POV DEMETRIA
Quando chegamos à Terra estávamos em algum lugar que eu desconhecia que era muito vazio de movimento e onde até mendigos evitavam. O círculo mágico e azul no chão com um símbolo alquimista que eu não sabia qual era se desfez afungentando os animaizinhos que estavam aqui antes. É. Estamos aqui no mundo que abandonei aos meus dezoito anos para ser Demetria, a rainha de Tretagon. Aspirei o ar frio e noturno. O ar com escapamento de carros, cheiro de lixo, mijo e outras coisas. Tem algo que eu nunca disse a ninguém sobre ter aceitado tão rápido ser rainha de um mundo que eu nunca vi, se não tivesse essa alternativa, eu teria me matado. O futuro me parecia obscuro ao extremo naquela época. Eu nunca senti que realizaria nada nesse mundo. Eu odiava esse mundo por ser como era.
A única coisa que podia dizer com certeza era que sabia que era Salém pelo ressentimento do ar das mulheres que queimaram em fogueiras. Seus gritos ecos longínquos mas ainda fortes. Essa sensação horrível de injustiça. Os pelos dos meu pescoço e braços arrepiados pela fantasmagórica sensação que essa cidade causava com sua magia e ressentimento não só das bruxas, mas também daqueles que pereceram nas mãos dos colonizadores. O que nós fazíamos aqui? Por que logo aqui? Eu odiava aqui.
Aldahain apenas me deu a mão e a aceitei sem pestanejar. Há tempos eu não vinha para esse mundo e abdiquei de bom grado dele antes. Estava temerosa e, tê-lo ao meu lado era melhor do que não ter nada considerando que eu estava longe de tudo o que conhecia e amava.
Em que ano estamos afinal? Nenhum jornal de papel jogado para espiar. Não faço a mínima ideia. Caminhamos pelo lugar esquecido no centro urbano. Os postes de energia ligados, alguns gatos esfomeados miando e cachorros esqueléticos. Os outdoors gigantescos de comida, cerveja e maquiagem. O som dos carros passando rápido pela rua. O cheiro de cidade grande e moderna que tinha uma estranha combinação de comidas, poeira, fumaça e outros odores mais humanos.
E bem aqui, nesse terreno onde nada havia, eu o assisti começar sua mágica. Primeiro, no terreno antes baldio surgiu um prédio que botaria qualquer hotel cinco estrelas no chinelo. Então minhas roupas de serviçais viraram uma calça e blusa de manga comprida, coturnos e as dele um elegante terno branco. Eu me pergunto como ele sabe que aqui eu não usava vestidos e odiava vestidos. Então nossos documentos surgiram em minha mão. Logo na infraestrutura surgida do nada luzes se acenderam. Como ele faz isso? Como ele cria assim? É como um artista com um pincel mágico, só que o dele faz tudo real e não é apenas uma captura do que deveria ser real ou lampejo da sua mente. Assustador. Ele é assustador.
Kate Aldar Cook e Benjamin Aldar Grace estudei nossos documentos. Minha sobrancelha se arqueou. Eu tinha vinte cinco anos e ele vinte sete. Analisei nossas fotos no documento. E só então notei que o cabelo dele estava preto e os olhos rubros estavam castanhos claros, um disfarce humano. Sim, o cabelo azul, os olhos vermelhos e as garras demoníacas com certeza se destacariam nesse mundo.
Se eu, Kate, tinha o sobrenome dele (Aldar) então éramos mesmo casados nessa vida fajuta. Filho da mãe! E então, a aliança surgiu no meu dedo e no dedo dele. Ah, não bastavam as correntes infernais? Eu me questiono agora que estamos aqui, como iremos viver? Ele sabe o sistema capitalista fodido desse mundo? Como ele pretende que a gente viva por esse um ano? Antes que eu o faça essa pergunta eu vejo os baús de ouro começarem a surgir. Claro. Ouro. Se ele criasse dólares ainda seriam falsos, então o ouro para vendermos seria mesmo mais útil. Mas eu não sabia como vender ouro ou para quem.
