Dobrei a carta e guardei-a no envelope. Mas a curiosidade de voltar a ler o que saíra de mim, escrito no calor da imaginação, foi mais forte — e reli-a por duas vezes. m*l podia crer no quanto aquela paixão, que parecia existir só em mim, me havia transformado: fez-me olhar para a vida com outros olhos, com mais vontade de a apreciar.
Não me custa admitir que aquelas linhas são confissões de quem é apenas humano: de quem sente, de quem precisa de correspondência, de quem ainda é jovem e quer viver tudo o que a vida tem para dar.
Ao terminar a segunda leitura, os meus olhos já pesavam, pedindo descanso. Voltei a guardar a carta no envelope e coloquei-a na gaveta onde guardo os meus pertences mais íntimos — o lugar onde moram os meus sonhos e imaginações. Depois, caminhei até ao quarto e deixei-me cair na cama: o corpo cansado, mas a alma certa de que recuperaria forças ao atravessar essa pequena morte que é o sono, em noites estreladas como esta.
E ali estou eu, deitado, ao acomodar a cabeça no travesseiro, e mais uma vez ela vem à minha mente: Samara. Sorrio sozinho, de uma forma tola, e até me pergunto se não precisarei de um médico para ver se estou em pleno juízo — se será normal deixar-me levar assim, como quem caminha para uma camisa de forças e para um asilo. Um asilo?
Rebati com os meus próprios pensamentos: mas não será o amor também uma forma de loucura? E se os que amam são chamados de loucos, em que mundo é que isso se encaixa? Mas afastei de mim essa ideia, e num instante, apaguei a luz como se soprasse uma lamparina, e entreguei-me ao silêncio.