POV SARAH- DEMETRIA
Minha criança amada parecia tão assustada, seu corpo de passarinho tremia como se vivenciasse um horror no aviso que me deu que eu não fazia ideia. Beijei Cinder na bela face cor de caramelo várias vezes até que seus olhos oliva fossem meus de novo e não de qualquer trauma ou temor. Sua pele bronzeada parecia brilhar lindamente, destacada pelo vestido amarelo com espartilho branco que mesmo sendo meu era novo e os enfeites de rubis em seus cabelos acobreados.
Ela ficava tão linda com as roupas de Fenit, apesar de as de Dragomir deixarem todas as curvas de seu corpo a minha disposição, eu apreciava mais vê-la assim.
Eu acatei seu pedido e a puxei para longe da porta dupla de mogno do aposento de Iker tomando uma decisão de vir sozinha mais tarde pelo modo que essa minha amada criança estava temerosa tentando me tirar daqui. De mãos dadas, duas amigas, confidentes, passamos pelo corredor com retratos dos reis e rainhas, eu odiava aqui, sempre odiei esse corredor, mas, surpreendentemente, a moldura de meu pai como rei não foi arrancada, com pai, me refiro a Luther. Muito estranho. Alexander é estranho e cheio de ações contraditórias. Por que se matou o irmão não tirou o retrato dele como rei?
E chegamos ao meu aposento. A puxei para dentro e fechei a porta dupla de mogno com entalhes dourados.
Dera veio até nós, parecia inquieta passando as garras no carpete branco do meu quarto. Uma pequena criatura violeta, com pele que parecia reluzir como a de uma cobra, com quatro patas, as duas dianteiras sendo garras e as traseiras para se apoiar no chão. Acariciou sua cabeça viscosa e cheia de escamas no meu tornozelo, mas mesmo sua textura não sendo atraente num primeiro instante, eu a amava profundamente desde já, ela era muito especial para mim. Sua cor violeta como os olhos do pai dela. Contemplar Dera era como ver os olhos preciosos de Kai.
— Não sei como cuidar de um dragão. — Confessei a Cinder.
Ela riu.
—Temos sorte então que sou nascida nesse estandarte. Ela só está com fome essa bebê linda. Eu peguei algo na cozinha para ela, mas acabei esquecendo porque te vi indo para o aposento do príncipe e resolvi te seguir. — Cinder tirou meu foco da minha mais nova companheira e protetora cuspidora de fumaça já que o fogo ainda parecia oscilar.
Cinder tirou um pedaço de carne crua do decote do vestido e jogou a Dera dando alguns passos para trás e me puxando junto pela mão. Logo entendi porque Cinder me tirou da frente de Dera. Dera com sua fumaça que futuramente seria fogo defumou desajeitadamente o pedaço de carne e comeu fazendo um meneio a Cinder como se agradecesse e depois se retirou parecendo satisfeita. Minha menina de cabelo beijado pelo fogo apenas sorriu pelo gesto da minha filha amada.
— Deve procurar pequenos animas vivos para o truque quando ela estiver maior já que não está na forma humana. Mas por agora, querida princesa, seu filhote come carne que não respira, e a carne crua que ofertarmos bastará. — Explicou-me sabiamente.
Olhei grata para Cinder entender Dera tão bem, me senti como uma mãe de primeira viagem, cuja filha só chorava e chorava e eu não sabia o que fazer e alguém com mais experiência tomava as rédeas da situação.
Ah, minha doce menina linda.
Eu a abracei por ela ser tão inteligente. Rocei o nariz no dela. E sem resistir toquei seu cabelo macio como seda, com fios dourados só que ao mesmo tempo beijados pelo fogo. Era só deslumbrante seu cabelo. Minha linda menina, minha primeira mulher e amada. E meu flerte com Hela, não foi nada comparado ao meu desespero por Cinder.
E então ouvi minha própria voz dizendo:
—Linda, linda, linda. — Murmurei como se a ninasse, beijando seu cabelo fascinante e cada pedaço de sua pele ao alcance de meus lábios. — Cabelo de seda, jeito de menina e malícia de mulher, corpo de fada, delicada, pequenina e encantada. Olhos verdejantes como lagoas, espelhos de uma alma forte e sofredora. Porte de princesa e encantada, minha amiga, minha companheira e minha amada.
Ela sorriu.
