POV SERPER
TERRA, 2019
A garota chamada Anne me guiou até o carro dela. Eu sabia o que era porque em minha experiência com Sarah, eu também conheci esse mundo ou vagos flashs dele e como funcionava o mecanismo que o rege. Ela entrou e me apontou o banco de passageiro, entrei no carro vermelho dela sem pestanejar.
Ela então me viu parado quieto. Levantou-se de seu banco e passou a faixa preta em mim e ouvi o clique e a faixa ficou em mim como se me prendesse ao assento.
— Isso por acaso se chama cinto de segurança. — Ela disse achando certa graça da minha expressão.
Voltou ao seu lugar, passou a faixa preta em si mesma e o mesmo clique de antes.
Girou a chave e eu ouvi o barulho do carro e começamos a arrancar pela rua cantando pneu. Ela parecia quieta. Era uma garota que realmente não podia ser chamada de garota. E tudo nela denotava uma masculinidade. O jeito que se mexia, sem querer chamar atenção, sem os gestos delicados geralmente associados a belezas femininas ou meninos ainda em idade púbere. E ela era pequena como Sarah. Como uma criança que não cresceu. Presa em uma forma diminuta que fazia enganosamente confundir sua aparência com inexperiência. Mas havia uma dor gritante nos olhos dela, uma escuridão que a guiava para mim.
— Deve ter sido difícil despertar nesse século. — Ela comentou quando o sinal ficou vermelho e me lançando um olhar. — Quando parou de tomar sangue? Em que ano?
Ela achava mesmo que eu era um imortal milenar? Eu dava a entender isso? Ser apenas um mero sanguessuga? Um dos vampiros que viveram milênios caminhando nessa Terra e quando enlouqueciam se enterravam e abdicavam do sangue se esquecendo de tudo o que eram até que algo poderoso como o grito da Imperatriz do Inferno os despertasse novamente? Ela era luz como Sarah e eu era a corrupção e mesmo assim me tratava como algo ferido. Eu a odiei. Como odiaria Yeshua se tivesse conhecido o maldito. Contudo minha cólera contra ela tinha que esperar, por agora, eu precisava da proteção que ela podia me ofertar e ela me ajudaria a destronar Lúcifer. E minha rivalidade com ele é uma rixa tremenda considerando que foi por ouvir a arrogância do maldito em termos que nos igualar ao Pai que me fez cair. Eu fui burro, admito. Mas o maldito tinha uma lábia.
— Eu não me lembro. — Eu disse isso.
Ela assentiu educada e não insistiu mais.
— Você quer sangue? Se mata humanos essa zona é proibida para você. Salém está sob minha proteção. Mas há outros territórios que pode explorar Swampscott, Marblehead e Lynn, por exemplo. Pode caçar lá, eu agradeceria se fossem pessoas más, apesar de achar que todo pecador merece arrependimento pensar em inocentes morrendo me causa arrepios, mas não posso julgar é a natureza de vocês. Pandora e Judas o fazem. Eles não são como Demetrius que se alimenta de bolsas de sangue.
— Demetrius? — Eu me deixei falar. A versão masculina do nome da Demetria.
Ela assentiu.
— Ele é um imortal com crise de consciência. — Explicou rápido girando o volante com agilidade e logo percebi que saímos da cidade em si. — Você ficará na nossa casa se veio como reforço. Parece bem perdido.
— Você sempre confia assim em estranhos? — Eu perdi certa paciência com ela.
Ela riu um pouco.
— Você tem problemas com seu Pai. — Ela murmurou arqueando a sobrancelha e a prepotência dela me irritou um pouco. — Eu sinto isso gritante. — Comentou calma. —Meu anjo da guarda andava bem distante de mim, mas ele disse para eu te ajudar. E mandou dizer: Olá Ariel. Você não está onde deveria estar e causou um grande problema para Sarah.
— Qual o seu anjo? Conversa com ele? — Questionei agitado.
— Aniel. — Ela respondeu simples focada na estrada.
Aniel, o guardião dos renascidos para a luz, dos que antes eram perdidos em trevas, ele gosta de um caso perdido. Nós nascemos da mesma luz, nascemos da mesma chama divina. Éramos próximos antes da queda, ele sempre me intrigou com sua obediência cega as ordens do pai.
Ela continuou
— Converso com ele quando ele não está zangado comigo ou questionando minhas decisões. — Ela me contou tranquila. — Hoje eu ouvi a voz dele depois de um longo tempo em que andamos distantes por eu estar de luto. Ele disse que era para eu ajudar você. Que te conhecia. Mas mais nada além disso.
