Observou Malfada, a velha carrancuda que terminava de apertar o espartilho do vestido azul de mangas caídas que mostrava os ombros e cobriam um pouco do antebraço. O vestido azul claro tinha saia levemente rodada. E tinha um decote profundo que ia até o umbigo mas com renda branca que cobria do vale ao umbigo exposto numa costura. Demi soltou um suspiro. Analisou as marcas de algemas espirituais em seus pulsos, em seu pescoço, ergueu a saia do vestido e as viu em seus tornozelos. O odiou. O odiou tão profundamente.
A velha era horrenda e medonha. Não o físico, no físico parecia uma governanta normal com cabelo prateado preso num coque severo, algumas rugas de expressão no rosto e elegância nos modos. Era o espiritual.
Cinder. Como estava Cinder? E Kai? E Dera, sua filha de coração e vínculo? E seu príncipe draconiano a quem não pode dizer que estava apaixonada por outro tão profundamente que mesmo que o amasse, Kai já estava entrelaçado a sua alma? E nessa vida o escolheu já que não podia ter os dois junto a si e serem um trio? Soltou um suspiro. Lágrimas desceram. As malditas lágrimas de impotência perante um inimigo que não a estimava como Serper e de quem poderia sofrer torturas inimagináveis se não obedecesse. Serper nunca de fato a machucaria fisicamente, ele apenas a prendia em ilusões onde sabia que ela ia ser feliz.
Sentiu então a respiração de Aldahain em seu pescoço. Olhou para o espelho vendo o reflexo de ambos e ele atrás dela acariciando a curva de seu pescoço com o polegar, quis se afastar, mas ele agarrou sua nuca cruelmente com uma só mão e a manteve quieta. Então vendo a marca escarlate dos dedos dele sumirem, ela se manteve quieta. Aldahain passou os braços ao redor dela, conjurou com sua magia azul a joia e colocou a gargantilha prateada nela, com pingente retangular de safira como as placas que um dono coloca na coleira do seu cão com o contato do dono. Mas com a gargantilha bonita acabou escondendo a marca de sua real e humilhante submissão que era a sombra da corrente mágica que a fazia escrava dele e de suas vontades.
Então, de súbito, virou-a para si fazendo-a parar de encarar o reflexo e fitá-lo e, quando o viu com a máscara preta cobrindo parte dos olhos rubros e os destacando, ela abaixou os olhos. Duas bonitas pulseiras de prata. Uma que cobriu o pulso direito e a marca da corrente ali e a outra que teve o mesmo efeito. Mas ainda estava acorrentada, mesmo que agora com joias. Ela quis cuspir nele. Ele pareceu ler esse pensamento e apenas deu uma risadinha de escárnio. E então a coroa magnífica conjurada nas mãos dele como se fosse uma surpresa, um toque final, um jogo sádico e c***l para lembrá-la do que ela foi. E só então ela notou que ele também usava uma coroa prateada que parecia mais uma auréola e estava no meio da testa com uma pedra azul e os longos cabelos azuis caindo a volta dele retos como um véu. A coroa que ele a mostrou antes de colocar na cabeça dela era cheia de pequenas safiras e mais detalhada do que a dele. E então Demi sentiu a coroa colocada em sua cabeça e abaixou os olhos enojada.
— Uma rainha escolhida pelas trevas e pela luz. — Murmurou ele sério, pensativo, distante e inalcançável.
Por isso ela não esperava, essa certeza e respeito nas palavras dele. Essa quase constatação de um fato nas palavras dele se transformava quase em pecado porque ela também pertencia a escuridão e se pertencia a escuridão, ele era a verdadeira escuridão e não Serper que era um filho rebelde que tinha problemas com o seu Pai celestial. Ela esperava deboche no tom. Que tipo de rainha era ela afinal que não podia lutar para proteger seu próprio povo? Se sentiu tão pequena, tão frágil, tão exposta e sentiu a mão dele em seu ombro. Demi ergueu os olhos furiosa, ergueu a mão para estapeá-lo pela audácia, mas ele segurou o pulso dela e beijou a pulseira que a deu que cobria a corrente de sua submissão.
— Se parece com Hela. — Murmurou Aldahain. — Finja que é ela e então sua estadia aqui será suportável.
— Tem complexo de irmã? — Debochou ela. Aldahain não se enfureceu. Se manteve calado.