Mas considerando quem ele era, eu não deveria ter me preocupado com o nosso sustento. Ele fazia surgir ouro do nada. Uma vez o perguntei como ele fazia, disse que tinha haver com alquimia. Eu lembro que eu era péssima em química na escola e em Tretagon nunca estudei a ciência dos magos que era a alquimia. Não era necessário para governar.
Então ele parou tudo o que conjurou com magia. E me olhou. Eu entendi que esperava uma aprovação minha. E por algum motivo eu a dei com um movimento de cabeça.
— Mandou muito bem. — Falei vagamente me lembrando da sensação que eu tinha quando eu ainda era uma adolescente depressiva dessa Terra.
Eu odiava isso aqui. Sempre me senti uma alienígena aqui. Mas estranhamente com ele, essa sensação de estar fora desse mundo passava.
— Vamos entrar no hotel... — Me chamou.
Eu ainda estava assustada demais com aquela construção para querer entrar nela. Surgiu literalmente do nada. Do nada. Quer dizer, era exatamente como pensei no hotel dos meus sonhos, então não foi tão do nada assim. Mesmo assim, um esboço da minha mente se materializou no real. Isso era só sinistro. Ele era sinistro.
— Você sempre pode construir coisas assim do nada... O castelo no reino dos fantasmas, o hotel neste... E são coisas reais. Não meros ecos ou ilusões. — Comentei puxando um assunto para evitar entrar no Hotel que ele criou com o nome que eu sempre imaginei: Hotel das Estrelas.
— Meu poderes estão além da sua imaginação. — Comentou ele mas sem prepotência. Era só uma observação, como as muitas que já fiz sobre mim mesma que me fariam parecer arrogante a qualquer um que me escutasse, contudo eram só malditos fatos. — Mas por agora só estou usando suas lembranças desse mundo e seus desejos de quando ainda estava aqui para edificar a vida que você ansiou ter nessa Terra em algo concreto. Queria ser a dona de um hotel para conhecer vários tipos de pessoas, queria ter feito faculdade e ter se casado com alguém bom e saído do convento. A parte do alguém bom podemos relevar. Mas o resto eu quero te dar.
— Eram só sonhos frustrados. E eu agora tenho responsabilidades com Tretagon. — Comentei.
— Não tem não. — Ele informou calmo. Acho que fechei a mão em punho. Ele sentiu minha raiva talvez. Eu não sei. — Já fez o que tinha que fazer lá, Demetria. — Ele usou o meu nome original. O nome da rainha que nasceu e foi banida pelo tio. O nome que eu aceitei como o meu nome verdadeiro no fim quando aceitei meu destino uma vez de ser a rainha escolhida pela Fênix. — Você protegeu Tretagon de Serper, você reinou por vinte anos e depois entregou o trono ao seu primo... Você não está presa a Tretagon por nada a não ser pelo amor que te acorrenta aquelas pessoas de uma Tretagon que não pertence a você Demetria, mas sim a sua farsa que é Sarah Fenit bastarda de Alexander Fenit.
Ele tinha certa razão.
— Tanto faz. — Falei. — Obrigada pelo hotel. Não acho que teremos reais hospedes, mas... foi gentil da sua parte. — Eu elogiei um tanto bruta para esconder que estava emotiva. Meus sonhos adolescentes estavam todos a minha frente. E mesmo acorrentada a ele e suas malditas correntes, e eu saber que isso era extremamente errado, me senti capaz de sonhar ainda.
— Foi gentil? — Ele questionou confuso. — Não tinha a intenção. Só queria deixar sua estadia aqui mais confortável. — Ele realmente parecia ingênuo agora. Não era como a serpente perniciosa do Serper que me prendia em suas ilusões para me machucar e dominar, ou Kai que lia minha mente e me ajudava a ser forte somente com suas palavras, ele só viu algo na minha mente e quis me dar e concretizar.
— Seria mais gentil se tirasse as correntes. Já disse que vou ficar com você aqui por um ano e como sua esposa. Honro sempre minha palavra. E de qualquer forma você sabe onde iria me encontrar.
— Não. Qualquer coisa menos isso. — Ele falou sombrio. Fui até ele. Não quis mesmo irritá-lo. Mas ele não entendia? Não via o quanto era c***l prender alguém? Ele que esteve preso por tanto tempo.
