Plano B

1307 Words
Quando acordei, percebi que estava sozinha no quarto, indicando que, pela primeira vez, Christian tinha acordado mais cedo do que eu. Ele entrou no quarto de repente, segurando uma bandeja repleta de comida e exibindo um sorriso radiante, como sempre. – Bom dia. – disse, ainda sorrindo. – Bom dia – respondi, sentando-me na cama. – Você acordou cedo... – Mudança de rotina. – informou casualmente, colocando a bandeja na minha cama e oferecendo café. – Quer? – Não, obrigada. Não posso tomar cafeína, achei que soubesse. – comentei. – Claro... Desculpa, eu esqueci. Suco? – não respondi, apenas aceitei o suco de laranja que ele me ofereceu. – Se divertiu ontem? – Muito. – sorri ao lembrar. Ele também sorriu, mas seu sorriso não tinha nada de egoísta. Na verdade, era um sorriso caloroso, compartilhando alegria e cumplicidade. Não era um gesto vaidoso, mas sim uma expressão genuína de contentamento, como se estivesse verdadeiramente feliz por mim. Era como se o ato de me ver feliz fosse mais significativo para ele do que ficar com ciúmes por meu novo amigo. Já se passaram dois meses desde que estava na casa do senador Lowtner, uma realidade estranha, já que às vezes acordava pensando ainda estar no manicômio. O contraste entre o passado e o presente, entre os períodos de reclusão e a atual sensação de liberdade, frequentemente me fazia duvidar se aqueles dias tumultuados eram apenas uma lembrança distante ou uma sombra persistente em minha jornada. Christian me puxou pelo corredor para dentro do quarto, animado: – Temos um plano B! – Temos? – perguntei, confusa. – Temos! – ele se empolgou a cada palavra dita. – E qual é o plano? – indaguei. – Não envolve polícia ou escritórios, né? Ele cerrou os olhos, levando na graça minha provocação. – Não, Isabel! Envolve o manicômio, vamos voltar lá. – Ah, é? – O convite de Christian para retornar ao manicômio suscitou em mim uma sensação ambígua. A ideia de revisitar o local que se tornou meu confinamento involuntário evocou lembranças. Apesar de não ter sido maltratada pelas enfermeiras, exceto por ocasionais punições impostas pelo diretor, uma certa hesitação me envolvia. A perspectiva de encarar meu passado, de enfrentar as sombras que permeavam aqueles corredores, despertava uma ansiedade latente, mas também uma curiosidade inegável. – Estou ansiosa. – Sabia que toparia, Isabel. – Falou, depositando um beijo na minha bochecha. Ele saiu do quarto, mas antes que pudesse reagir, segurei levemente seu braço. – Christian? – chamei. – Mas e o senador? Ele não vai deixar, e eu não quero mentir pra ele – pausei – Não de novo. – E não vamos.. Nós vamos dizer que voltaremos lá para visitar as enfermeiras e m***r as saudades. Não vai ser mentira. Ele tinha razão. Seria impossível ir lá e não falar pelo menos com a metade das pessoas. Quem diria que eu falaria alguma coisa. Graças a Christian. – Tá. Entediada e ansiosa, decidi xeretar pela janela do meu quarto. Enquanto espiava, avistei Philip deitado na grama do jardim. A curiosidade instantaneamente me impeliu a ir ao seu encontro. – Oi. – olhando-o de pé. Ele ergueu os olhos, e lá estava eu, envolta por cachos dourados que dançavam com a brisa. O sol destacava nuances de tons radiantes em meus cabelos, e meu rosto estava adornado por uma coroa de flores, presente generoso do Senador Lowtner. Minhas vestes incluíam um cardigan branco de mangas compridas, escolhido entre os itens gentilmente deixados sobre minha cama na manhã passada. – Oi. – pareceu surpreso. – Tudo bem? – Sim, só estou pensativo sobre uns assuntos. – Quais? – perguntei, mas cocei a garganta ao perceber que não era da minha conta. – Desculpa. – Tá tudo bem, é sobre a faculdade. Ouvi Christian e o senador chamando-me, sentindo um leve aperto no peito por me afastar de Philip. – Vamos fazer o