NARRADOR
DEMETRIA
Estava presa, os pulsos doíam pelas algemas de metal contra sua carne pálida que se avermelhou, mas não era só isso, quando se mexia, elas tomavam uma cor de brasa e queimavam. Quando descobriu isso deu um grito. Com a coleira em seu pescoço que limitava a movimentação era a mesma coisa. Acordou com uma dor horrível no peito, a garganta seca a um extremo que sentiria que morreria se não bebesse água. A pequena rainha despertou num imenso porão de pedras nuas e com musgo nascendo, não havia comida e nem água.
Observou alguns esqueletos naquela câmara como aconteceria com ela. Podia sentir o cheiro de umidade, um vago cheiro de maresia e sentir o gosto de sangue na própria boca. No meio, na parte coberta onde fica o coração e de onde a espada que a violou foi tirada, o tecido da cota de ferro havia sido destruído a deixando exposta. E o rubi era a única coisa que brilhava na escuridão, ela obrigou-se a sentar mesmo com frio e fome e que cada movimento que indicasse uma fuga fizesse essas correntes mágicas a queimarem.
E então a luz de uma tocha ao seu lado se acendeu e o viu descendo as escadas com uma bandeja de comida. Logo várias outras tochas seguiram a primeira dando-a visão de um fosso. O homem de longo cabelo azul e alma perversa foi para frente dela. Conjurou com seus poderes azuis uma cadeira elegante e pomposa no lugar antes estéril. Sentou-se na frente dela. Cruzou as pernas e a encarou.
— Você não morre mesmo em. — Comentou sádico. Ele a estudou, cruzou as pernas e colocou a mão delicadamente no joelho ainda a mirando com os olhos rubros. — O que tem de errado com você achando que pode me enfrentar?
— O que acha que a palavra imortal significa, babaca? — Ela perguntou desdenhosa. — E eu consegui cortar essa sua cara petulante. Isso quer dizer que você sangra. E se sangra, eu vou ter prazer em te fazer sangrar muito mais por atrapalhar minha vida. Vem ao meu reino com sua escuridão torpe e acha que eu não vou fazer nada a respeito? Eu sou a maldita rainha escolhida pela Fênix.
Um tapa pesado na cara dela. Demi sentiu o gosto de sangue e riu para ele, o fazendo odiá-la mais. Mas logo sua pele se recuperou do tapa dele.
— Interessante. — Comentou o desconhecido. — Mas como é imortal? Não bebe sangue da criação torpe dele. Não é uma de nós... Os filhos cósmicos. Não é um anjo. Não é um demônio e não é o meio termo. E pelo que sei do Deus sádico que segue, ele não faz qualquer pessoa imortal sem que esse alguém abdique de si mesmo. Como virou Imortal e venceu meus irmãos? Como venceu Hela e Tempo?
— Hela é sua irmã? — Demi perguntou. Os olhos vermelhos dele se encontraram com os dela.
— Somos cinco irmãos cósmicos, Acaso, Tempo, Mediador, Desgraça e Morte. Hela é a...
— Morte. — Demi completou por ele.
Ele a mirou, se estava surpreso por ela saber, não demonstrou, apenas a estudou profundamente e apenas deu um sorriso de lado. E Demi sem temer pela própria vida o estudou de volta sem a submissão que ele esperava. A luz dela era incômoda, o conforto da alma que ela trazia.
— Ela não gosta de Morte quando gosta de estar perto de alguém, acho que pensa que a alcunha é muito forte. Por isso prefere ser chamada de Hela para que possa se aproximar dessa pessoa sem a causar o temor que sua verdadeira natureza tem. — Constatou a jovem.
Dessa vez, ele ofertou uma uva que comia a ela sem nada dizer. Demi estava faminta. Ia aceitar, mas então ele negou com a cabeça para a mão estendida dela. Ela rosnou e então abriu a boca se sentindo humilhada. Ele colocou a uva na boca dela com o polegar. E limpou a seiva que escorreu da boca dela, passou o polegar pela própria boca depois com um sorriso debochado que mostrava os dentes brancos.
— Então conhece minha irmã mais velha? Foi assim que a burlou? A seduziu? — Houve uma demonstração de emoção da parte dele que logo se desfez.
— Hela é competente em seu ofício. — Demi se enfureceu. A movimentação fez a corrente a queimar. Soltou um silvo de dor. — Por mais que gostasse de alguém e simpatizasse com ele, não o pouparia. Porque essa é a sua natureza. É triste, mas ela é a ceifeira e tudo que ela toca morre.
— Então segundo você não podemos mudar nosso destino, não é? — Ele riu. A gargalhada diabólica ecoou por todo o local límpido. — O que devo fazer com você rainha escolhida pela Fênix? Do que esse maldito rubi te adiantou até agora quando o verdadeiro m*l que não é uma peça do xadrez sádico da divindade apareceu? Só que eu não posso te matar, bem que eu tentei, mas você é uma v***a forte demais. Devo te deixar presa aqui até que esteja tudo concluído.
— O que esteja concluído? — Demi perguntou firme. Contudo tremia.
— Ah, aí é que está... Por que eu deveria te dizer? — Caçoou dela.
Num movimento mágico fez as correntes mágicas no corpo dela serem absolvidas para dentro do corpo dela. Tornando-se sombras de corrente. Ela parecia livre. Mas estava espiritualmente presa a ele.
— Entenda agora que é minha prisioneira. — Deixou-a ciente. Foi até ela e tocou o rosto dela. — E se qualquer um dos seus aliados pensar em vir te salvar e invadir o meu reino, eu os mato na sua frente. Eu vou tomar o seu reino, depois Tretagon, depois a Terra e todos os mundos depois deste. E então eu vou dizer ao filho da p**a que me criou o quanto o odeio e que eu sou o novo Deus. E você será a minha serva. Me desobedeça e será castigada com tanto afinco que desejará a morte. Está solta dessas correntes na forma física, mas de forma espiritual está presa a mim enquanto nós dois vivermos e ao que parece será até o fim dos tempos. Se eu morrer, você perece junto comigo, e como é imortal ficará presa onde antes era o meu lugar. Acostume-se a ser minha escrava. E se tiver a ideia i*****l de tentar fugir eu vou te caçar. E o castigo, ah... eu vou fazer você implorar para que eu te mate.