— Certo. — Desisti por hoje. — Você é a consequência do meu erro, terei que te aceitar por hora. Mas não ache nem por um instante que eu gosto dessa situação de estar presa a você. Isso é errado. Me dê mil hotéis, mil baús com ouro e várias outras coisas... isso não muda o fato de que estou presa a você. E eu te odeio por isso.
Ele sorriu.
— Que bom que esse é o único motivo pelo qual me odeia...
— É claro.. .e tem outro? — Questionei. — Além de você ter matado alguns do meu povo... fora isso, esses são os motivos que consigo me lembrar.
— Eu sou a ausência de tudo o que você é... e você só me odeia por que te prendi e feri seu povo?
— Sim, Aldahain. Te odeio porque me prendeu e porque matou pessoas do meu povo. Isso não é motivo suficiente? — Questionei furiosa. Não conseguia mesmo entender ele.
— É sim. — Ele comentou. — Mas só me odeia por isso?
Assenti.
Seus lábios nos meus me calando e me fazendo esquecer o motivo da nossa briga. Senti meu corpo inteiro render-se a ele. Toquei seu cabelo preto agora e o correspondi, mordendo seu lábio inferior e o escutando em meu poder. Eu não me achava tão bonita assim. Eu era simples. Uma beleza simples. Cabelo preto, olhos escuros e franzina. Eu não era como Cinder, Cecily, Iker ou Kai... Ou até como esse maldito a minha frente. Então por que ele parecia tão alucinado pela minha pele? Pelo meu rosto? Pela minha voz?
Aldahain apenas separou nossas bocas.
— Não vou te soltar. Esqueça isso. — Ele pediu contendo sua raiva para não me assustar, eu soube, eu soube porque eu ouvia entre as servas que ele era impiedoso com quem cruzasse seu caminho. — Mas você deveria fazer o que não fez quando estava nesse mundo. Faça as provas do mundo mortal, estude como sempre quis, consiga seu diploma em gerência e cuide do hotel... E então depois do um ano, você volta para Tretagon e Kai. Você também pertence a esse mundo.
Neguei.
— Nunca pertenci. — Comentei amarga.
— Demetria, você realmente nunca se permitiu viver aqui porque sempre sentiu que tinha algo maior que tudo isso. Mas agora esse algo maior se desfez. O que vai fazer da sua vida agora que está livre de suas responsabilidades e tem a eternidade e a imortalidade para ser várias pessoas e ao mesmo tempo realizar todos os sonhos de quem foi?
Esse maldito sempre me fazia pensar nessas questões desconfortáveis. Questões que eu evitava a todo custo. Demetria realmente não existia em Tretagon, nessa Tretagon. E os amados de Demetria eram os mesmos de Sarah, mas Demetria não podia existir mais. Droga. Doce merda. Não queria pensar muito nisso.
Então foi minha vez de beijá-lo para calá-lo. Ele passou o braço em volta da minha cintura, me ajudou curvando sua fronte um pouco já que eu estava na ponta dos pés para alcançá-lo e então senti sua mão subindo minha blusa, e senti a minha pele arder nas correntes, nossos olhos se encontraram. Senti falta das garras arranhando minha pele.
— Eu não fiz nada. Nem pensei em fugir, por que me puniu? — Gritei. Ah, eu estava realmente fora de mim por cair de desejo por ele. Eu deixei que ele me tivesse. E eu gostei que ele me tivesse. Maldito entrando na minha mente assim, me machucando, me remoendo, me deixando... me deixando fora de mim. Eu não me reconhecia mais. Eu só não sabia quem eu era.
Ele mesmo estava atordoado. Então eu senti sua mão na corrente em meu pescoço e ele a mexeu em mim e o metal agora contra minha pele me deixava um pouco inquieta. Nossos olhos se encontraram, os olhos rubros dele me faziam falta e o cabelo azul e as garras da sua verdadeira forma. Então de novo, me queimaram. Mas era só uma sombra de quando eu pensava em fugir. Era só um leve calor se comparado aquilo. Um calor que parecia os beijos dele me causando repulsa e desejo ao mesmo tempo.
— Não foi punição. — Ele comentou também angustiado. — Foi só um erro. — Comentou vagamente.