Beijei seus lábios macios sem conseguir me controlar depois de ver suas covinhas lindas pelas palavras que tomaram minha alma. Ah, eu estava perdidamente louca por ela. Kai e ela estavam roubando meu juízo. Eu estava um tanto quanto indignada comigo mesma. Mas é justificável. Quer dizer, o ser humano tenta justificar até o que é injustificável. Mas a questão é que passei tanto tempo como rainha viúva e longe de quaisquer afetos carnais que agora meu corpo queria só ser amado e eu queria ser amada. Eu era jovem de novo. A vida infeliz de antes se desfez e eu podia aproveitar a juventude da qual fui privada por morar num convento e ser a esquisita da escola e também da qual abdiquei quando vim para Tretagon para lutar pelo meu trono e todas essas coisas.
Eu a toquei no pescoço, a linda clavícula dela exposta e seus olhos submissos nos meus me fazendo sentir poderosa e ao mesmo tempo vulnerável como só Kai fazia. Contemplei sua forma feminina, seus s***s adoráveis amassados contra o espartilho, eu amava os s***s dela. Hm... Eu quero sentir os macios vales acobreados pela cor de sua pele contra os meus vales leitosos. Quero sentir de novo a paixão e devoção de quando ela me toca e me dedilha como um músico com seu instrumento musical pelo qual tem seu maior apreço. Sinto algo gostoso só de pensar em amá-la e ser amada por ela. Mas tenho que me focar em terminar meu noivado com Iker, a cumprir minha promessa a Kai que mostrou uma parte sua tão vulnerável.
—Alteza, agora também tem como amante um deus da carnificina. Ele me machucaria por ter seu afeto? — Ela questionou sensual e me abraçando traiçoeira.
O jogo dela era: se eu a estimava o suficiente para protegê-la de tudo e todos. Ela não me conhecia tão bem ainda, não sabia sobre como eu a queria proteger e qual era minha natureza de nunca me conformar com o que me parecia injusto. Era normal ela se sentir assim.
Então acalmei-a com tanta convicção que eu senti que era o próprio Kai o dizendo:
—Não. Sobre ele nem preciso dizer que te defenderei, porque sei conhecendo-o como eu o conheço que ele me ajudaria a proteger você. O Kai nunca encostaria em você sabendo que a estimo tão profundamente, querida. — Coloquei uma mexa do cabelo dela para trás de sua orelha pequena. — Assim como eu não encostaria um dedo no protegido dele que esteve na festa com ele. Lembra-se? — Ela assentiu. — Não deve se preocupar com Kai, ele sempre estará ao meu lado não importa que decisão eu tomar, ele é meu amigo acima de tudo e eu sou amiga dele, se não amigos ainda, aliados que têm muito respeito um pelo outro. Ele sabe sobre você e nunca jamais te machucaria sabendo o que você significa para mim e que é minha protegida.
Ela assentiu com o comum estreitar dos olhos de desconfiança e o leve crispar de lábios. Os cílios loiros e longos dela se movendo charmosamente enquanto piscava. O rosto bonito que parece ter sido esculpido por um dos melhores artistas gregos. As sobrancelhas se franzindo num sobrolho formando uma pequena ruguinha em sua testa adorável.
Suspirei ainda abraçada a minha amada. Beijei seu cabelo, apoiei meu queixo no topo de sua cabeça:
— Subestima minha estima por você, querida Cinder. Acha que só a uso para me satisfazer. Mas eu a entendo. Somos mulheres e homens nos usam o tempo inteiro. Só que agora que consegui de volta meu poder, acha que eu deixaria qualquer um machucá-la? Você que confiou em mim como sua princesa, sua mestra, sua amiga e sua amante. Vou honrar isso e te manter sempre perto não importa nada, nem se eu perder meu posto, meu primeiro instinto sempre vai ser proteger aqueles que amo e você está nesse grupo. E eu vou te ensinar tudo o que eu sei para que se proteja e não seja uma mulher indefesa, mas lute suas próprias lutas. Não te quero dependente de mim apesar de amar você em meus braços, eu quero que você seja independente, forte e trilhe seu próprio caminho, meu doce amor.
Ela me calou com um beijo e senti o gosto salgado de lágrimas. Mas ela me distraia com os beijos para que eu não as visse. Oh Cinder. Ô querida. O que será que você passou para ser tão defensiva assim? Seja lá o que for, eu estou com você agora e nós duas somos mulheres a frente de nosso tempo e mundo.