— Apenas olhe para mim com seus olhos que contêm os segredos do universo. E talvez, eu te deixe ter mais regalias do que antes, rainha da Fênix.
— Nunca, maldito. Nunca! Está ouvindo? Entenda que prefiro arrancar meus próprios olhos do que te dar qualquer acalento com eles. — Ela rosnou.
— Eles nasceriam novamente então não adiantaria nada minha querida rainha imortal. — Ele comentou rindo de lado. — Mas a dor seria excruciante. Posso ter seus globos oculares num pote se não quiser me ceder eles em seu corpo. Devo arrancar eles agora mesmo?
— Por que eu? Eu sei que há outras pessoas que lutam contra a escuridão. Por que eu?
— Porque você entrou no meu caminho. — Rosnou ele. — Porque ousou defender os seus com tanta garra que decidi que deixarei Tretagon para conquistar por último. Quero que veja o que vou fazer com cada mundo e que me tema. E chore por seu Deus. E então perceba que a sua Fênix é surda e muda as suas preces quando é eu que sou o verdadeiro rei dos noves mundos, dos noves infernos e de tudo. Eu existo mais poderoso do qualquer outro algo. Meu nome e minha alcunha é a infelicidade. Tudo que eu toco vê a ausência de graça. Quero te ver sofrer e quero esmagar essa sua fé nesse criador falho.
— Por que é tão importante que eu... eu... perca a fé?
— Só se cale. Não vamos estragar essa noite. — Ele pediu. — Ainda não me meti com sua gente. E se for obediente, talvez, só talvez, eu poupe alguns do que ama quando o fim iminente vier.
Demi o analisou agora. Ela sentiu a verdade na fala dele. Ela sentiu essa ponta de luz mesmo que mínima no fim do túnel e quis se agarrar desesperadamente a ela. Tinha uma chance dos que amava saírem intactos, ela agarraria, não importasse a barganha. Não importasse o custo.
— Promete que os poupará se eu te der tudo de mim? Os que eu amo, promete que não irá... não irá... tirá-los de mim outra vez? Eu não suportaria. Eu morreria de novo e o pior é que eu não posso morrer. Meu coração se partiria... eu...
Tocou o rosto dele, ficando na ponta dos pés, sondando os olhos rubros dele por detrás da máscara elegante e preta. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
— Me diga o que eu faço para que os poupe? O que quer de mim?
— Rainhas não choramingam pateticamente perante seu inimigo. Nunca te ensinaram isso, criança? — Perguntou Aldahain num suspiro. — Elas não imploram como mendigos.
— Promete que os poupará se eu fizer tudo o que você quiser que eu faça? — Ela repetiu ignorando-o, engolindo em seco. — Foi o que você disse. Você disse! Serei Hela para você e quem mais você quiser que eu seja... Apenas prometa... Prometa que aqueles que amo serão poupados. E então eu paro de me rebelar. Eu paro de te responder. Eu paro de tentar te combater.
— Eu prometo. — Aldahain concordou intrigado. — Agora sua parte do acordo. Me olhe como se me quisesse. — Pediu, Demi pensou em Kai, e Aldahain roçou os lábios nos dela. Demi forçou-se a mover a boca contra a dele. Sentiu o puxão em seu cabelo enquanto ele ofegava e ela tentava conter as lágrimas horrorizadas. Tocou o rosto dela.
— Hela. — Chamou por sua amada Morte.
— Sim. — Demi entrou no papel mesmo se odiando e com repulsa de si mesma. E então sentiu a candura do toque dele em seu rosto.
— Te amo, Hela. Eu te amo tanto. Tanto. Você é o único alívio a minha existência. Fique comigo dessa vez e não me tema...
— Não temo você, Aldahain. — Demi se obrigou a dizer sabendo que era isso que ele queria ouvir. Sabendo que Hela impetuosa como era jamais diria isso a alguém como ele. Mas ela precisou improvisar. Hela era independente e forte. Ao mesmo tempo tinha melancolia e fragilidade por sua natureza ser a morte.
— Então não saia do meu lado dessa vez. E eu te darei todos os nove mundos e todas as mortes que puder, querida...
— Não mexa no meu ofício. — Demi disparou. Ela teve os olhos dele nela. — A morte é o meu ofício e não o seu, querido irmão. — Isso seria algo que Hela diria certamente.