— Um erro? — Comentei. — Me queimou por um erro?
— Quando é você que pensa muito em mim... — Ele começou analisando algo na rua que fosse mais interessante do que eu. — As correntes me atraem até você. Porque se você se encontrar em perigo, eu vou saber.
— Eu ainda odeio essas coisas. — Falei. — Talvez usá-las vez ou outra em momentos mais particulares nossos não fosse de caso r**m. Mas o tempo inteiro, Aldahain. Quando fosse só nós dois e as quisesse colocar me soaria interessante. Mas não me limitando o tempo inteiro. Isso me deixa furiosa.
Eu me dei conta do que falei. Eu estava horrorizada. Ele apenas me puxou para seus braços e ficamos assim quietos.
— Certo, vou te soltar. — Falou calmo como se nada fosse, como se eu não tivesse implorado infinitas vezes por liberdade. — Mas temos um pacto, Demetria. E se descumpri-lo sua amada Tretagon conhecerá minha fúria. Seus amados morrerão um por um nas minhas mãos se descumprir nosso trato de um ano.
Então eu senti o peso delas se desfazerem. Olhei meus pulsos e elas não estavam mais lá. Eu era livre. E ele sabia tanto quanto eu que um pacto para ser selado realmente precisava de algo além de meras palavras, um beijo, sangue, relação sexual... Dependia da entidade com quem você barganhava. O nosso não era de fato válido.
O estudei. Ele estava nervoso, mas me deu um passo de fé. Ele não admitiria isso, mas eu percebi.
— Um ano. — Repeti para mim mesma, mesmo tentada a voltar e correr dele, eu me abstive de Sarah de Fenit. E fui Demetria, a rainha de palavra. — Eu vou honrar minha palavra. Obrigada Aldahain.
— Não seja i****a por eu ter devolvido algo que já era seu por direito. — Ele comentou chutando uma pedrinha com o sapato italiano preto bem polido. As mãos no bolso do elegante terno branco. — Está liberta das minhas correntes, mas não da minha presença. — Ele informou repreensivo. — Você às vezes é tão ingênua que dá raiva.
— Não quero me livrar da sua presença de qualquer forma. — Outra vez, as malditas palavras sem filtrar. Os desejos estúpidos e momentâneos. — Eu basicamente te trouxe ao mundo quando fiz Serper sair de Tretagon. Então você é minha responsabilidade. Não posso te perder de vista. — Consegui inventar rápido. Na realidade, o jeito que ele e eu nós amávamos era diferente de tudo o que já experimentei antes. Massageei meus pulsos ainda avermelhados. Aldahain me estudava ainda, com os olhos castanhos claros que eram quase cor de mel..
Ele sorriu um pouco. Eu estava um tanto agitada agora. O sorriso dele era bonito, misterioso e eu nunca sabia de fato o que queria dizer. Era só incapaz de classificar esse sorriso. Analisei uma árvore ali, as flores dela caiam por ser outono, mas agora ela floresceu do nada ou estou doida? Sem o peso das correntes e ele tão perto. E ele tendo me soltado. E eu gostando de fazer amor com ele, não fazer amor, era algo mais primitivo do que isso, primal, algo que eu nunca tive de fato com meus amantes porque me deitava com eles por amá-los e eu não o amava, eu o odiava, mas meu corpo queria seus toques e quanto mais eu tento entender, com mais raiva fico.
O beijei sem conseguir pensar direito e ele me correspondeu. Senti seu corpo contra o meu amassando-o com seu peitoral forte, apesar de não tão musculoso, nossas diferenças de alturas pela primeira vez não foi algo que me irritou, suas mãos em minha pele, subindo minha blusa e sua mão erguendo o tecido da minha camisa, alcançou meu peito sem cerimônias e seus lábios em meu pescoço chupando a pele. Eu gemia alto. Ele sabia como me dominar, como me prender em correntes da alma e me fazer querer ser sua serva. E eu odiava ser dominada, mas eu gostava dele fazendo isso.
— Hm... — Soltei quando ele me mordeu na curva do pescoço deixando uma marca com toda certeza. Foi diferente de tudo. Eu o mordi também no pescoço sem me importar e tomando cuidado com a corrente que ele tinha. Eu queria marcá-lo como meu pertence também.
