POV SERPER
Eu vim ao Vale dos Nômades, mas sem expectativa alguma de que ela aparecesse. E ela não estava mesmo aqui. Podia ouvir a comemoração em ecos do reino dela. Sarah, a nova princesa, a filha de Alexander com alguma mulher de origem desconhecida. A humildade de Sarah sempre foi algo que me surpreendeu muito. Poucos humanos são como ela. Ela abdicou de seu orgulho, de sua vingança e aceitou ser filha do homem que matou o pai dela apenas para não colocar em risco os que perdeu uma vez. E ela ainda acha que é egoísta e má? Engraçado. Humanos que se acham pessoas ruins, as vezes são as melhores pessoas porque têm consciência de que podem sempre melhorar. Agora aqueles que se consideram pessoas boas já começaram a deixar o orgulho vencer. E o orgulho é a queda final. E não há criador que possa contra isso. O orgulho distancia criador e criatura.
Que seja essa a história nova então. Demetria deve se odiar deixando o assassino do pai dela viver, mas essa é uma consequência da nova pena com tinta que contava essa história no pergaminho da vida. Mas abdicar de Demetria foi fácil para ela, a coroa, o dinheiro, o poder nunca a satisfez. Desde que ela estivesse feliz com os outros que amou e eu por um momento de ódio, matei, que fosse. Eu não podia trazê-los de volta para ela. Mas eu podia voltar no tempo e ela vir ao meu reinado atrás do Espelho tornou tudo mais fácil. Mas eu ainda era eu. Eu a amava, mas não podia abdicar do que sou por ela. E eu sou o m*l.
Posso dizer que me horrorizei com a figura diminuta de Sarah enquanto se aproximava das pedras mágicas que eram o portal para a Terra. Eu estava ao mesmo tempo decepcionado e aliviado. Eu não pensei que realmente ela concordaria. Eu achei que no fim nós lutaríamos em Tretagon como deveria ser no futuro. Suspirei. Aconteceria então, eu iria para a Terra que me deixaria incrivelmente poderoso pela falta de fé.
A lua não aparecia no céu se escondendo atrás das nuvens cinzentas. Eu apenas me mantive quieto. Ela se aproximou tirando o capuz de sua elegante capa mesmo sem enfeites marcantes ou bordados. Nossos olhos se encontraram. Usava um vestido azul escuro bem elegante por baixo da capa preta de veludo que voava com o vento e devido a sua palidez a fazia parecer um espectro.
A luz que vinha do portal era azul e nos iluminava na quase escuridão. As colunas se erguiam com runas mágicas que impediam o m*l de passar. A grama voava com o vento forte e uivante. Ela apontou para o portal. Ela ofegava. A noite era fria. Quando ela respirava saia fumaça de sua boca:
— Por que só não passa por ele? Eu estava no meu maldito baile e estava tudo perfeito. Mas tinha esse maldito compromisso com você.
— Por que eu seria desintegrado, meu bem. Preciso do seu sangue para passar pelo portal sem consequências. E escolhi essa noite porque lá é dia das bruxas. Feliz aniversário Demetria.
Ela revirou os olhos.
— Para quê o sangue? — Questionou com a impaciência habitual. Eu deveria esperar que teria que explicar passo a passo.
— O seu sangue me fará não ser morto pela purificação. É afinal o mesmo sangue que corria nas veias de Adam. E você querendo ou não, é a escolhida da Fênix. É um truque. Se eu só passar pelo portal, o m*l que eu sou, eu vou ser desfeito porque os dois mundos não devem ter contato um com outro e meu reflexo já vive lá. Eu seria desintegrado por não ser necessário e já existir um m*l naquele mundo. Mas se seu sangue estiver comigo... Bem, as coisas mudam.