Aldahain sorriu pelo comprometimento da atuação. Era realmente tão real que o fez se esquecer de que era uma atuação.
— Não mexerei no seu ofício. — Garantiu sorrindo e roçou o nariz no dela. — Vamos ao baile agora?
Demi moveu a cabeça num sim.
...
Quando desceram da carruagem puxada por cavalos de olhos vermelhos e pelos negros e que corriam mais do que uma Ferrari, Demi percebeu que o baile não era algo habitual. A casa era de pedras escuras como um castelo. E era cheia de uma arquitetura gótica com gárgulas e vitrais. Havia espíritos despidos em coleiras e demônios com carcaças elegantes e humanas os puxando. Caminharam pelo tapete vermelho até o baile de máscaras e em jaulas estava explícito o ato s****l, homens com homens, mulheres com mulheres e homens e mulheres. Demi desviou o olhar ruborizada pela prazer exposto sem medidas. Então no ringue um brutamontes montava um jovem rapaz que perdeu a luta e o estuprava. E antes que se horrorizasse mais a mão dele tapou seus olhos e se viu sendo conduzida ao jardim, cuja lua gigantesca iluminava o céu. Só aí percebeu as lágrimas. A decoração era cheia de vermelho, preto, e a comida era atraente mas as pessoas assustadoras. Todos de máscaras, os que eram senhores. Servos como ela sem.
— Ah, a destruição bate à porta de um demônio. Como esse demônio deve reagir? Deve dizer a esta destruição que está com ela contra Azazel? —O homem de pele escura e muito bonito perguntou. Tinha os olhos vermelhos. — Isso cessaria hostilidades e evitaria conflitos?
— Sim. — Aldahain o respondeu.
— Mas ora ora... Quem é sua criança? Está viva? O que ela faz no mundo dos mortos? Tão pequena, não é?
Aldahain mexeu no cabelo de Demetria.
— Ela não interessa. — Aldahain Protegeu a identidade dela porque sabia que os demônios a odiariam por ser ela quem parou Serper uma vez. — É minha protegida somente. Não consegui deixá-la onde ela pertence e tive que trazê-la comigo. — Deu assim o assunto por encerrado. — E Hela ainda se recusa a me ver, Amon?
— Eu comentei por alto do seu despertar, majestade. — O demônio o tratou com o título que Aldahain ansiava, por temer perder a própria cabeça. — Sugeri que ela parasse de se autoflagelar e se soltasse das correntes. Morte me mandou dizer que os mundos já estão cheio de calamidades e não precisa da própria calamidade para piorar tudo. Disse que você estava melhor adormecido.
Demetria sentiu a onda de poder opressora vir de Aldahain, a terra tremeu e as taças de cristais e pratos quebraram junto a janelas. Ela foi até ele. O tocou no rosto. Aldahain a estudou.
— Diga que é mentira e que me ama e me quer desperto. — Exigiu de Demi a atuação. — Diga que esperou por mim para estarmos juntos.
Amon se retirou os deixando a sós. Demi tomou um profundo suspiro. Tomou coragem. E pelo bem dos que amava e para conter a destruição que sentia dele, não disse nada que seria mentira quando a própria Hela já havia dado sua palavra final sobre o que pensava sobre ele estar desperto. Sem opções ou palavras só o beijou. Aldahain superou a surpresa rápido. Então a puxou pela nuca beijando-a de volta e quando escutou um gemido de Demi, a empurrou com tanta força que a fez bater a cabeça no concreto e sangue saiu, apesar dela ter se curado. — Bom trabalho. — Ele rosnou querendo ela longe. — Você finge bem. Soube como mediar o conflito, uma pacificadora nata.
— Mestre, está mais calmo? — Foi só o que Demi disse.
Aldahain sentiu a fúria total se desfazer não com o beijo dela fingindo ser Hela no jogo sádico entre eles, mas nesse exato instante. Ele sorriu surpreso que a palavra de submissão total vinda do tom doce dela o paralisou em sua fúria pela recusa de sua verdadeira amada.
— Está agindo assim só porque irei poupar aqueles que ama? — A desafiou querendo ridicularizá-la e mostra-la o quanto ela era patética. — Me diga até onde iria por eles?
