Morgana

1764 Words
POV KAI Morgana apenas sentou-se de frente para mim no gabinete de assuntos oficiais do Castelo Sombrio. Era uma sala esquecida onde havia duas poltronas de pele de urso pardo agora ocupadas por nós, a mesa de ébano entre nós, alguns candelabros, as prateleiras de madeira cheias de pergaminhos e a lareira crepitando. A janela em arco iluminava com sua fraca luz rubra vinda da lua. A lareira iluminando sua face de um lado e suas sobrancelhas escuras e bem desenhadas estavam arqueadas se franzindo com se muito pensasse, sua mente era fechada para mim e eu podia só captar sombras vagas de pensamentos muito tristes e eu fazia questão de quebrar essa conexão para não ser sugado pela escuridão de Morgana. Havia algo no vulto quieto e pálido de Morgana que me inquietava. O chão preto de mármore brilhava parecendo engolir a nós dois. Ela apenas soltou um suspiro e me analisou me estudando. Ela era alguém melancólica, quieta e reservada. Sua mente sempre voltava aos tempos em que era humana. Odiava o que era. Odiava sangue. E ao mesmo tempo contentava-se tristemente que aquela fosse sua natureza e era uma deusa da carnificina muito sangrenta geralmente sem medir suas forças quando agarrava os humanos e sem querer os matava só com o aperto dos seu corpo indestrutível.  Era muito filosófica. Questões muito existencialistas. Apesar de nunca pronunciá-las em voz alta para guardar sua agonia só para si. — O que a incomoda, adorada? — Questionei. — Nicolas. Eu o vi deixar seus aposentos essa madrugada, antes dos portões do castelo se fecharem pelo amanhecer. — Ela deixou escapar me analisando com tanta tormenta nos lindos olhos azuis cobalto. E seus olhos se encontraram com os meus com tanta angústia. — Sei que ele é seu. Me desculpa, mas eu o amo. Ponderei por um tempo. De repente as chamas se tornaram as coisas mais interessantes da sala.  Entendi seu pedido mudo e desesperado. — Você quer o sangue dele? A vida dele? — Tentei entendê-la ignorando meu ciúme em minha primeira filha das Trevas desejar um reles humano. Tudo o que eu sentia por Nicolas não se comparava ao afeto gigantesco que eu tinha por minha Morgana. — Quer amá-lo o possuindo no sangue como o sacrifício a deusa sangrenta em você ou quer amá-lo de forma humana, querida? Explique-me. — Quero ele como minha companhia. Anseio por sua companhia. Não quero tomá-lo no abraço da morte, eu quero apenas... apenas que ele me guie nesse século, está tudo mudando e você sabe.  — Ela disse cabisbaixa, desviando o olhar do meu, admitindo o que queria num sussurro fraco e sem convicção apesar de haver uma força indescritível como se ela dissesse que não tinha medo de mim. Sempre foi mais corajosa do que prudente essa minha cria. — Sei que ele é seu preferido meu rei, sei da audácia de cobiçar o que é seu ... mas eu tinha que comunicá-lo de minha estima por Nicolas antes que qualquer outro de nós o fizesse para causar intrigas desnecessárias entre mim e você. — Morgana... Morgana... Morgana, doce Morgana. — Eu disse ternamente, ah, ela tem meu coração. Caminhei até ela de forma lentamente humana como sabia que ela apreciava. Ela gostava que agíssemos como humanos. Era parte de sua natureza lamentar o que já se foi. Ela era minha culpa e o meu lembrete do meu erro em me entregar a Serper. Sem resistir, eu toquei sua pele gelada como a minha com o meu polegar em sua bochecha, então em seus lábios infantis vieram à minha boca e eu vi suas lágrimas de sangue escorrendo enquanto me beijava e murmurava pedidos e mais pedidos de desculpas por amar o meu garoto. O choque de sua carne dura e quase mármore contra a da palma de minha mão me fez tremer. E seu corpo contra o meu, materiais iguais e formas diferentes que queriam se encaixar. Morgana não sabia que eu também a amava carnalmente.  Selei meus lábios nos dela sem resistir e lambi o sangue de suas lágrimas e fiz com a unha um corte em meu pescoço e a puxando pelo cabelo escuro como o de Demetria, a  guiei até a ferida em meu pescoço. Ela bebeu obediente do meu sangue novamente, ah, doce tormenta, ah... Morgana.   E quando eu estava dentro dela mentalmente partilhando de sua descomunal tristeza, eu tremi inteiro ao entender seus sentimentos mais profundos por Nicolas e as sombras do seus sentimentos uma vez por mim. Ela passou a língua no corte fechado e seus olhos azuis límpidos como o mar tocado pelo sol vieram a mim e ela sorria de lado discretamente. Então nos olhamos com o carinho de pai e filha, mas no abraço de amantes. — Nicolas é meu preferido. — Não menti. Apesar de meu coração estar agitado por uma certa garota esses tempos que eu me recusava a ir visitar porque ela vinha sendo bem petulante. —Mas eu também te amo e nossa devoção Morgana transcende séculos, algo que Nicolas ciumento como é nunca entenderia. Se ele a aceitar, eu o darei a você. Mas conquiste-o primeiro. Será escolha dele ser seu ou não, minha amada. Ela pegou minha mão e a beijou sorrindo