— Só se cale. — Ela ordenou porque podia mudar de ideia a qualquer instante. Sua decisão era oscilante. Eu sabia. Me analisou mordendo o lábio inferior. Então eu fui até ela, a toquei nos ombros e selei os lábios nos dela. — Eu estive com você quando achou que estava sozinha lá. Eu lembrei do seu aniversário e toquei para você a melodia sombria da minha alma, que você dizia que era linda. — Os olhos bonitos e escuros dela nos meus como o da menininha inocente que aquelas mulheres de hábito a faziam sentir um monstrinho por seus dons mágicos de Tretagon, por sua magia que lá se manifestava pelas palavras já que não conseguia canalizar lá por não ser uma bruxa e saber usar a magia quase nula daquele mundo. O vestido de gala dela era muito bonito e as pedrinhas escuras com o qual era ornado cintilavam. . —Vamos repetir... — Ela tocou o meu cabelo. — aquele maldito mundo por Tretagon, certo? É esse o pacto?
— Sim, querida. É esse o pacto. — Rocei o nariz no dela. Ela deixou e não me afastou. Ela roçou o nariz no meu. E me beijou. A saliva era sua assinatura mágica.
— Devolva a alma de Kai. Não precisará dela lá. — Ela acrescentou isso ao pacto.
Claro que ela faria isso. Meu Kai, meu garoto dragão. Concordei porque queria partir em paz com os dois.
A beijei então pelo novo acréscimo ao pacto que era a alma de meu amado Kai. E então a alma dele parou de ter o meu selo. De novo, a saliva. O gosto do beijo dela era de vinho. Ela precisou beber para criar coragem de vir. Meu corpo ardeu por ela e por sua luz.
Sarah estava com raiva do todo poderoso, isso porque foi eu que a dei tudo o que sempre quis, mas ela não realmente deixou de acreditar nele, estava apenas profundamente magoada. Mas Deus não era um cachorrinho que você acariciava e ele fazia truques, ele nunca foi isso. Ele era um Leão, uma Fênix, um dragão ou todos os seres místicos que você teme e ao mesmo tempo sente fascínio por. Ela pegou a espada diminuta que trazia presa a cintura, o presente de Alexander, ela realmente a usava, cortou a mão e me ofertou o sangue que escorria do corte. Uma coisa sobre Sarah é que quando ela escolhia um dos nomes para usar, ela agia conforme a natureza dele. Sarah a aproximava de mim, mas mesmo sendo Sarah, ela ainda era Demetria, mesmo que esse nome estivesse agora escondido. E eu amava as duas. Uma por ser minha criança escolhida e a outra por ter a coragem de me enfrentar em nome Dele.
— Devo marcar você como os hebreus fizeram no Egito para o anjo da morte não levar seus primogênitos ou devo dar meu sangue a você, como o sangue do Cristo, Beba meu sangue e coma o meu corpo e viva, toda essa baboseira? — Ela debochou nefasta.
Eu conhecia sobre todas as formas de bem em todos os mundos. Apesar de na Terra, o criador ter mandado o próprio filho. Bem, a Terra era o mundo com mais incredulidade. Um único mensageiro não seria o bastante como nos outros mundos. Precisou ser o próprio Filho. O próprio Yeshua. E mesmo com o sacrifício dele, o meu poder lá seria gigantesco. Eles próprios adoravam o m*l em suas diversas faces.
Mas Sarah estava blasfemando agora. E eu odiava isso por alguma razão. A alma dela era tão linda, não queria que fosse corrompida. Ela estava revoltada com o criador. Como eu uma vez me revoltei. Como Lúcifer se revoltou. Mas eu não era Lúcifer. Eu era um dos que caiu com ele apenas. E isso foi antes que os mundos se formassem na grande explosão que foi nossa queda. E eu me tornasse a encarnação do m*l de Tretagon. Porque sempre precisa haver luz e trevas para que o equilíbrio exista. Eu precisava existir e por isso não fui de fato extinto.
— Te amo. — Sussurrei. Peguei a mão dela e lambi o sangue.
— Ah, então é beba e viva, certo? — Ela caçoou com a sobrancelha arqueada.