Seus dedos entrelaçaram meu cabelo enquanto continuava os beijos em seu pescoço e eu gemia seu nome. Então ela parou me estudando, os olhos devocionais, como se houvesse o mesmo fascínio que a beleza dela tinha sobre mim, gentil da parte dela, mas eu sei que sou sem graça e sempre fui. Deve ser só gratidão o que ela sente. Beijou meus cílios, minhas bochechas e finalmente minha boca com a sua úmida e quente.
—Minha bela princesa. Você é a única que sinto prazer em obedecer. Me tome. Anseio por seu toque. Me ame. Me domine. Hm... me domine. Me amarre e use o meu corpo a seu Bel-prazer, esse é o quão confio em você, te deixo me manter rendida mesmo que eu odeie, porque sei que em você posso confiar. Se for você a fazê-lo, a me amarrar, eu me abro inteira como uma flor desabrocha ao sol. Você é o meu sol, querida princesa.
Poética essa minha menina. Beijei seu decote e ela me estudou sofregamente e depois sorriu quando beijei a bochecha dela castamente por me sentir culpada, era algo jovial e sapeca quase. Novamente as covinhas ilegais que me faziam invejá-la e ao mesmo tempo ansiar por ela.
Desfiz o nó do espartilho que cobria seus m*****s rosados. Abocanhei um por cima da seda amarela do vestido e amassei o outro com a ponta do polegar.
E ouvi seu gemido sublime. Ah merda! Eu quero ela. Eu quero ser doce e romântica, mas só consigo pensar em tê-la. Não consigo agir como um ser humano normal perto dela e de Kai, agora que eu sei que ele também gosta de mim. O som doce dela fez eu sentir pontadas e perder o raciocínio. Ela e Kai me deixavam fora de mim.
Puxei seu cabelo lindo, mesmo sabendo que ela merecia mais docilidade se minha parte e a beijei lentamente. Kai me deixou louca quando basicamente me tomou violentamente contra a parede de forma deliciosa e ela com sua doçura que me fazia querer tomá-la brutalmente e ser tomada de volta.
—Vamos nos banhar juntas? Minha cama está suja. Quero ver você se desabrochando para mim na água. Não no meu leito já maculado por outro.
— Sim, te darei banho, esfregarei essências em seu corpo, pentearei seu cabelo e te vestirei. — Ela garantiu. — Mas antes, preciso conversar algo com você. E é preciso que seja honesta comigo para eu saber qual lado tomar quando for necessário.
— O que quiser, meu bem. — Falei a ela.
— Foi bom com o rei mortífero e sanguinário? Melhor do que com o príncipe que gosta de tocar fogo em tudo? — Ela sondou arisca e tocou o meu rosto.
Ela chupou minha língua com sua boca me provocando quando senti minha garganta fechar ao notar que não queria falar disso com ela. Era desconfortável. Contudo Cinder parecia compreender mais coisas do que eu.
— Responda. — Exigiu com a voz firme. — Por favor, seja sincera. Quero saber todos os seus segredos, minha princesa. Assim como sei o segredo delicioso de sua flor quando seu néctar invade minha língua. Essa i********e não é nada se comparada a que já temos.
Lambi os lábios dela. Ela estava repleta de razão. Minha confidente e minha amante.
Senti o ciúme mordaz de seu tom reverberar por minha mente me fazendo ter espasmos sensuais antes de qualquer toque. Gostava que ela demonstrasse o que sentia ao contrário do Iker que não o fazia por orgulho e da dificuldade de meu amado Kai em se expor a mim por eu ser uma mulher. Ela tinha essa fragilidade feminina de dizer o certo, na hora certa e revestida do que sente. Admirável. E depois dizem que mulheres somos complicadas. Homens que são burros.
— Não se torture dessa forma querida. — Eu pedi.
Ela parecia irresoluta, crispando os lábios e me fitando com rancor.
— Só responda a maldita pergunta sem se importar com os meus sentimentos. O faça para que eu compreenda o que devo fazer.
Essa foi a primeira crise de cólera que ela direcionou a mim. Era fofo. Ela estava engraçada toda chateada.
— Foi bom com o Kai; — Admiti. A raiva dela passou como mágica. — Eu até queria... queria desmanchar o noivado com Iker por ele. Mesmo que não haja nada certo entre nós e eu provavelmente só esteja me iludindo com ele.
— O rei sangrento foi gentil com você? — Perguntou doce agora.