tão feliz. As presas dela ficaram evidentes no sorriso. Eu não a via sorrir há muito tempo. Eu sorri. Eu estava comovido. Neguei com a cabeça, incrédulo, que algo tão simples e no qual abdiquei de um desejo me fizesse sentir também feliz só por vê-la sorridente. Só que agora eu sei que abdicaria de muitas coisas que estimo apenas para ver outro sorriso assim de minha melancólica criança das trevas. — É minha primeira cria... — Sussurrei roçando o nariz no dela. — Te amo tanto. E novamente, as lágrimas de sangue dela desceram. — Eu também te amo, meu rei. — Ela sussurrou daquela forma doce e tristonha, daquele jeito humano que não conseguia deixar para trás cheio de candura e amor. Morgana era com sua gigantesca lamentação a mais humana de nós e isso a fazia minha preferida. Foi dela a ideia de não matarmos humanos, mas fazermos dele servos do qual nos alimentávamos ocasionalmente. Foi dela a ideia de criar a aldeia para que humanos não ficassem em nossos porões mofando. Foi dela a ideia de não matarmos, mas apenas nos alimentarmos e deixá-los viver suas vidas na aldeia do nosso território. Ela era piedosa, fez parecer aos outros que era apenas uma ideia de “ criar os humanos como gado”. Mas no fim, eu sabia que era porque por mais que sua natureza fosse maldita, ela não conseguia tirar uma vida mesmo que o sangue fosse nossa única satisfação e a vida de outros nosso sustento. — Agora vá e tente conquistá-lo. Prometo que não me intrometerei entre vocês. — Não o afaste ainda, meu rei.  — Ela pediu, desesperada. — Nicolas é um rapaz esperto. E perceberia que há algo de errado. — As linhas de seu rosto cheios de angustias e os gigantes olhos azuis arregalados.  — Ele vai me odiar se souber que eu ... eu... Espere até que ele mesmo o diga que me tem em seu coração e que não pode mais servi-lo. Nicolas era como eu quando era humana, ele é mais corajoso do que prudente... — Ela sorriu, satisfeita. Notei que era mais uma observação feita para si mesma. Então essa é a razão que pela qual ele conseguiu o coração dela? Beijei a testa dela. —O possua comigo esta noite. — Sugeri. Mexi na mecha do longo cabelo escuro dela. Ela engoliu em seco pela proposta. Eu entendi seu olhar. Eu sabia como era excitante assistir esse ato íntimo de beber sangue. Como era algo quase carnal.   — Traga ele para mim, Morgana.  Então, eu direi que quero que você beba de mim, Nicolas é ciumento, ele vai se ofertar então para que você não toque em mim. E é quando você beberá dele e usará de seus encantos. Os olhos azuis ingênuos dela se encontraram com os meus. Se ela ainda fosse humana, sei que teria ficado corada. — Sim. — Ela concordou. — Esse é um bom plano. ... Quando Nicolas entrou na sala, eu estava sentado na poltrona, fingindo ler algo, coloquei o pergaminho sobre a mesa.  Morgana me analisou, indecisa. Eu apenas puxei Nicolas para o meu colo e o mordi sem cerimônias como ele gostava. Morgana não nos olhava. Ela apenas se concentrava no fogo da lareira andando de um lado a outro. Nicolas parecia impaciente por ela estar conosco. — Beba de mim, Morgana. — Eu ofertei. Nicolas apenas se retesou no meu colo, ele me analisou sombriamente. Ele apenas estendeu o pulso para ela e a contragosto disse: — Beba de mim, minha bela lady. — O tom dele era doce, mas eu sentia a raiva o recheando. Morgana me analisou, em seus pensamentos ela agradecia pelo ótimo plano. Ela veio até nós, delicadamente tocou Nicolas no rosto como se ele pudesse quebrar, os olhos castanhos fervilhantes de raiva dele se encontraram com os azuis amorosos dela e eu vi a feição raivosa do menino se desfazer rápido ao contemplá-la. Como não? E ela apenas sorriu para ele timidamente e eu me lembrei da garotinha na chuva que ficou órfã pela impetuosidade do rei que Magda servia, a menininha que eu adotei como Magda fez comigo. Morgana beijou-o no pulso, então deixou as presas se afundarem na pele dele com gentileza. Nicolas soltou um arquejo no meu colo. Morgana tremeu um pouco também, os olhos dela estavam nele, atenta a ele, sondando preocupada se ele sentia dor ou prazer.  Nicolas tentou não demonstrar que o toque dela o afetava e eu apenas o beijei num ímpeto de raiva, rompi a artéria na garganta dele e puxando Morgana pelo cabelo, ignorando seus apetitosos lábios sujos de sangue querendo-os para mim, a guiei a mordida que fiz e,  senti Nicolas  contra mim sedento. Então vendo-os eu desviei o olhar. Nicolas tremia e ela abriu a camisa dele e o tocou no peito forte pelo trabalho na lavoura. Ela gemeu também pela carne quente dele. E quando Morgana se afastou parecendo satisfeita por agora. Nicolas a puxou pelo cabelo e a beijou nos lábios. NÃO! NÃO QUERO DÁ-LA A ELE.  Morgana. Essa era minha última vez com ela. Eu a ajudei com Nicolas, maldita sorte. Eu apenas a beijei. E ignorei o aperto no meu peito ao perceber que eu mesmo me coloquei nessa armadilha.                        
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