O jantar para a herdeira

2971 Words
POV DEMETRIA Fomos convidados para o jantar depois de constatarem meu sangue real. E adentramos o palácio de pedras claras que se destacava contra o véu da obscura noite que nos cercava. Eu conhecia cada corredor e lugar desse palácio. Mas tive que fingir vislumbre. Era uma peça. E eu sempre fui uma boa atriz. Chegamos a sala de jantar e a gigantesca porta dupla dourada se abriu expondo o chão de mármore tão familiar que brilhava e parecia reluzir para mim. Os candelabros que pareciam lustres no teto com as velas acesas. Havia uma lareira acesa atrás da mesa na posição horizontal e que ficava posicionada detrás para cadeira onde Alexander se sentaria que era na ponta e antes era meu lugar quando fui monarca. Janelas em forma de arco deixando que víssemos o espetáculo do céu. E a mesa de jantar estava na horizontal também para quem adentrava ao salão. O teto com pinturas da Fênix e o sacrifício de Adam. Os sons dos meus sapatos novos ecoado no salão já que aqui a moda se assemelhava a era vitoriana e não aos antigos gregos como em Dragomir o aos antigos egípcios em Ratifar. Uma grande mesa de mogno com quatorze lugares e com uma toalha de renda branca e vários pratos servidos e talheres de ouro, pratos também dourados e taças de cristal com bordas douradas. Era uma bonita mesa. E estava posta com um grandioso pernil, batatas assadas, pão, queijo, uvas, frutas da estação e outras coisas. Alexander parece mesmo contente por ter uma filha. Que intrigante. Me solicitou vestimentas mais apropriadas para nossa pátria. Agora eu usava um vestido com saia vermelha feita de seda e que descia rodada, e espartilho por cima do tecido da blusa de manga comprida onde as curvas ficavam evidenciadas mas não expostas como o quase lençol transparente com broche que era a vestimenta draconiana. Era bem melhor não sentir que estava nua mesmo vestida e sentir calor do quer me sentir refrescada e parecer estar nua. Eu tomei um profundo suspiro sentando-me na cadeira indicada por Alexander para mim que era ao lado esquerdo dele. E minha mãe sentou-se no lado direito de frente para mim sem me olhar na cara. Posso julgá-la? Tecnicamente a princesa Sarah vai ser um empecilho para a volta de Demetria já que se Demetria não se casar com Iker como retomará seu trono? Mas tenho certeza de que se minha mãe soubesse o que aconteceu no passado, ela entenderia o motivo de eu estar fazendo isso agora e ter me tornado Sarah, a bastarda do “rei de Fenit”. Iker sentou-se ao meu lado e Vince ao lado de Iker. Já no lado direito e de minha mãe, Kalahan, a irmã mais velha dele Hinata e a mãe dele Anna. E assim o jantar teve início e senti que o olhar de todos estavam sobre mim. Era estranho ser observada como se tentassem achar qualquer erro em minha etiqueta. Mas não tinha. Cecily se certificou disso quando nos tornamos amigas, e me disciplinava impiedosamente dizendo que Iker se envergonharia de mim se eu comesse daquele modo torto e desesperado. Essa nossa amizade aqui parece bem difícil de acontecer. — Algum problema? — Os questionei impaciente que fosse observada como se quisessem que eu mostrasse que não era digna de ser uma princesa. — Nenhum querida. Eles só não esperavam que fosse como é. Seus modos são impecáveis à mesa, filha. — Alexander conciliou calmo e parecendo orgulhoso de mim. Já do lado de minha mãe só senti austeridade e ódio. — Uma verdadeira princesa até nos gestos além da aparência. Minhas bochechas ganharam cor e por algum motivo meus lábios se curvaram num sorriso. Foi bom sentir que alguém, mesmo esse alguém sendo ele, estava feliz por eu estar de volta em casa. Minha própria mãe não me reconheceu e eu saí do útero dela. — Majestade, a minha proposta sobre desposar sua filha só será válida se cumprir sua promessa de oficializá-la e torná-la a princesa herdeira. — Iker falou. Sempre pensando em poder esse maldito. Mas ao menos ele estava disposto a se casar comigo Sarah, e não Demetria. E isso não porquê tinha uma obrigação com o pai dele, mas sim porque me desejava. Isso me fazia ficar