— Não deboche. — Pedi. — Não combina com você. — Rocei o nariz no dela. — Não sabe o quanto sua fé já te salvou de problemas na Terra e em Tretagon. Ele cuida de você. O Guarda de Israel. Ou se preferir, o criador de Tretagon.
— Por que está dizendo isso para mim?
— Não sabe por que eu existo? — Eu perguntei surpreso. A ingenuidade dela me comovia as vezes. — O maldito escreve certo por linhas tortas. Querida, até eu sirvo para o propósito dele. — Expliquei calmo. — Mas esqueça. Não vou te explicar isso se você mesma não entende, não há tempo. Adeus, Sarah.
Rocei os lábios nos dela uma última vez e eu passei pelo portal.
...
TERRA- 2019 d.C ( Depois de Cristo),
SALÉM- MASSACHUSETTS
Salém, a cidade amaldiçoada pelo sangue inocente era um dos pontos mágicos desse mundo, como o Triângulo das Bermudas, as pirâmides do Egito e a cidade perdida de Atlântida cujo mar cobriu seus restos. Eu caminhei ouvindo o canto dos pássaros, sentindo a brisa no rosto e o cheiro corrompido. m*l cheguei aqui e já senti meu poder aumentar quinze por cento.
Eu não sabia de fato como agir nesse mundo. Então o fato do portal levar a uma floresta me ajudou mais. Eu precisava do sangue de algum humano que conhecia o mecanismo desse mundo. O de Sarah não foi o suficiente. Eu ouvia o grito escandaloso da Imperatriz do Inferno ecoando:
“O corpo da Sacerdotisa de Yeshua. Eu o quero como sacrifício meus filhos e filhas.”
Devo dizer que existia uma Lilith em todos os mundos. Magda, em Tretagon, ela era uma v***a que me atraía, mesmo eu preferindo continuar sozinho, ela foi minha primeira bruxa mesmo sendo escolhida como a sacerdotisa dos elementos. Mas o único companheiro a quem de fato dei a imortalidade e ele me odiou por isso foi Kai, meu garoto dragão, meu deus da carnificina ou como chamam nesse mundo vampiro e ele transformou Magda porque não podia vê-la morrer, apesar dela ter encontrado seu fim. Kai sempre foi meu amado e sempre teve minha mais alta estima, sempre vi sua ganância por poder mais como um complexo de inferioridade do que orgulho.
Mas já nesse mundo em que estou, a magia dos sacerdotes e sacerdotisas são raras. A magia aqui é corrompida por nossa raça caída. Humanos aqui são tão descrentes que não sabem do próprio potencial mágico e se aliam a entidades nefastas como nós para terem poderes. O espiritual de Tretagon é mais desenvolvido do que aqui por isso vibram em diferentes planos de existência.
Eu caminhei pela floresta. O sol ainda nascia aqui. E então eu vi o convento onde Sarah foi criada. Eu me pergunto o que irá acontecer com a versão dela que vive aqui. Ou será que vim depois que ela foi recrutada para Tretagon? Em que ano estou?
Continuei andando pela estrada, até chegar a rua, fui arrebatado pelo movimento de automóveis, o som das buzinas, a fumaça das fábricas e os vários prédios quando cheguei a civilização. Então caminhei entre eles.
Mas foi a menina de saia curta e reta que ia até o começo da coxa, e uma blusa que mostrava o umbigo que me parou. Ela tinha o cabelo azul longo. E tinha marcas estranhas no pescoço e no braço em forma de rosa.
— Caramba. Adorei. Cara, que fantasia de Haloween insana. Você é tipo aquele cara do Inuyasha... Qual era o nome dele? — Ela estalou os dedos tentando se lembrar. — Sesshoumaru-sama?! Sim, tirando os olhos. Que peruca ótima. Onde comprou? Preciso de um lugar assim para o meu cosplay de Kagome. — Ela tocou o meu cabelo. — Uau! Pera aí. É de verdade?
