POV SARAH- DEMETRIA
O gosto do sangue de Kai foi a coisa mais estranha da minha vida. Ferrugem, água e sal, era essa a combinação horrível, mas o gosto, o gosto deu lugar a sensação e a sensação era inebriante, o sangue me mostrou o bebê dragão que não podia se transformar adotado pela bela menininha loura que era uma magicista em Gardênia, mostrou os sentimentos de Kai por ela. Por Magda. Mostrou que ela o sangrava para alimentar o rei Hade a quem serviu, mostrou a traição dela ao entregá-lo a Serper como oferta para conseguir seus poderes de controlar os quatro elementos. Mostrou que ela o usou para se transformar numa deusa da carnificina o seduzindo e quando Kai se declarou ela riu dele.
Foi o suficiente. Eu não queria saber mais. O ciúme preenchia meu coração. Eu o empurrei. Eu o sentia dentro de mim.
— Te amo. — Repeti decidida e sem medo agora que eu compreendi sua autodefesa. — E te amaria quando era só um dragão em forma humana. Porque sua alma linda me cativaria...
Ele tocou meu rosto com as duas mãos. E eu beijei a sua palma. Um sorriso amargo em seus lábios.
— Eu sei. Queria ter te conhecido naquela época, Sarah. — Ele sussurrou como um segredo. Seus olhos violetas nos meus e sua boca perto da minha. Eu quebrei a distância e selei meus lábios ensanguentados nos dele. — Entendeu agora, adorada? Mulheres, homens, mulheres com essências masculinas, homens com essências femininas, pessoas que não se veem como nenhum ou outro, eu realmente não me importo.
Eu assenti.
— Você só tem medo que todas as mulheres sejam traiçoeiras como ela... — Eu explicitei o que ele não dizia. Dei um longo suspiro. — Vou cancelar meu noivado com Iker. E então vou, eu vou me casar ... — Rocei o nariz no dele. — Me casar com você.
— Você está pedindo minha mão em casamento? — Kai disse com um sorriso de lado. — Não sei, sou bem difícil de conquistar.
— Sim. Agora eu sei o que eu quero. E eu quero conquistar você. — Eu tinha essa certeza no meu coração.
— E Iker, não o quer também? — Perguntou-me traiçoeiro. Deixei minha mão passar pelo peitoral dele. Por um minuto pareceu uma criança amuada, selei a boca na dele e arranquei o bracelete de Fedrer de mim e o joguei longe. Iker e Fedrer estarem vivos era o suficiente para mim.
— Por que? Posso me casar com os dois? — Questionei só para provocá-lo. Contudo Kai apenas encarou o bracelete no chão como se soubesse o que era. Mas como ele poderia saber? Estou ocultando minha mente dele.
— Não. Não pode. — Ele determinou. — Mas eu quero que pense bem. Eu sou um monstro, amor. — Ele me chamando assim me deixava bem quente. Eu o queria novamente dentro de mim. — Iker é sua chance de ter uma vida normal.
— Vida normal? Sério? Querido, eu fui criada em outro mundo paralelo a esse até meus dezoito anos, onde descobri que era uma rainha e blá blá blá... O normal passa bem longe de mim. Kai, antes eu não sabia dos seus sentimentos por mim, eu queria sua amizade e lealdade. Antes Iker foi meu marido e eu o amei com todas as minhas forças como era para ser, eu fui a esposa que deveria ter sido. Mas agora, eu sei o que você sente e eu estou livre. Esse Iker não é aquele com quem me uni para ser um só corpo e uma só carne. Aquele Iker morreu. — Eu disse sentindo uma dor no meu coração.
— E eu não sou aquele Kai que você amou...
— Exato, não é... — Eu concordei. — Eu já era louca por você antes. E agora que eu sei que tenho chance com você, quer dizer, com essa versão sua, querido, eu vou te agarrar com todas as minhas forças. — Sussurrei e rocei os lábios nos dele. Ah, gelado. Tão gostoso seu beijo.
— Iker é louco por você agora. Não é tudo que você sempre quis? — Ele insistiu nisso como um disco arranhado.
— Iker gostar de mim era só meu ego ferido. Ele me humilhou muito, se redimiu no fim, mas mesmo assim eu me sentia o tempo todo culpada com ele, pelo que aconteceu a Dragomir por causa de meu tio e por ter te feito tranformá-lo num deus da carnificina. Mas agora, nessa vida, ele viveu antes de mim, com certeza conseguirá viver depois de mim e não tenho Alexander como meu inimigo. Eu me decidi e eu quero estar com você. E agora que nós temos essa chance, eu vou agarrá-la com todas as minhas forças. Não precisamos casar. Podemos ser só companheiros um do outro até nos cansarmos da cara um do outro. Vamos ficar juntos por agora? Eu não tenho que esconder nada de você. Sabe que fui Demetria e agora sabe que eu amo ser Sarah.
Ele tocou meu rosto e com um gigantesco sorriso assentiu com a cabeça.
...
Falar era fácil. Difícil era fazer. Esperei por Iker na porta do quarto dele. Cinder me estudava parecendo ler algo em minha mente. Então ela se aproximou e sussurrou no meu ouvido.
— Seja lá o que for fazer, você não conhece o príncipe Iker como eu. Não faça, alteza. Por favor, não faça.
— Por que está falando isso Cinder? — Pedi, um tanto que atemorizada.
Ela suspirou. Me olhou com os olhos verdes oliva, ela tremia.
— Ele é orgulhoso e tem um maldito dragão, alteza.
— Cinder, eu também tenho uma dragão-fêmea. — Eu disse.
Ela me mirou.
— Alteza, não faça isso. Por favor, não faça isso. Eu ouvi vossa alteza e o rei dos deuses da carnificina no seu aposento... Eu só ia chamá-la para se banhar. — Ela explicou. Tocou o meu rosto. — Iker abriu mão de uma antiga promessa por você, ele veio a Fenit por você, ele te deu a escama do dragão dele, vocês ficaram noivos perante toda Tretagon... Não que isso deva significar algo, são apenas ações, mas para ele é muita coisa. O que acha que ele vai fazer quando souber que vossa alteza quer dar fim a tudo isso por ter sentimentos por Kai, o rei dos deuses da carnificina?
Eu toquei Cinder no rosto.
— O príncipe Iker é orgulhoso, mas não faria nada, querida. — Acalmei-a. Selei meus lábios nos dela.
— Alteza, Iker tinha um irmão mais novo. Era um bebê. Todos pensam que o bebê morreu por uma doença no nascimento. Mas o bebê era uma ameaça a Iker como príncipe herdeiro... — Ela disse isso cheia de insinuações que não ousava dizer em voz alta. E essa fala dela tinha tanta convicção que passou no radar de mentiras e verdades que eu sou.
— Cinder, não seja mórbida, meu amor... — Pedi horrorizada.
— Estou dizendo exatamente o que quero dizer, minha princesa. — Ela falou calma e beijou meu rosto. — Eu te amo. Você é luz, você é libertadora, você é uma alma muito muito caridosa e apaixonante. E você conquistou a fera que ele é e a domou. Ele te estima. Mas se ferir o orgulho dele, o que acha que acontecerá com seu amado rei, você e comigo que agora também tenho seu afeto?