bem menos irritada em ser uma mercadoria. — Irei torná-la minha herdeira, alteza. — Alexander o notificou, e ele me analisou calmo. — Mesmo que Kiera conceba, como já os informei, Sarah como minha primogênita será rainha se algo me acontecer. Minha mãe deixou os olhos encontrarem os dele com horror e raiva incomensuráveis. Já eu, de certa forma, eu me senti estranha com essa declaração se analisasse meu papel como Sarah a filha bastarda dele e não como Demetria a filha de Luther. Aqui eu era uma bastarda, mas por ser a filha mais velha dele, mesmo que ele tivesse filhos com a esposa oficial, eu ainda teria direito ao trono e seria a primeira na linha de sucessão. Essa atitude é um tanto interessante e justa. Se não tivesse sido meu pai a perecer nas mãos dele por essa causa, eu o admiraria profundamente. Que sensação estranha. Estou vendo essa história um pouco pelos olhos dele agora. Meu pai não teve culpa de ser o príncipe herdeiro claro, mas o meu avô teve culpa de não ter reconhecido Alexander como filho e o oficializado. Esse trono pela lógica e se justiça fosse feita era para ser mesmo do meu tio. Sim, meu pai era um homem bom pelo que ouvi, mas o trono realmente era de Alexander por ser o mais velho. — Sarah, filha... — Alexander me chamou. — O que há com esse rostinho? Não gostou da comida? — Não, é que... minha garganta parece fechada... está difícil engolir algumas coisas só isso. — Eu inventei rápido forçando um sorriso e bebendo o vinho. — Mas o jantar está delicioso. Meus cumprimentos aos cozinheiros. Alexander assentiu com a cabeça parecendo surpreso pela educação e os meus cumprimentos. Já Kiera apenas revirou os olhos. Mamãe, eu sou sua maldita filha! Somos iguais uma a outra quase! Apesar de não ser mais Demetria. Sinto muito. Abdicarei desse nome para ser feliz. Alexander vendo Kiera me menosprezar apenas a tocou como um pedido angustiado para que ela me olhasse: — A adaga brilhou com nosso sangue juntos nela. É inegável que ela tem sangue real. E ela parece com você. Não pode vê-la como sua filha? — Ele a implorou quase. Kiera se negou. Alexander deu um suspiro e disse: — Se eu tenho uma filha, fico feliz que ela seja alguém cheia de graça, educação e beleza como você, Sarah. Não se sinta incomodada se parece que não é bem-vinda. Saiba que aqui é sua casa e sempre será. E se o matrimônio com o príncipe de Dragomir é o que deseja e que Kalahan seja seu protetor em Dragomir, assim o será. O que está acontecendo? Essa sensação é estranha. Alexander parece ser capaz de me dar o mundo se eu o pedir. Minha mãe me rejeita e meu tio que matou meu pai me acolhe? — Agradeço pai. — Consegui dizer magoada profundamente com Kiera mesmo entendendo seu ponto. Ele sorriu para mim e voltou a comer ignorando a indignação da minha mãe. Kiera apenas se levantou da mesa. — Aproveite o jantar, mas para mim e para todos os outros mesmo que ele te oficialize não passará de uma bastarda. — Ela falou para mim cortante e sem me olhar. E falou em um draconiano impecável: — Príncipe Iker, estou decepcionada com você. Eu me levantei da mesa e revidei também em draconiano mesmo que não tão bonito quanto o dela. — Eu serei a esposa dele. Esqueça todo o resto. Você não sabe o que acontecerá com as pessoas para que sua filha reine. Sua vingança particular não tem poder aqui. Esqueça o passado. Nós duas além de Iker e Vince parecemos ser as únicas a falarmos a língua. Alexander nos observa confuso. Eu insisto em draconiano: — Deixe o passado enterrado, majestade. Para que no fim não seja pessoas enterradas. Vingança não vai reviver Luther. E trazer sua filha de volta não vai trazer nada além de dor para ela. — Você sabe? Foi por isso que seduziu o príncipe? — Ela me desafiou na frente de Iker. Iker me encarou por um longo tempo com acusações mudas. .................................................... O quarto cedido a mim era o terceiro melhor quarto do palácio. Isso considerando-se o fato de que o de Alexander era o aposento real que me pertenceu, o de minha mãe os aposento da rainha. Os dois mesmo sendo marido e mulher