— Foi do jeito que eu queria que fosse. — Eu contei a ela. Ela assentiu com a cabeça. — Eu não queria muito gentil naquele momento, eu esperei muito por ele e saber que eu podia tê-lo me deixou fora de mim. Mas Kai respeitou a minha vontade a maioria do tempo e depois me contou seu segredo.
Ela tocou o meu cabelo.
— O jeito que o rei sangrento te olha é bonito. — Ela falou lutando contra sua própria raiva e sentimentos. — Eu gosto do jeito que o rei te olha mais do que do jeito como o príncipe que eu sirvo te olha. E se é para tiver presa a um maldito homem, eu preferia que fosse aquele que não é mais homem. Contudo, temo por sua vida se rejeitar o príncipe.
POV IKER
A paixão que eu senti por Sarah foi como um golpe de espada que atingiu em cheio meu coração, sem me dar direito de respirar, de pensar ou de conseguir reagir com minha estratégia habitual. E eu a odiava por isso profundamente.Quando eu a vi pela primeira vez foi como se meu coração estivesse atado ao dela. A coragem dela em enfrentar Fedrer, seus olhos redentores e a energia espiritual purificadora e devastadora que me atraia a ela como uma explosão as trevas extensas da minha alma que fazia a flauta de Serper ecoar e ecoar nos meus ouvidos com o chamado doce ao poder que prometia. Mas eu queria conquistar meu próprio poder. Eu queria conseguir tudo sozinho.
E mesmo aos seus olhos eu me sentindo culpado de tudo de r**m que já fiz, ela ainda me queria perto e me deixou amá-la. Meus olhos pairam na janela por onde a luz passa. Observo a sala a minha volta com armaduras de tempos antigos, armas expostas nas paredes e alguns candelabros com lugares estratégicos. O papel de parede é com o estandarte deles da Fênix.
Sarah, ela era misteriosa. Alguém cujos olhos escuros e sombrios como a minha alma diziam: tenho infinitos segredos mas se perca em mim e se encontrará. Contemple seu reflexo em meus olhos e verá a corrupção e ao mesmo tempo achará a luz.
E ela seria a minha princesa dragão. Eu abdiquei de tudo por ela. Meu pai estava decepcionado comigo por quebrar a promessa dele a rainha Kiera apesar de me garantir que entendia minha decisão.
Ela era alguém que se mostrava de certa forma como a rainha do xadrez, mas agia como se quisesse ser um peão. E ao mesmo tempo como se não quisesse estar categorizada em nenhum jogo e estivesse acima disso. Entretanto, agora eu sentia que a familiaridade que nós dois sentimos quando nos vimos e ela me chamou pelo meu nome desesperada e cheia de saudade , estava se tornando um estranhamento e nós estávamos agindo como um casal por aparência.
E era o maldito rei da Carnificina que tinha sua atenção, seu foco e sua admiração. Ela estava fascinada por ele. Eu apertei a peça branca da rainha que arrebatado do tabuleiro entre meus dedos e a trouxe a meus lábios avaliando o tabuleiro e as peças de Vince. A rainha branca, eu queria movê-la. Mas ela tinha sua própria movimentação que eu só podia encaixar ao meu propósito e não de fato manipular. Eu só podia movê-la de acordo com algum raciocínio meu para ganhar o jogo, mas não de fato fazê-la marionete e a fazer se mexer como eu quiser. Ah por todos os demônios de Relian.
Vince me mirou sondando minha expressão, os bonitos olhos âmbar cativantes se encontraram com os meus e me acalmei um pouco. Enquanto eu pensava tudo isso nós dois estávamos sentados de frente a um tabuleiro de xadrez.
— Esqueça o jogo. Está disperso, alteza. Quer lutar? — Sugeriu.
Eu gostava que ele entendesse meu estado de espírito mais do que eu próprio. Eu o amava por isso. Por eu não ter que falar, mas ele compreender assim com Sarah o fazia.
— Não. O rei dos deuses assassinos está no jardim junto ao rei Alexander. — Movi a peça finalmente. — Xeque. E eu quero evitar os dois.
— Todo mundo está comentando que o escravo da lua agora vê o sol. Estão aterrorizados. — Vince comentou. — Realmente, chupadores de sangue sem fraqueza é tudo o que precisamos. — A ironia dele arrancou um riso meu.
Ele gargalhou.
Eu me foquei de novo no jogo.