seguinte, amanhã a gente conversa, okay? - ele disse, e eu concordei, ainda com um olhar voltado para ele. – Tá bem, até amanhã então. Ao me afastar, dei uma última olhada em Philip, que permanecia deitado na grama, antes de me dirigir a Christian e ao senador Lowtner, que esperavam por mim. – Oi, o que houve? – Só queria que me explicasse o que vai fazer no hospício. – pediu o senador, o olhar frio transmitindo seriedade enquanto vestia um terno azul escuro. – Manicômio – corrigi – Eu estava só querendo visitar as enfermeiras. – Mas minha filha, acha seguro? – o senador me olhou com uma expressão surpreendida, como se tivesse soltado essa palavra sem pensar. O título de "filha" era algo novo para mim, e a surpresa estava clara em meus olhos enquanto processava essa informação. – Eu sei que você desaprova isso, mas estou com saudades delas. Elas me ajudavam muito, sabia? – Retruquei, depois de um certo tempo. O senador nos liberou para a visita ao manicômio, mas com a ressalva de que ele não poderia ficar por conta de uma reunião. Ao sair do carro, agradeci-o e chamei-o de pai instintivamente. Ele sorriu, talvez surpreso com o termo, mas a expressão desapareceu rapidamente. Ao entrar na sala da secretaria, onde imaginávamos encontrar o diretor fundador do manicômio, o doutor Jones, uma ansiedade palpável pairava no ar. Batemos à porta e fomos convidados a entrar. Jones não parecia ter mudado muito, apenas um pouco mais corpulento e com a barba mais comprida. Batemos à porta e uma voz sonora nos convidou a entrar: – Pode entrar. – Olá. – eu disse, tímida e medrosa, mas ele não retribuiu com um sorriso ou qualquer gesto amigável. – Então você fala, menina? – Olá, dir. Jones. – cumprimentou Christian ao entrar na sala. – Doutor! – exclamou, abraçando-o efusivamente. – O que o traz aqui? – Serei direto. – Claro. – Estávamos pensando se, por acaso, poderia nos fornecer alguma informação que nos ajudasse a entender melhor a situação de Isabel, talvez algo relacionado ao seu nascimento. – O presidente Lowtner pediu isso? – interrogou Jones, assustado. – Não, senhor. Mas... – Sem mais, rapaz. Não posso dar-te informações assim, como se fosse uma coisa qualquer. – Mas eu estou parada bem aqui. – Envolvi-me – É sobre a minha vida que estamos falando. – E no entanto, você é uma garota menor de idade. – Por favor. – Disse, Christian. – Eu sinto muito, doutor. O que eu posso lhe dizer não acho que serviria. – Qualquer coisa serviria, por favor. – implorei novamente. Ele começou a relembrar o dia em que cheguei ao manicômio, pintando uma versão de mim que eu mesma m*l reconhecia: assustada, frenética e chorosa. Suas palavras descreveram os momentos em que minha mãe tentava me acalmar, prometendo um livro bobo em troca do meu silêncio. O Dir. Jones lembrou das lágrimas da minha mãe enquanto preenchia os formulários necessários para o meu registro no manicômio. A medida que ele prosseguia com seus relatos, eu me via transportada para aquele dia distante, tentando reconciliar a imagem que ele pintava com minhas próprias lembranças fragmentadas e confusas. – E meu pai? Onde ele está? – questionei. – Ele não estava lá... – pausou, retomando a narrativa – Você chegou numa ambulância. A imagem da ambulância se formou na minha mente, uma cena que eu jamais conseguira resgatar por completo. Minhas lágrimas escaparam involuntariamente. – E por quê? Por que ela me trouxe aqui? – implorei por respostas, mas Jones se recusou a fornecê-las. Christian me envolveu em seus braços. – Vamos ver as enfermeiras. – ele disse, enquanto eu tentava secar as lágrimas que insistiam em cair. – Talvez o sótão. – Disse o diretor Jones. Nós o encaramos e ele respondeu: – É tudo que eu posso dizer. Depois da visita às enfermeiras, fomos para casa.
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