dormiam em quartos separados. Era protocolo um rei e uma rainha terem quartos separados e só se encontrarem para conceber. Mas duvido que com Iker e eu seria algo assim. Não mesmo. A tradição de se encontrar para dormir juntos só para conceber estava fora de cogitação quando eu me casasse com ele e ponto. Eu ia fazer questão de dormir agarradinha com Iker todas as noites. Eu hoje estava, particularmente, inquieta. Quer dizer, primeiro a adaga maldita brilhando como uma vez o colar brilhou, o desprezo de minha mãe no jantar que resultou na desconfiança de Iker sobre minhas intenções. E agora essa história toda de princesa bastarda Sarah e para quê? Ah é, para meus aliados não se ferrarem novamente por um maldito rubi me reconhecer como a maldita rainha de Tretagon. O rubi. O rubi tá com a mamãe pelo que sei. Ótimo que o maldito rubi continue escondido por oito anos. Bem, não está nos meus planos tomar o trono de Alexander ainda, e com ele me tratando tão bem assim e analisando pelo ponto de vista dele sinto minha já tão fraca decisão de ser Demetria aqui oscilar ainda mais. E se Alexander morrer o trono passará a ser meu de qualquer jeito. E agora que eu sei no que minha sede de vingança ocasionou, Demetria nessa realidade alternativa do espelho está morta e enterrada. Sarah vive feliz pelo menos por oito anos. O janelão de vidro duplo, que na realidade é uma porta que leva a uma sacada com vista para os jardins, está aberto. A friagem da noite adentra no aposento fazendo com que eu me arrepie. A lua de sangue gigantesca pintada no véu escuro da noite penetra a atmosfera banhada por lamparinas do quarto numa agourenta cor de sangue. E novamente, eu ouço o som da maldita flauta de Serper e isso me paralisa! Nesse mundo eu ainda não lutei contra ele. Estou no passado e o passado se tornou meu novo futuro. E eu não vou abrir mão desse futuro feliz onde tenho todos os que estimo vivos por nada. Nada. Chega de sacrifícios e de pensar em outros acima de mim. Chega! Mesmo que o inferno esteja me pregando peças! Essa realidade, eu a quero desesperadamente. E dessa vez, eu não vou quebrar essa ilusão por nada! O janelão destrancado me fez ir até ele para fechá-lo. Contudo um vulto me faz parar. E meu coração disparou porque o reconheci mesmo de costas. Seu cabelo preto curto e espetado e a coroa de bronze que se assemelha a uma coroa horrenda de espinhos. E lágrimas veem aos meus olhos. Ele está diferente de quando o conheci, algo impiedoso no vulto quieto que admira a lua com as mãos sobre o parapeito. E se com Iker meu corpo falou por mim, com Kai minha mente grita e meu corpo dispara para ele. Eu corri até ele. Ele se virou para mim. Eu o abracei desesperadamente ficando na ponta dos pés e os fungos e as lágrimas desciam enquanto beijava seu rosto desesperadamente e como ele não era Iker, mesmo que eu ansiasse também por seus lábios, me contive. “Kai. Kai. Kai. Meu amado deus melancólico.” Eu gritei na minha mente por ele. “Eu posso morrer agora, Hella. Eu o vi, de novo. Meu querido Kai. Minha noite eterna. Meu deus da carnificina.” Mas Hella não apareceu com sua foice e sua bela figura esguia e de longo cabelo que ia até a cintura e me fazia querer cortejá-la. Eu não a desejava mais. Minha ânsia por Hella cessou de vez agora que eu também o tinha aqui. Ele me recebeu em seus braços, surpreendentemente, no abraço apertado cheio de saudade só da minha parte, já que ele ou melhor essa versão dele não me conhecia. Mesmo assim não me afastou parecendo compreender meus sentimentos e me deixar tocá-lo mesmo expressando ligeira confusão em seus olhos. — Não é uma ilusão de Serper como a que já esteve antes com a melodia da flauta. Eu não sinto o poder dele aqui mesmo havendo sim certa influência que deve ter ocasionado a quebra do espelho. — Foi só o que ele disse, divagante. — Uma nova realidade se moldou com a quebra do espelho, Demetria. E nessa realidade você está aqui antes da hora. A criança escolhida pela escuridão e também pela luz. Eu meneio a cabeça grata por sua sabedoria, mas não preciso de lembretes de profecias