— Quer ver seu hotel? — Me perguntou ainda respirando sobre a pele quente do meu pescoço, meu peito inflando, subindo e descendo pela respiração rápida. — Os documentos estão todos em seu nome, esposa.
— Não agora. — Eu falei.
Peguei a mão dele. E saímos do terreno baldio para algum lugar, então vi uma rua. Encontrei logo o que eu queria. Uma sorveteria. Então o puxei para ela.
— Você tem algo que não seja ouro? — Perguntei.
Ele negou. Desisti da sorveteria. E nós paramos na calçada da rua. Ele estudou tudo que eu já havia visto com ligeira inquietação que fosse visto por outros e que alguns homens e mulheres o olhassem tanto por sua beleza. O beijei novamente e escutei o barulho de um ônibus. Algumas pessoas entraram no ônibus. O estudei então. Era uma sensação estranha, esse mundo onde cresci, alguém comigo nele. Meu coração estava inquieto.
— Por que está chorando, Demi? — Foi algo que ele perguntou. Demi, ele me chamou de Demi. Só me dei conta das minhas lágrimas agora. — Sente tanta falta deles assim? É só um ano...
Não era isso. Era só a sensação de que Sarah Clarity existia pela primeira vez. A garota do convento que vagava como um fantasma sem voz e sem ser vista por esse mundo. Que estranho. Eu era uma mulher, mas a adolescente em mim parecia tão ressentida que não vivemos o que tínhamos para viver nesse mundo e em Tretagon.
— Estou feliz por estar livre. — Confessei algo. Não era mentira. — Obrigada por tirar as correntes e me dá esse voto de confiança. Prometo que o honrarei.
— Pare de dizer essas coisas. — Pediu ele envergonhado quase. Culpado. Ótimo. Temos culpa aqui. Culpa que o fez me soltar. — Só aumenta minha culpa por ter te prendido pela primeira vez. Eu não deveria ter feito isso. Hel estava certo.
— Sim, foi errado. — Eu não aliviei seu fardo. Por que o faria? Eu não iria maneirar para o lado dele de maneira alguma. Ele me prendeu! — Mas agora estou livre e eu te dei minha palavra de que sou sua por um ano. Use-me como quiser. Agora tem minha permissão em tudo. Não te odeio mais tanto assim.
Ele me estudou.
— Não deveria dizer coisas assim, Demetria. Pode deixar as pessoas confusas. E um ser cósmico confuso não é bom.
— Serei mais direta então, meu corpo é todo seu por agora. Use-o como quiser, mestre. — Repeti sentindo as palavras me acariciarem.
Isso me excitava. Me deixava quente.
Ouvi seu rosnado no meu ouvido e tremi. Ele tocou minha cintura com os dedos, a apertando impiedoso por cima da blusa, peguei sua mão e a beijei. Beijei a corrente dele no pulso e então o senti me erguer do chão, minhas pernas em volta de sua cintura. Nossos corpos juntos. Ele me apoiou numa parede qualquer. As pessoas transitavam entre nós, mas éramos só mais um casal desse mundo.
— Quero você, Demetria...
— Você me tem. Mas me quer por que me pareço com Hela? — Eu provoquei, queria que ele mentisse de novo. Porque eu sabia quando alguém mentia ou dizia a verdade, mesmo entidades cósmicas.
— Não. Porque você é você, pequena rainha. Agora minha esposa Kate Aldar. — Ele falou sério e pensativo.
Finalmente a verdade. Ele me sondou e eu me mantive quieta mesmo sentindo meu coração maldito me trair. Eu gostava do jogo sensual entre nós, dele fingir querer Hela quando queria a mim, e eu sabia que era mentira, mas se ele queria jogar assim e isso fazia mais fácil para ele, que fosse. Mas ouvi-lo dizendo a verdade era ainda mais alucinante.
