Foi uma tentativa vã de a fazer parar, pois para Teddy, o desafio agora parecia-lhe maior do que nunca. Queria, a todo o custo, viver com ela o que imaginava ser um amor ideal — como se ainda estivéssemos na alegoria da caverna de Platão, vendo apenas sombras do que realmente existe.
Samara seguiu o seu caminho, e Teddy teve de se entregar ao seu desporto, a única coisa que o consumia por completo. Era, no fundo, um menino rico, filho de pais cujos nomes estavam em todos os cartazes das ruas de acácias.
Recordo os tempos em que sonhar parecia algo simples, ao alcance da mão. Quando olhar para o céu era apenas admiração pelas estrelas que cobriam o mundo, e nas noites de lua cheia, ela própria nos servia de luz na calçada, ao som de conversas leves e de boas maneiras. Hoje, restam-me apenas essas lembranças e uma dúvida sobre o amanhã: será que um dia conseguirei partir e conhecer outros lugares?
Era uma noite de céu limpo, onde as constelações pareciam estar mais perto. Eu ali, junto à minha janela, com uma chávena de café, a olhar para aquela imensidão. Será que Deus é mesmo bom? — pensei, logo em seguida a repreendendo-me por tal pergunta.
E como se os meus próprios pensamentos não me dessem tréguas, vieram-me à mente os dias com Sindy — aquela intensidade que me tomou de assalto, sem medida nem piedade. Ela é certamente uma alma livre, ousada em todos os sentidos. E já há algum tempo que não sei dela; mas creio que estará bem, a viver a sua vida como só ela sabe fazer. Nunca lhe faltou nada.
Por acaso, ao abrir uma gaveta, dei de cara com a carta que escrevi para Samara. Que loucura a minha — pensei — talvez precisasse mesmo de ajuda para entender esta paixão que parece não ter caminho. Mas a noite estava tão bela, o céu perfeito… e eu ali, a desejar que assim permanecesse para sempre.
E enquanto eu olhava as estrelas, do outro lado da cidade, Samara fazia o mesmo. Também ela se perdia naquela beleza, e a sua mente voltava ao rapaz que conhecera na praça. Será que nos voltaremos a encontrar? Devo procurá-lo? — perguntava a si mesma. Mas depois afastava o pensamento, como se fosse algo impossível, um sonho que não devia sequer existir.
E assim vivíamos: separados, sem notícias, sem palavras que dissessem “saudade”. Os meus sentimentos pareciam pertencer a um universo que só eu criei, à volta de uma paixão que talvez só existisse na minha imaginação. A noite foi-se fechando e eu me deitei, pronto a viajar em sonhos por mundos que ainda não conheço.
Quando o sol nasceu, o ruído da cidade acordou-nos de novo. Faltavam apenas dois meses para o ano acabar, e todos já sonhavam com o tempo de descanso e com o reencontro com quem amavam.
— Eu vou passar um tempo nas Ilhas de Bazaruto — disse João.
— Que escolha excelente — respondeu Kaleb.
— É um lugar onde quero sentir-me verdadeiramente vivo, mergulhando naquelas águas.
E todos rimos, como crianças que brincam de matocozanas.
— Se te lançares às águas, cuidado com os perigos que o mar esconde.
— Deixa-te desses avisos maus, Kaleb. Não creio que haja passeios onde o perigo nos espere à toa.
— Pois bem… apenas toma cuidado para que nada te surpreenda de forma inesperada.
Riram-se ambos, mas eu mantive-me focado: estava a reparar as juntas cinéticas de um carro que ali chegara logo pela manhã.
— Christof! — chamou-me Kaleb.
— Estou aqui.
— Eu e o João falávamos no que havemos de fazer na virada do ano. Tu já tens alguma ideia?
— Não sou de grandes planos para essas datas. Fico por casa, prefiro a calma.
— Ora, Christof… deixa-te desses hábitos antigos. Já cresceste e precisas de te divertir de vez em quando.
— A alegria faz parte da vida, sim. Mas eu prefiro guardar-me para o que realmente me importa.
— Hoje pareces-me muito sério, como se carregasses pesos que não existem. Tens a certeza que estás bem?
Disse-o porque não estava habituado a ver-me assim tão recolhido. E a verdade é que eu já pensava em partir para outra província: em procurar novas oportunidades e em estudar para melhorar o que sei. Mas não lho podia dizer ainda — receava que ele se sentisse desamparado.
— Não há nada de errado. Apenas quero terminar este trabalho com atenção. Estou bem, amigo. Fica descansado.
— Está bem… se é assim que o dizes, acredito. Vamos continuar.
Voltei-me então ao serviço, para entregar o carro ao cliente na hora certa. Pouco depois, chegou o Senhor Fernão com notícias: iria viajar para uma região distante, para uma reunião de família, e pedia que todos fossem cuidadosos na sua ausência.
Naquele instante, senti que o destino me batia à porta. Talvez fosse a minha oportunidade de partir — e quem sabe, de encontrar Samara por acaso outra vez. Mas calei-me, guardando tudo no coração, à espera do momento certo para falar com Kaleb.
E o Senhor Fernão continuou:
— Ah, e parabéns pelo empenho que têm mostrado. Por isso, deixo-vos a cargo desta oficina até ao meu regresso. O João será o responsável geral, e Kaleb ajudará em tudo o que for preciso.
Aquelas palavras do Senhor Fernão quase fizeram desabar tudo o que planeava. Como lhe diria que também eu queria partir para o outro lado da província? E como fazer isso sem que Kaleb percebesse antes do tempo?
— Fique descansado, Senhor Fernão. Cuidaremos de tudo como se fosse nosso — respondemos em uníssono, aceitando as suas recomendações.
O dia deu então os seus últimos passos. A praça continuava cheia de gente, prova de que o mundo está sempre a fazer nascer esperanças e momentos que parecem vitórias. Fechámos a oficina e seguimos cada um para a sua casa, com a promessa de mais trabalho pela frente. Mas comigo vinha também aquela sensação de solidão, que me trazia reflexões sem fim sobre o futuro que tanto desejo alcançar.
A noite aproximou-se, trazendo apenas a certeza de que a vida se faz também de encontros casuais. E falando em acaso, lembrei-me de Sindy. Apesar da sua ousadia, fazia já parte de mim — daqueles passos que dei, perdendo a inocência para descobrir o que é sentir com intensidade. Pergunto-me onde estará, se anda por aí à procura de mais aventuras ou se, noutro canto do mundo, vive da mesma forma intensa que a faz ser quem é.