Capítulo II-Entre teorias e olhares

1256 Words
Um novo dia desponta, e com ele o sol nasce em toda a sua exuberância. A sua luz vai tocando cada rosto, brilhando sobre peles suaves e bem cuidadas, revelando o valor daqueles que guiam a sua vida por princípios firmes. Num mundo vasto, onde se debatem ideias sobre o verdadeiro sentido da existência, levanta‑se a eterna questão: será a beleza e o cuidado com o aspeto um sinal de vaidade, ou antes uma forma de simplicidade e de amor à vida? Há quem diga que a vaidade traz os seus próprios benefícios: o prazer de viver com intensidade, o espírito aventureiro e a alegria de se sentir bem. Outros, porém, defendem que a verdadeira simplicidade é a raiz de todas as virtudes. Mas afinal… o que vale mais para nós? No campus universitário, Samara corria apressada, como quem perdeu o último voo para a vida, numa corrida desesperada, tal como num sprint de cem metros rumo à meta. Atrasara‑se para a primeira aula do ano — o início de tudo, o primeiro passo para o sucesso da sua formação. Chegou, ofegante, e sentou‑se num canto daquela imensa sala, que parecia um grande anfiteatro. — Seja muito bem‑vinda, colega — saudou o docente da cadeira de Teorias da Comunicação. — Samara de Albuquerque… está atrasada cinco minutos, um descuido que por pouco não lhe teria sido prejudicial. — Peço sinceras desculpas pelo atraso — respondeu ela —. Algo me desviou do caminho e da razão, mas não foi por intenção minha. — Vejo que sabe usar as palavras com propriedade — observou o professor. — É o que procuro fazer, senhor. — Muito bem. Sendo o primeiro dia, e segundo o regulamento, recomendo que comecem a preparar um trabalho de pesquisa sobre as origens e os fundamentos da Teoria da Comunicação. Iremos aprofundar o tema ao longo das próximas semanas. Por hoje, fiquem com esta indicação, para que tenham tempo de organizar o vosso estudo. “A Teoria da Comunicação é, em si mesma, um paradoxo para quem ainda não compreende a arte de falar e de se fazer entender; mas é, acima de tudo, um grande desafio para todos nós que a estudamos.” — Assim faremos, professor — responderam todos em uníssono. A aula terminou e os estudantes saíram para o intervalo. Ao longo dos dias, Samara foi conhecendo colegas que a ajudaram a compreender melhor as matérias, passando longas horas na biblioteca, empenhada em corresponder à razão que a levara ali: estudar e preparar‑se para ser uma profissional da comunicação. Mas nem todos os que se aproximavam dela eram bons exemplos. Alguns tentavam levá‑la a uma vida de distração e descuido, pondo em risco o seu foco e os seus objetivos. Até que conheceu Teddy Maya: um jovem que, no início, a cativou com palavras e versos, parecendo um poeta apaixonado — mas que, com o tempo, revelou uma personalidade diferente, autoritária e convicta de que o seu lugar era sempre o de dominar. — Olá, Samara de Albuquerque — cumprimentou‑a Teddy. Era um rapaz de boa aparência, atlético, com o porte e o sorriso de uma estrela de cinema. — Olá! — respondeu Samara. Sentiu‑se, por momentos, deslumbrada… mas de repente, no meio daquela imagem, surgiu‑lhe na mente, sem aviso, o rosto magro e o sorriso singular do jovem que encontrara na praça: Christof. E com isso, a sua admiração por Teddy perdeu força. — Parece‑me que as boas‑vindas já lhe foram dadas, e que logo no primeiro momento deixou uma marca em toda a turma — disse ele. — Acredito que o encontro e o encanto sejam o motivo por que todos estamos aqui — respondeu ela, pois para si a vida era feita precisamente disso: de encontros e ligações, em cada lugar e com cada pessoa que conhecia. Teddy sorriu: — Pois essa é talvez a lei que a natureza nos oferece. — Pode ser que sim, e que seja justo compreendê‑la assim. — Eu sou Teddy Maya. Muito prazer, Samara de Albuquerque. Deixo‑a agora livre dos seus afazeres; vejo que ocupou um lugar de destaque na mesa principal da biblioteca. Falou com um tom levemente irónico, como se estivesse a provocar‑lhe, como quem brinca com uma borboleta pousada num ombro sereno. Afastou‑se devagar, com um sorriso nos lábios. — Não há propriedade alguma sobre o lugar onde estou — disse ela, em resposta —. m*l saia daqui, esse espaço fica livre para quem o quiser usar. — Não me interprete m*l, Samara. Disse‑o apenas por ocasião do momento. — Uma ocasião que revela pouca contenção. — Na minha perspetiva, a seriedade excessiva é uma forma de defesa um pouco pobre. — Não estou a defender‑me de nada, nem estou em julgamento. Apenas falo como vejo. — Se me permite dizer, em breve talvez tenha de o provar, como que num julgamento simulado, para ver como defende os seus argumentos. — Não será preciso. Não vejo motivos para transformar uma simples conversa em disputa. — Samara… desse modo, só me faz desafiar‑te ainda mais. — E que desafios seriam esses? — No momento certo, ficarás a saber quais são as minhas intenções. — Julgas que desta forma, com esta aproximação e esta conversa, podes criar alguma ligação comigo? — Longe de mim querer impor‑me… mas a verdade é que a tua presença e a tua aparência fazem com que sejas, naturalmente, o centro de todas as atenções. — Desculpa? Não percebi… — Em ti há tudo o que é belo, tudo o que se pode admirar. — E dizes isso sob que ponto de vista? — Pensa tu como quiseres. Agora vou‑me embora, deixando apenas promessas que ainda não cumpri. — Então vai. Mas fá‑lo com boa intenção, e não despertes em mim curiosidades que não tens intenção de satisfazer. Quem sabe, talvez noutra altura… — Acredito que o tempo há‑de favorecer‑nos a todos. Até breve, colega Samara. Ele afastou‑se com um sorriso tranquilo, como quem já tivesse atingido metade do seu objetivo. Para ele, conquistar era como um jogo de tabuleiro, uma partida de damas — só que com Samara, sabia que teria de ser muito mais astuto e prudente, como um lobo que observa com cuidado antes de agir. Samara sorriu, ao vê‑lo ir, achando graça àquele comportamento. Estavam na biblioteca, um espaço que parecia um museu, com prateleiras cheias de obras clássicas, textos académicos, teorias científicas e todo o tipo de conhecimento acumulado. Ali, ela concentrou‑se novamente na sua pesquisa sobre a Teoria da Comunicação, lendo com atenção e anotando tudo o que podia servir para fundamentar o trabalho que iria apresentar. O sol foi descendo até ao último brilho do dia. Samara arrumou os cadernos e livros, devolveu‑os às prateleiras e dirigiu‑se ao alojamento estudantil. Mais tarde, seguiu para o refeitório: uma refeição diferente do que estava habituada em casa, o primeiro passo para se adaptar a esta nova realidade do campus. No quarto, com as colegas de residência, as conversas corriam soltas. Cada uma com a sua personalidade: umas mais inteligentes e ponderadas, outras nem tanto; havia ainda a que se destacava pela vaidade e exuberância, e que sonhava com os atletas do clube desportivo da universidade.
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