Eu o beijei trêmula, toquei o rosto dele, sentindo borboletas no estômago e as lágrimas de uma antiga eu descerem. Sarah Clarity, eu te apaguei de dentro de mim quando virei Demetria Alexandra Fenit porque ser uma rainha era melhor do que ser uma órfã criada por freiras, me perdoe por abafar sua voz adolescente por tanto tempo. Era como se ele fosse meu primeiro beijo real, além dos mundos e do desespero de ser uma rainha escolhida para não ser uma orfã. Como se eu estivesse na escola e ele fosse um colega de aula, como se ele fosse alguém para quem entreguei meu coração numa paixão juvenil. Sem obrigações com ninguém, sem um reino para salvar, sem aliados que amei. Só eu numa versão adolescente com um primeiro namorado que era meu marido nos papeis.
Quando paramos eu não entendi os soluços. Eu não entendi a tristeza da minha alma que era tão sombria. Era o grito mudo de Sarah Clarity dentro de mim pelo que não vivemos e nem nos permitimos viver. Eu não entendi que aquela que fui aqui ainda tinha tanto poder sobre mim porque eu fui ela. Eu não era só Demetria. E Sarah de Fenit era uma mentira. E mentiras nunca acabavam bem.
Ele enxugou minhas lágrimas as beijando. Senti seu peito forte contra meu rosto. Seu abraço ainda mais poderoso como se quisesse juntar os vários pedaços que sou, as várias pessoas em uma.
— Eu ainda te odeio por me prender. — Admiti roçando a boca na sua, meus braços em volta do seu pescoço. — Mas agora estou menos irritada. Precisamos pensar em como vender aquele ouro sem chamarmos atenção. — Comentei com ele e o beijei sem resistir aos seus lábios macios.
— Disse que eu tinha seu corpo, Demetria. É verdade? — Questionou rouco no meu ouvido. Ah faz isso não! Não resisto assim. Não agora que preciso pensar em com vender o seu maldito ouro que vai nos deixar milionários. Eu era péssima nisso. Ele escolheu uma péssima guia.
Assenti. Eu vi os olhos ficarem rubros e ele sorrir de lado.
— Eu não sou bom. — Ele avisou, isso me deixou mais louca. — Não tem ideia do que fez ao dizer isso. Do monstro que alimentou.
— Mestre. — A palavra saiu da minha boca. Eu gostava dela. De usar ela com ele.
—Diga serva. — A voz dele era estranhamente quente agora e não mandona como antes.
— Eu gosto da sua verdadeira forma.
Sua mão veio à minha garganta e contornou onde antes ficava a corrente. O assisti me tocando assim. Eu tremia inteira, hm... era gostoso o toque dele. Mordi o lábio inferior o olhando e ofeguei.
— Diz de novo... — Pediu mordendo o meu pescoço.
— Mestre, eu gosto quando me toma na sua verdadeira forma.
Ofegamos juntos. Ele mordeu meu lábio inferior e o puxou. Senti suas mãos nos meus fios enquanto a língua dele explorava minha boca e fazia minhas pernas se abrirem e tremerem.
— Bebê lindo. — Sussurrou no meu ouvido. — Criança amada.
— Meu amado mestre...
Eu ganhei. Eu sei. Senti ele duro contra mim. Movi meus quadris contra ele para atiçá-lo e ele me prendeu contra a parede com mais fogo.
— Hm... Estamos na rua. Não podemos fazer isso aqui. — Informei rindo. Puxei a gravata azul do terno dele. Encerrei o beijo dele com uma mordida em seu lábio inferior lambendo onde mordi e escutei um urro dele.
— O que gosta na minha verdadeira forma? — Perguntou contra o meu pescoço.
— Seu cabelo azul, seus olhos verdadeiros que são rubros e suas garras. Gosto quando rasgam minha pele, entram na minha carne... Dói, mas eu gosto.
Ele se afastou então. Como se não acreditasse pelo modo que seus olhos agora rubros me fitavam como os de um cachorrinho perdido.
— Vou ser uma boa esposa por esse um ano. — Garanti. — Não vai ter do que reclamar depois. E quem sabe não aumente até os dois anos de trégua para cinco.
Ele sorriu.
— Isso não está em negociação. Mas agora, Demi... Eu preciso falar com meu irmão.
— Você pode ir. — Eu falei. Queria criar coragem para entrar no hotel.
— Quero que venha comigo. — Pediu. — Estou nervoso em vê-lo. Queria que estivesse comigo.
— Tudo bem.