antigas. Faço questão de lembrar de tudo o que vivemos numa outra vida. De Kalahan indo me buscar na Terra, de nós dois atravessando o espelho para Tretagon, da guerra de Dragomir e Fenit no inverno, da morte chocante de Kalahan, de como Kai e eu nos conhecemos, dele transformando Iker, de seu romance com Fedrer... E então deles morrendo. E a memória da infelicidade que sentar no trono de Fenit e ser rainha me trouxe. Kai apenas me toca no ombro. Seus olhos violetas inconfundíveis. — Calma. Devagar, amor. Me deixa assimilar tudo e tente não influenciar com os seus sentimentos de culpa. — Me parou e comecei a respirar lentamente e tentar me recordar de tudo para mostrá-lo e sem opinar ou me acusar. Depois de um bom tempo nesse filme mudo que se tornou nós dois de frente um ao outro enquanto eu o concedia tudo de mim a voz dele ecoou: — Eu compreendo tudo o que me mostrou e sei que é verdade, não precisa me comprovar nada. Sei que ele ainda não é aquele que conheci, esta versão ainda bebe sangue humano e é um impiedoso rei, mas mesmo assim eu sei que o amo. Kai ignorou minha declaração e apenas disse firme: — Eu tinha que vê-la. A lua de sangue me assombra, essa é a lua de Serper, Demetria. Mas se escolheu a Fênix antes, agora também o fará quando a hora chegar. Olá, Sarah. Se é este o nome que escolheu e essa história que quer, ainda tem acesso a realeza de Fenit e se virou bem sem mim. Conseguiu ter acesso com Sarah, a bastarda a tudo e vai se casar novamente com o seu amado. — Kai. — Eu falei seu nome ouvindo-o em minha própria voz trêmula e sem conseguir acreditar ainda. — Kai. — Majestade, eu estou aqui. Não na versão que conheceu. Mas estou aqui. — Ele me acalentou com piedade. Eu o beijei no rosto ficando na ponta dos pés para tal feito. Ele era frio contra meus lábios, contudo não me importei. E ele me abraçou forte parecendo entender a saudade de minha alma mesmo que não a partilhasse. — Acalma-se, pequena rainha. Shi. Acalme-se. — Pediu a mim. Mas eu não conseguia me controlar. Eu não queria soltá-lo nunca. Nunca! Kai apenas me fez largá-lo de uma maneira um tanto brusca e me analisou com as mãos frias como blocos de gelo em meus ombros e o peito dele subia e descia rápido como se a respiração dele também estivesse comprometida como a minha. — Não é prudente que abrace um ser como eu quando está de casamento marcado com seu amado príncipe. E eu não sou aquele que conheceu ainda. Ainda não abdiquei do sangue humano. E seu cheiro é tentador. — Beba. — Eu pedi. — Já bebeu antes junto com Iker e te fará contemplar o sol, você quer ver o sol, eu sei. Pode beber. Eu te dou. — Eu falei querendo que ele entendesse a nossa i********e. Com Iker foi na carne que demonstrei meu amor, com Kai seria no sangue. Estendi meu pulso. O pescoço era muito íntimo. Mas se ele quisesse também podia beber do pescoço. Ele não gosta de mulheres mesmo, então não teria problema. Kai apenas sorriu de algo e me analisou. — Pelo visto você me amava profundamente, não é? — Ele disse isso. Eu assenti com a cabeça. — Eu queria tanto ter unido você e Fedrer. — Eu contei a ele. Ele me tocou no rosto e assentiu com a cabeça me estudando e me analisando como se tentasse compreender algo. — Queria tanto que tivessem se tornado companheiros um do outro e que fossem felizes... Queria meu Iker ao meu lado e você e Fedrer em sua forma humana junto a nós. Queria ter visto Gaia adulta, Wereck ao lado dela. Eu... Ah, Kai... Eu morri depois que perdi vocês e por mais que eu a cortejasse, a Morte foi afastada de mim. E novamente as malditas lágrimas embaçando minha vista. — Demetria, amanhã conversamos mais. — Ele beijou minha testa. — Tem que voltar para a Fortaleza das Sombras, não tem? — Perguntei angustiada em me separar dele. Ele me abraçou. — Tenho que voltar. Mas não se desespere. Venho te ver todas as noites se assim o desejar, Demetria. Eu coloquei a mão na boca dele e neguei com a cabeça. — Sarah. — Eu falei o nome. — Demetria morreu. Agora eu sou Sarah. Ele assentiu com a cabeça.
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