava por aquilo. Ele nunca havia verbalizado daquela forma. Mesmo que as vezes demonstrava falta de controle, mas nunca admitiu que perdia o controle por conta dela. Parou o carro diante da casa dela. Antes que ela saísse, ele disse. — Vou resolver um assunto. Ficarei incomunicável por alguns dias. Ela fingiu indiferença. — Faça o que quiser. — Vou deixar um soldado de total confiança ao seu lado. — Não duvido. Ele a encarou por um segundo. — Eu volto para casar com você. — Que pena — ironizou. O coração dela falhou uma batida. Mas abriu a porta sem olhar para trás. ⸻ Os dias que antes passavam com pressa começaram a se arrastar. Luca não ligou. Não enviou mensagem. Nada. Nem mesmo através dos soldados. Ela estava inquieta. E mais preocupada do que gostaria de admitir. O soldado mais confiável dele passou a acompanhá-la discretamente. Silencioso. Leal. Impossível de arrancar qualquer informação. — Ele está bem? — ela perguntou certa vez. — Sim, senhora. — Onde ele está? — Não tenho autorização para informar. — Quando ele volta? — Senhora, eu só posso dizer que ele está bem! Ela fingia não se importar. Mas à noite ficava acordada por mais tempo. Imaginava cenários demais do que ele poderia está fazendo ou o que tinha acontecido com ele. Ele estava ferido? Em guerra? Ou simplesmente distante porque era mais fácil assim? Estavam jantando quando Siena interrompeu seus pensamentos. — Você está preocupada. — Não estou. — Está olhando para o portão há dez minutos. Ela desviou o olhar. — É só o casamento. — Sei… Beatrice terminou o jantar rapidamente e se trancou no quarto. Foi até a varanda. A estrada estava vazia. Três dias haviam se passado. Amanhã era o casamento. O vento frio batia em seu rosto. Ela abraçou os próprios braços. Amanhã. Tentou fingir que não ligava. Mas estava preocupada demais. Com ele. Com o casamento. E com o que estava sentindo.
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