Assenti. Eu era um anjo afinal. Eu conhecia todas as línguas humanas.
Ela riu.
— Caprichou na fantasia. Com certeza ganha um concurso de fantasias fácil fácil. Continue o bom trabalho de cosplay. — Me deu uma piscadela cúmplice, voltou ao seu caminho. Ah. Mais que criaturinha mais adorável aquela. O cabelo azul dela voava com o vento.
Continuei a caminhar. As pessoas me olhavam. Eu não sabia de fato aonde queria ir. Caminhei por horas. Não sei.
Até que eu fui atraído pelo poder purificador que superava o de Sarah fácil fácil. Forte demais e me atraiu de imediato tanto que me vi me sumindo e surgindo perto dela. Ela me deixou zonzo e tive que me apoiar num poste. Eu a vi na rua. A garota que era parecida com Sarah passou por mim. Parou por um instante me fitando com estranhamento, depois negou com a cabeça. O crucifixo do pescoço dela emitindo uma vibração magica e poderosa. Uma rapaz tombou em mim na calçada apressado para o trabalho. Me pediu desculpas.
Então foi só aí que ela parou. Percebi que antes ela achava que eu era só coisa da sua cabeça.
Ela caminhou até mim.
— Volte para o inferno de onde saiu. — Ela mandou irritada. — Era só o que me faltava... Outro demônio andando por aí como humano.
A luz dela me cegava. Sarah era um incômodo. Mas esta aqui era assustadoramente pura luz.
— E se eu não quiser voltar? — Desafiei com um sorriso. Ela revirou os olhos. Ela parecia pouco feminina. Apesar de ser uma garota. Ela tinha o cabelo curto como Sarah, mas as roupas que usava não destacavam nenhuma curva do seu corpo esguio. E o rosto dela era oval e o nariz reto e afilado. Os olhos escuros eram redentores. Não havia julgamento. Ela não se considerava um júri como Sarah. Eram só bondade desnorteante e sem severidade. Apesar de agora estarem falsamente ameaçadores.
— Então pelo menos tente não chamar tanta atenção. — Ela murmurou. — De onde foi que você saiu? Um anime? — Falou bem baixinho.
— Vim pelo chamado da Imperatriz do submundo. — Comecei. Notei que tive a atenção dela de imediato. — Você é a sacerdotisa de Yeshua, o prêmio para todos os seres infernais que derem seu coração como oferta a ela?
—Ah, e você é um deles? — Ela me desafiou defensiva. Vi uma bola de fogo violeta em sua mão. E os olhos dela ficaram violetas. Era desnorteante, eu senti algo estremecer no meu domínio espiritual. Sarah era uma leve folha ao vento se comparada a essa menina que era o próprio vendaval. — Pensa que vai arrancar meu coração e ofertar para a v***a? Porque se for te garanto que não será sem luta. Vamos a um terreno neutro e eu te mostro quem eu sou.
— Não quero entregar você a ela. Quero proteger você dela. — Murmurei.
Ela saiu da pose defensiva voltando a bondade desnorteante de antes. Os olhos escuros dela me analisaram com o mesmo poder de Sarah de mentiras e verdades. Bem, eu não mentia sobre ajudá-la, mas isso porque eu queria tomar o trono de Lúcifer. E a bola de energia em sua mão se desfez. Que poder é esse? Ela conseguia conjurar magia nesse mundo, mas não estava vinculada a nenhum caído... Mas sim a um anjo que servia a Deus.
— Ah... desculpa. É só que... deixa para lá. Bem, já que veio pelo chamado dela, mas para ajudar.... deve ter sido um dos que despertou sem saber nem o tempo em que está. Judas falou sobre os de vocês que enlouquecem com o tempo e se enterram e ficam sem beber sangue. Vem comigo. Meu nome é Anne. Qual é o seu?
— Ariel. — Falei meu nome antigo, o nome de antes da queda.