— Ah você não conhece o amor. Você não tem ideia do que eu faria por eles, para tê-los vivos e respirando! — Demi declarou calma. — Não quer mais que eu finja hoje? Já deu por hoje?
— Já deu de Hela por hoje. Como dizem na Terra. — Concordou ele. Ela assentiu. Aldahain quebrou a distância que ele mesmo impôs. Demi sentiu a mão dele em seu cabelo. Ele tirou a coroa dos fios dela e a jogou na grama e a pisoteou amassando-a pelos pisoes furiosos. Ele gritou — Essa coroa não pertence a você. Não é você que quero como minha rainha. Serper tinha péssimo gosto.
— Certo, mestre. — Ela concordou obediente e debochada. — Como queira.
— Será que nada te assusta? — Indagou ele perdendo a paciência. — Agora que não é Hela para mim não tenho motivos para te tratar bem, serva. Apenas quando atuar como ela terá minha estima e será minha rainha. Agora você é só uma prisioneira que é uma pedra no meu caminho.
— Certo. Eu não ia querer afeto de algo como você sendo Demetria, a rainha escolhida e regida pelo sangue purificador da Fênix. Que é quem eu sou agora. Eu sou a rainha escolhida para lutar contra você.
Ela ergueu a cabeça. Sentiu a mão dele se fechar em sua garganta. Os dois ofegaram juntos. Ele não a soltou. Levou os lábios aos ouvido dela.
— Mais uma palavra sobre a divindade e a Fênix que rege você e Tretagon e eu não respondo por mim, estamos entendidos? — Rosnou. Com a boca perto da dela, engoliu em seco. — Seja Hela agora. E me mostre o quanto me quer.
Demi quis dizer saboreando que Hela não o queria e ele mesmo tinha ouvido, mas não ousou. Ainda com a mão dele em sua garganta, deixou os lábios encontrarem os dele lentamente sentindo o gosto de proibido. Aldahain manteve-se imóvel aos carinhos adulatórios dela.
— Me perdoe e entenda. Você me assusta. — Ela começou e finalmente teve uma reação dele. — Vem, me toque também. Brigamos e brigamos, mas no fim sempre fazemos as pazes.
— Não quero te assustar, Hela.
— Quero você... — Demi manipulou-o.
Ele ofegou com o rosto no decote dela e respirando profundamente. A segurou pela cintura fina colando seus corpos.
— Você me deixa louco. — Confessou num rosnado e a mordeu impiedosamente arrancando a gargantilha. — Eu quero você desde que te vi pela primeira vez. Seja minha rainha... E reinaremos supremos na Morte e na destruição...
— Eu reino sozinha, Aldahain. E você sabe que o reinado da Morte é só meu e eu odeio quem tenta roubar o meu papel. — Demi continuou.
Ele riu tocando o rosto dela. Ele cansou-se do jogo por algum motivo.
— Você deve mesmo ter conhecido ela. Sabe cada resposta que a original daria.
— Ah, então acabamos o jogo novamente? — Questionou Demi, confusa. Ele a soltou assentindo com a cabeça. Demi suspirou atordoada. — Bem, mestre. Temos que ter um sinal para quando você quiser que eu pare de atuar. — Demetria sugeriu desviando o olhar do dele.
— Me chame de Mestre quando não conseguir ir até o fim como ela e for difícil e não saberia como ela iria agir em determinada situação. E quando eu quiser que pare de atuar, eu te afasto de mim e te trato como a serva inútil que é.
— Formidável. — Demetria falou irônica.
Ele riu mesmo sem querer.
— Tenho liberdade para agir como ela quando perceber que você vai destruir tudo num ímpeto de fúria?
— Tem. — Concordou ele. — Agora fique aqui e não saia daqui se tudo lá dentro te deixa horrorizada. Preciso falar a sós com Amon. E se alguém ousar te tocar, tem liberdade para agir como a selvagem guerreira que é. — Jogou uma adaga para ela. — Use isso. Mas nem tenha a ideia de tentar me matar. Sou imortal como você e a dor das correntes que te ligam a mim, iriam te queimar como mil sóis se se rebelar contra seu mestre. Imagine ser queimada viva e voltar para contar a história, deve ser só...
— Eu entendi. — Murmurou Demi amuada. — Vá vá... vá para sua reuniãozinha infernal e me dê um pouco de paz.