Senti o vento no meu rosto vindo da janela aberta do carro, a velocidade fazendo o cenário quase rural ficar para trás, o cheiro de grama. A noite se aproximava e o céu estava rubro.
— Você o obedece sem questionar? — Perguntei intrigado com ela e sua proximidade com um de nós.
— Claro. Quer dizer, nem sempre. — Ela explicou e riu. Adorável seu sorriso com seu rosto de beleza indefinida de um rapaz ainda imberbe. — Por exemplo, meu amado era um vampiro. Aniel me falou para me afastar de Nik, mas eu ignorei completamente o aviso. Sofri muito no fim. Mas não me arrependo da decisão de ter amado meu Nik até o fim dele pelas mãos de Caim, mas Caim foi morto por Prometeu. — Ela comentou simplória e me observou. Os olhos escuros cheios de lágrimas e saudade.
Prometeu? O Prometeu? O mediador? Não. Não pode ser ele. Ele estava preso. As correntes do céu e do Inferno! Eu sei. Eu vi. Ele era um dos cinco irmãos consequências cósmicas. Um dos selos do apocalipse nesse mundo. Quem o libertou?
— Achei que anjos eram indiferentes. — Eu tentei saber até que ponto ela entendia mesmo sobre nós. Quer dizer, sobre aquele que fui.
— Não. Eles têm sentimentos. — Ela falou com veemência. — Aniel é um protetor confiável. Ele me dá livre-arbítrio mas sempre me deixa ciente que as decisões que tomo têm consequências. É como um grilo falante. E mesmo quando não gostam dos humanos, eles amam a Deus e o adoram. E há aqueles que desobedeceram a Deus e criaram o caminho da perdição. Uma atitude rebelde se quer saber minha opinião, como uma criança que quer chamar atenção de um pai ausente.
Eu me senti desconfortável com essa fala. Desviei o olhar do dela para mirar a paisagem pela janela.
Então ela leu algo na expressão, ficou séria e acrescentou:
— Mas esse é meu jeito de ver, claro. Escute Ariel, tem gente que diz que são indiferentes e não sentem amor pela criação. Mas por experiência própria, acho que sentem amor sim. Aniel não cuidaria tanto de mim se não me amasse pelo menos um pouquinho, claro que ele segue ordens, mas o cuidado dele não é por uma mera ordem. Eu sinto seu abraço quando o desespero me abate e quando tudo parece perdido mesmo quando eu me afasto do Pai celestial e eu tenho andado bem distante de Deus. — Ela contou com os olhos cheios de lágrimas. — Enfim, não vou mais te encher com o assunto. Deve estar cansado e com fome. Logo encontrará seus irmãos e poderá assim conversar com eles que devem ter algo mais interessante para falar do que eu. Sei que falo muito. Desculpa.
— Não são assuntos ruins. Se abre sua boca para soltar sabedoria, não tem que se desculpar por isso. — Me vi dizendo.
Ela sorriu.
Droga de sorriso bonito. Sarah aceitava sua natureza feminina. Mas essa aqui tinha uma dualidade marcante. Lua e sol. E a Lua é minha assinatura mágica a de todos os seres sobrenaturais. E o sol era a de meu Pai. E ela era tocada pelo meu Pai de uma forma... Assim como Sarah. Elas duas seriam boas amigas com esse fardo que é estar próximo da Divindade. E ao mesmo tempo elas duas têm um chamado para as Trevas. Conjuradoras poderosas. Apesar do poder desta superar o de Sarah.
Mas antes que continuássemos nossa conversa. A mulher de cabelo escuro longo e que tinha o rosto igual ao dessa garota ao meu lado na estrada com um vestido na cor preta.
Anne murmurou com visível choque:
— Andreia?!
Mas eu soube que naquela casca havia algo muito mais corrompido do que Anne imaginava. Anne desviou o carro da figura e batemos em uma árvore na estrada. A moça bateu a cabeça no volante do carro e pelo impacto sangue escorreu de sua testa, os vidros do carro se quebraram ferindo seu rosto, ficou desacordada, me certifiquei de que estava viva e por um milagre stava. E a mulher que parecia uma estátua se moveu até nós com agilidade tremenda. Mas aquela estátua mesmo agindo como tal, era tudo menos humana.
Ouvi a voz dela na minha mente:
“Não sei quem é você. Mas oferte-me o coração da garota e você vive.”
Ah, essa que caminha com agilidade de uma vampira, a força de uma bruxa e a falsa elegância de uma rainha, sim, a meretriz preferida do Luci... Lilith.
“ Ah, a meretriz que acha que é rainha. Diga ao Luci... que Ariel mandou lembranças e ele tem péssimo gosto para companhias.”