O rei da Fortaleza das Sombras não partiu com sua comitiva e agora caminha na luz. Ele pediu para me encontrar no jardim antes de Alexander aparecesse e o escravo da lua estava no sol me encarando como se eu fosse apenas um peão descartável em que se sacrifica para um propósito maior e não era mais útil. E então quando me viu, ele veio até mim, tocou meu rosto e sussurrou:
— Esteja ciente de que a princesa tem um novo pretendente se apresentando ao pai dela. — Havia certo humor nele ao dizer “ pai dela”, parecia alguma das peças em forma de sátira que os plebeus faziam dos nobres para se sentirem melhores com suas vidas medíocres.
Ele afastou o rosto do meu, selou sua boca na minha, audacioso, e demorou-se no selinho me deixando sentir a textura fria e nojenta de seus lábios de morto-vivo. Eu o empurrei quando sua beleza parou de me cegar e senti suas presas nojentas. Eu quis vomitar pelo monstro ter me tocado. O monstro cujas histórias minha mãe me contava e me fazia ter medo da noite. Apesar de eu ter o conhecimento de que minha vida é moldada nas trevas da minha própria arrogância e eu saber que ele poderia me matar fácil fácil, eu limpei minha boca e num ataque de raiva que não me é comum me vi dizendo:
— Nunca mais ouse me tocar. É um cadáver ambulante. Eu sinto só repulsa por você.
Ele sorriu. Ele gargalhou olhando para o sol.
— Ah, eu me pergunto... o que seria de você se virasse um de nós... já pensou se isso acontecesse? — Me provocou um pouco. — Meu filho das trevas. Eu te transformaria só pela sua beleza, mas antes arrancaria essa sua língua ferina. Depois que nos transformarmos há certas partes que não crescem de novo se arrancadas. A língua é uma delas, querido.
Deu tapinhas no meu rosto.
Ele me olhava com desejo em seus olhos violetas, mas um desejo torpe e que eu sinto por algum escravo que se destaca em beleza mais que outro. Ele era realmente uma visão ainda mais com os trajes da pátria de minha princesa , mas eu também tinha espelho e sabia que eu era mais bonito. Mas o jeito ligeiramente admirado com o que ele me olhava, me estudava, era como se tentasse entender algo. O jeito que me analisava não era nem de longe o amor e a paixão que o fez deixar a Fortaleza das Sombras, vir ao baile mesmo sendo um proscrito, fazer seus truques com os elementos e dar a minha princesa um presente raríssimo: Um dragão.
Um dragão que é uma espécie em extinção e os poucos que existem além de Fedrer e o que foi presente de Sarah estão além do mar de gelo. Em terras desconhecidas e longínquas do norte gelado que homens comuns não tem acesso. Como ele conseguiu?
Só de lembrar da expressão vitoriosa dele quando Sarah de tão emocionada quis recusar o presente, o ódio me consome. E agora ela deixa o dragão presente dele em seu próprio aposento como se estivesse se deitando com o próprio. Eu não podia impedir de fato que ele cortejasse Sarah. Por Relian, ficamos sim noivos, mas noivados poderiam se desfazer. E Alexander, o maldito usurpador, ficaria mais que feliz em me deixar ciente de que a filha dele era disputada por outra potência.
O que fazer? Se eu não posso com ele, devo me unir a ele? Melhor ter ele como amigo do que inimigo. Inclusive agora que o ponto fraco dele não existia mais. Ele tinha certa apreciação por minha beleza por mais que negasse. E ele não era feio. Sarah estava fascinada nele. E eu prefiro ter Sarah comigo acima de qualquer coisa, o trono dela também tem peso. Suspirei. Ele irá tomá-la de mim sem dúvida. Mas e se ele por acaso quiser nós dois? Dois pelo preço de um. Ele queria Sarah, os olhos dele não mentiam, ele a queria e ela também o queria. Mas eu preciso dela para ser minha luz, preciso dela para ser minha princesa e minha rainha. E não quero trazer desgraça para o meu reino conseguindo a fúria do rei do reino mais perigoso de Tretagon.
— xeque mate. — Falei para Vince.
Vince apenas sorriu e analisou batendo palmas:
— Nossa... Como faz isso? Me ganhou de novo, alteza. Mesmo sem estar focado. Assustador.
Concordei tomando uma decisão:
— É realmente assustador, meu caro. As coisas que eu não faço por amor.